Na rota da guerrilha colombiana

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“O único problema dessa rota é que há guerrilha próximo a Puerto Boyacá”, avisou Amy, a dona do hostel onde estava hospedado. Depois de colher mais informações com outros colombianos – “não passa nada se não falar de política” – decidi fazer o trajeto Chichinquirá – Otanche – Puerto Boyacá – Medellin junto com Aldo, um uruguaio que conheci em Villa de Leyva.

Às 8h da manhã de terça, estamos no ônibus para Chichinquirá, a primeira parada, há uma hora de Leyva. De lá, esperamos 40 minutos para pegar o próximo coletivo, a Otanche. São três horas serpenteando pelas montanhas até chegar no pueblo fundado na década de 60, muito visado pela guerrilha em razão da grande quantidade de diamantes em suas minas.

Antes de descer do ônibus, uma senhora pede que Aldo a ajude a pegar sua bolsa. “Se quiserem tomar um café na minha casa, perguntem por mim, me chamo professora Angélica”, diz a senhora de cabelos brancos, que desce do coletivo com dificuldade. Baixamos logo depois, na praça. Alguns locais olham um pouco desconfiados. Mais tarde, Brasil e Colombia se enfrentarão pelas eliminatórios da Copa do Mundo. Como em qualquer dia de jogo da seleção, dois terços das pessoas vestem com orgulho a camisa amarela colombiana.

Almoçamos em um restaurantes e perguntamos por Angélica. Ela mora há duas quadras, morro acima. Otanche tem uma igreja moderna e ao longe, nos morros, muitos barracos e casas simples lembram uma favela brasileira. A casa de Angélica é simples. Não tem sala e a divisória para o quarto, com duas camas de solteiro, são cortinas brancas que se estendem até o teto. Na parede, vários quadros de santos e santas católicas. Pede licença para tomar um banho e pergunta se queremos ouvir música. Com a positiva, roda uma fita k7 de Sylva e Vilalba no rádio.

Angélica nos oferece café e dois colchões. Depois, nos leva até a “rodoviária”, nos apresentando para alguns locais. Não há estrada asfaltada para seguir a Porto Boyacá e o jeep que faz o trajeto sai duas vezes por dia, às 5 da manhã e ao meio-dia. De noite, Angélica nos oferece chocolate quente. Ainda vemos o Brasil ganhar de 2 x 1 da Colombia em uma pequena televisão de 14 polegadas.

Pela selva

Acordamos às quatro. Muitos locais correm e preparam produtos nas bancas na praça central. Chove um pouco. O motorista do jeep está no teto, ajeitando a bagagem dos dez passageiros que vão viajar num carro onde só entram sete.

O caminho é magnífico. Em poucos minutos estamos em uma estrada de terra, apertados dentro do jeep, cruzando cascatas e cachoeiras por desfiladeros. Paramos em alguns pueblitos selva a dentro, onde o motorista faz alguns negócios com moradores. Em uma pequena fazenda, compra três galinhas vivas que vão ser vendidas alguns quilômetros à frente. As pendura para fora do jeep. Olho pela janela e posso as ver olhando fixamente para estrada, com os olhos arregalados, sem emitir um único ruído.

É como se andássemos selva a dentro. Não vemos guerrilheiros, mas alguns locais olham um tanto mal-encarados para dentro do jeep quando passamos. Talvez pela lida da roça, encontramos muitas pessoas mutiladas, sem um braço ou uma perna.

Chegamos completamente destruídos em Puerto Boyacá e, ao descer do jeep, há pelo menos cinco colombianos gritando “Medellin” a nossa volta. Um dos ônibus é grande, confortável, com wii-fii. Sai em cinco minutos e saltamos para dentro dele, rumo a Medellin, nosso destino final.

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