O acordo com as Farc e notas sobre a política colombiana

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“E o que você acha da Paz de Santos?”, emendava, quando a conversa com algum colombiano ia caminhando para o campo da política. Mesmo que o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, pertença à família que é dona e, consequentemente, mantém controle do maior jornal do País – El Tiempo –, parte da população ainda se mostra resistente à aprovação do acordo.

Há quem diga que a paz já existe e as negociações são apenas simbólicas, já que as Farc perderam força nos últimos anos. Entretanto, não são a única guerrilha na Colombia, e ainda há partes do território inacessíveis. No departamento (estado) de Macarena, no sudeste do país, por exemplo, há um rio com diversas cores chamado de Caño Cristales. Só é possível chegar no local se você estiver com alguém que possui contato com os guerrilheiros da região.

Passos rápidos

Governo e Farc negociam há muito tempo, porém anunciaram o cessar fogo definitivo em final de julho. Em pouco mais de um mês, o documento, com mais de 200 páginas, foi publicado na íntegra no site de El Tiempo. O acordo foi assinado dia 26 e o plebiscito acontece no domingo, 2 de outubro, ou seja, pouco mais de dois meses do processo começar a realmente se solidificar.

Santos: a criação de Uribe que ganhou vida própria

Álvaro Uribe, presidente antes de Santos (2002 a 2010), rompeu com a estratégia de negociação de seu antecessor, Andrés Arango, e reiniciou, com sucesso, o combate armado às Farc. Santos, por sua vez, era seu ministro de defesa e ganhou popularidade no período, sendo apoiado por Uribe nas eleições de 2010. Entretanto, diferente do que Uribe pensava, Santos começou a trilhar seu próprio caminho.

Neo-liberal populista, Uribe ficou conhecido por sua personalidade forte. Não foi somente com as Farc que tensionou conflito: em razão de divergências com Hugo Chávez, Colômbia e Venezuela quase entraram em guerra. A situação chegou ao ponto de que tanques e tropas das duas nações foram movidas para as fronteiras e ficaram prontas para entrar em combate.

Santos, por sua vez, adotou uma política totalmente ao contrário da de Uribe, com uma estratégia pacifista: ao chegar ao poder, buscou conciliar as diferenças com a vizinha Venezuela. E selar a paz com as Farc seria o grande legado de seu governo. Esse foi, inclusive, o mote de sua campanha de reeleição (“Vote pela Paz”), quando Uribe marcou oposição apoiando Oscar Zuluaga. Até por isso, a aprovação da paz no plebiscito é necessária para Santos mostrar que tem apoio popular.

O que pensam os colombianos

Todas as pessoas mais jovens com quem falei se mostraram a favor do acordo de paz. O mesmo vale para quem vive em centros urbanos como Bogotá e Medellin. Não estive na parte sul da Colômbia, local que mais sofreu com as guerrilhas.

No departamento de Santander, por exemplo, todos com quem falei – com exceção dos jovens – se posicionaram contra o acordo. Um casal de pastores testemunhas de Jeová disse ser a favor da paz, mas questionou como ficavam as famílias que tiveram entes queridos mortos e terras surrupiadas pelos guerrilheiros. A dona do hostel em que fiquei apresentou um argumento semelhante, afirmando que perdeu amigos, sendo um absurdo que as Farc ganhe cadeiras no parlamento.

Em Villa de Leyva, no departamento de Boyacá, muito próximo à Bogotá, uma colombiana disse que as pessoas de Santander vivem em uma Colômbia “a parte”, que nunca teve guerrilha, e por isso pensam dessa forma. Que as pessoas atingidas pelas Farc, o que mais querem é a paz.

Orlando, um engenheiro que conheceu os locais mais inóspitos do território colombiano a trabalho, construindo estradas, afirma que a paz é boa para o país. Disse que muitas vezes teve dificuldades e passou por momentos em que temeu por sua vida. Os guerrilheiros se concentram em áreas mais selvagem, onde não há muita estrutura e se concentra muita riqueza mineral, como poços de petróleo e minas de ouro e diamantes.

Consequencias

Mesmo as Farc sendo a maior guerrilha da Colômbia, não é a única. Poucos souberam me responder o que vai acontecer com as outras, entretanto lembraram que a maioria já firmou acordo com o governo. Há ainda os grupos paramilitares. Muitas pessoas com quem conversei afirmam que o governo financia esses grupos, cuja razão de existir seria o combate às Farc. Com o fim da guerrilha, também deixariam de existir.

Há quem diga que a aprovação do acordo abriria espaço para se caminhar em direção da legalização da maconha e da cocaína no País, o que é tido com certo temor por algumas pessoas. Os colombianos bebem muito, o álcool é muito barato (o litro de cerveja sai por R$ 3) e se encontra pouca informação sobre os perigos de seu consumo excessivo; Há quem diga que, em razão da falta de informação, a legalização das drogas causaria um problema de saúde pública. Sem contar que o consumo de cocaína é muito alto em algumas regiões, como a costa do Caribe.

A informação, inclusive, é um problema na Colômbia. Quase não existem livrarias. Os noticiários passam mais “vídeos de internet” do que notícias em si. No jornal televisivo do meio-dia, a maior rede nacional, Caracol, gasta mais tempo com vídeos de câmeras de rua mostrando pessoas salvando-se de atropelamentos que informações sobre o que está acontecendo no país. A exceção fica por conta das matérias diárias de homens que mataram suas esposas que, mesmo violentas, trazem algum tom de conscientização sobre a violência de gênero.

P.S.: O texto foi escrito a partir de impressões de pessoas comuns e conversas de mesa de bar, e não “especialistas” no assunto.

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