Uma noite em Santa Marta, o paraíso da coca e da marijuana

Taganga. Quarta-feira. Sete da manhã

O sol nasceu há duas horas, atrás de nós. A luz clara bate na água da baía, cheia de pequenos barcos de pesca, praticamente estáticos. Não há muito vento e o mar está calmo, transformando-se em um grande espelho a refletir o céu e as montanhas que circundam a praia. Dezenas de cachorros, que estavam atirados nas areias da margem do mar Caribe, começam a se agitar com a chegada dos primeiros pescadores à costa.

Estamos em um grupo de cinco, sendo quatro estrangeiros – dois franceses muito loucos e um brasileiro de Goiás, além de mim – e um colombiano. Sentados à beira da praia, tomamos fôlego para pegar um ônibus de volta para Santa Marta.

taganga

Santa Marta. Terça-feira. Onze da noite.

Santa Marta, localizada a 200 quilômetros de Cartagena, não é destino de muitos viajantes somente por ser considerada a segunda cidade colonizada mais antiga da América do Sul. Ela também tem o clima e a terra propícios para a plantação da cannabis e coca. Isso faz com que muitos a chamem de paraíso, em razão da grande oferta e qualidade das drogas encontradas aqui (sim, o que você bota no seu nariz, no Brasil, é talco). Com esse currículo, Santa Marta atrai gente de todo o tipo e de todo o mundo.

Claro que em uma terça-feira à noite, as coisas não funcionam até tão tarde no pequeno município com 450 mil habitantes. Saímos do hostel, depois de tomar umas boas doses de rum Medellin com coca (cola, não se enganem), em direção a um bar perto de onde estamos, na baía de Santa Marta. Uma parte do pessoal ainda manda uma bomba (termo utilizado para cheirar) antes de sair, outro costume local. O Miko, entretanto, não está aberto. A casa La Puerta também está fechada. Um taxista nos cobra dois reais por cabeça para nos levar até um bar chamado Mirador, em Taganga. Espremidos entre cinco no carro, somos dirigidos à vila habitada por três mil pescadores e alguns turistas.

Taganga está atrás de uma das várias montanhas que circundam Santa Marta. O táxi sobe e desce o morro, fazendo curvas fechadas em alta velocidade. Em menos de quinze minutos, chegamos ao Mirador. O bar fica em uma encosta, com uma sacada de onde se vê a vila iluminada e a baía. Das 30 pessoas que encontramos, somente cinco parecem colombianas. Volta e meia, um cheiro forte de marijuana pode ser sentido no ambiente, o que faz com que os gringos, travados – palavra que significa estar chapado – dancem mais.

Um dos franceses que está com a gente, Valentin, faz o tipo sedutor e é quem conhece as ruas da cidade. Chegou para ficar por uns dias e está há um mês em Santa Marta. Afirma que a cidade “chupa” as pessoas e não as deixa ir (conseguiu partir para Bogotá cinco dias depois dessa noite). Logo que chegamos à festa, está falando com uma colombiana.

Tocam desde músicas eletrônicas antigas e funks brasileiros até champetas e outros ritmos locais. Depois de três horas, as luzes se acendem e um efeito sonoro de galos cantando soa repetidamente das caixas de som. É como se o dia estivesse nascendo, mas olhando pela sacada, só vemos a noite.

Lá fora, policiais e taxistas aguardam os gringos. Decidimos descer à pé até a praia com a colombiana que está com Valentin e um amigo dela que conhecemos na festa, Mariano. Ambos são de Taganga. Não há ninguém na rua e os únicos carros que cruzam são os dos taxistas levando os gringos. Vamos por um canto da praia mais retirado e, de repente, bundas passam correndo na nossa frente. Tomamos um susto com duas pessoas que estavam tomando banho nuas no mar e saem da água para se esconderem atrás de uma pedra.

Mais ao centro da praia, os gringos, que em sua maioria não falam espanhol, estão colocando som em uma caminhonete vermelha, rodeados por alguns poucos locais, que conversam e oferecem drogas. A cocaína escama de peixe, que chamam aqui de pescado, sai por COP 20.000 a grama, algo como R$ 24. Já a marijuana mais fácil de achar é a krip cultivada em Cali, cuja grama custa COP 3.000 (menos de R$ 4) ou COP 2.000 o poro (o que chamamos de baseado).

Há uma variedade incrível de entorpecentes, como cocaínas com aromas de café e chocolate e o mundialmente famoso mangobiche de Santa Marta, cultivado a partir de uma semente de cannabis sativa que não passou por nenhum enxerto ou foi modificada em laborátório, que se gruda nos dedos ao esmurrugá-la. Dizem que é a espécime mais pura que se pode encontrar na costa da Colombia. Um paquete (saco pequeno, como os que os fones de ouvido vem enrolados quando compramos um telefone novo) sai por COP 25.000. E esse é o preço turístico depois de alguma negociação, os locais pagam menos.

O único lugar que vende cerveja a essa hora é em uma casa a duas quadras da praia. Coloca-se o dinheiro em um buraco na parede, dentro de um cilindro. Gira-se o cilindro e, quando a face aberta volta para você, tem seu troco e a cerveja.

De tempos em tempos, um homem sai de dentro de um dos quiosques que funciona na beira da praia e manda os gringos tomarem no cu, pedindo para que vão mais longe festear porque precisa dormir. Em certo momento, os gringos baixam o som da caminhonete, mas ficam no mesmo lugar. O outro francês, Mathio, fala sobre futebol com um local chamado Pescao, torcedor do Atlético Bucaramanga, e não consegue entender porque ele não apoiou o Nacional de Medellin na final da Libertadores. Um holandês está sentado sozinho, muito louco, na beira da praia, dizendo em um espanhol quase indistinguível que seu amigo está com uma garota dentro de um dos barcos da baía. Os amigos dele riem e falam que o amigo está no hostel dormindo.

taganga-colombiaQuando o sol nasce, os gringos já se recolheram. Ficamos por ali mais alguns minutos, até o dia clarear e sermos expulsos, finalmente, pelo dono do quiosque, que começa a abrir sua tenda. Sentamo-nos novamente na areia, entre muitos cachorros, em um local mais afastado. Alguns pescadores bêbados que, pela cara, também passaram a noite em claro, param para conversar com a gente, mas é quase impossível entender o que falam. Trocamos umas ideias, cerramos alguns cigarros deles e partimos para rua onde passa o ônibus para Santa Marta.

Molhados da água do mar, sujos de areia, fedendo a álcool e a cigarro, voltamos em meio ao pessoal que está indo trabalhar. Os ônibus viajam de portas abertas e Mathio, bêbado e praticamente dormindo em pé, quase cai para fora nas curvas algumas vezes, até ser mandado para o fundo do coletivo, aos gritos, por um morador local. Estamos mais atrás, e Valentin começa a conversar com uma garota de cerca de 28 anos, que leva o celular dentro do decote, contra um dos seios. Antes de descermos do ônibus, o francês consegue pegar o número de telefone dela.

Descemos em Santa Marta e o sol já esquenta o dia, que ainda vai chegar aos 34º à tarde. As pessoas correm na baía, vendedores fazem suco e dezenas de carros e motos já ganham as ruas, usando descaradamente a buzina, costume do trânsito daqui… Ótimo para quem passou a noite bebendo.

Caminhando de volta ao hostel, percebemos que a noite já terminou faz tempo.

Foto de capa: Leonel Ferro

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