Experiências nos hospitais do Peru

thermometer-1539191_1280Arequipa, 31 de outubro

Chego no consultório e encontro apenas uma senhora lavando o chão. Primeiro, ela me xinga por não limpar os pés no tapete. Depois, pede para esperar que vai chamar a médica. Puxa o telefone, ninguém atende. Tenta de novo e, após esperar um tempo, tira seu jaleco de faxina e põe o de enfermeira. Guarda a vassoura e o balde e aparece com pinças, tesouras e uma bandeja.

“Toma asento, vamos hacer una curacion”, anuncia, analisando meu dedo.

Ela vai cortando pele morta e abrindo o meu dedo a procura de pús, apertando e sacando sangue. “Olha aqui, olha”, me diz ela. De cara para a parede, explico que sou “maricas”, posso desmaiar se ficar olhando. Ouço um sermão que preciso ter mais auto-controle, não sou mais criança. “E se não cuidar desse dedo, pode apodrecer e perdê-lo”, sentencia muito séria. Totalmente diferente das outras enfermeiras e médicos, que sempre tentaram ser otimistas.

Após fazer a limpeza, puxa um papel, carimba e me receita um antibiótico. Puxo a carteira para pagar e ela se ofende com o ato, diz que vai me apoiar e não me cobra um centavo.

Cusco, 13 de outubro

“Deixa a ambulância pronta, agora!”. Desperto, deitado, com as palavras do médico. A última coisa que lembro era de estar sentado, falando sobre pisco, cachaça e comida peruana, e tudo ficou preto. A enfermeira está com algo que cheira muito forte perto do meu nariz e uma garota loira de pele muito branca, que parece ser uma estagiária estrangeira, me olha apavorada.

Quando minha visão e consciência voltam, vejo o médico apavorado, na porta, gritando pela ambulância. Digo que estou bem. O médico pede para que respire, “calma, fica aí sentado”. O lençol branco da cama do ambulatório está manchada com meu sangue.

Volta a expremer meu dedo e faz alguns cortes para tirar todo o pus que se formou nos últimos dias. Há muito. Parece uma sessão de tortura. Me lembra que, no Brasil, já tivemos um presidente que não tinha um dedo. Tento rir mas não dá, doi pra porra, pra porra mesmo.

Águas Calientes, 23 de outubro

Águas Calientes fica ao lado de uma hidrelétrica, porém não há luz na cidade. Chego no posto médico e o enfermeiro está tomando o café da manhã. Pede que espere um pouco, ao lado de uma mulher que também aguarda atendimento. Me leva a uma pequena sala sem janelas. Tenta ajeitar o celular em uma mesa, que serve de “lanterna”, mas não consegue. A senhora que estava aguardando atendimento é convocada para segurar o celular, participando da minha sessão de limpeza.

Nazca, 10 de outubro

O maldito dedo piora. Está cada vez mais inchado, vermelho e dolorido. Resolvo ir na farmácia para buscar uma pomada. Mostro o dedo para a farmacêutica e, em vez de um remédio, me indica subir uma montanha. Tenho que subir a montanha ao por do sol e me deitar em uma das pedras. Fechar minha mão direita sobre o meu problema e fazer pensamento positivo de que está curando. Pelo menos meia hora é o bastante, me afirma.

Sentado na frente do hostel, um morador vê meu dedo. “Aqui em Nazca há uma montanha que cura todas as enfermidades!”, me conta o senhor. Dá a mesma receita da farmacêutica e me conta sobre diversos casos que presenciou, pessoas doentes que foram curados pela energia da montanha. Fico tentado a ir, mas meu ônibus para Cusco sai dali a algumas horas.

Cusco, 17 de outubro

Sigo indo para o centro médico para fazer a limpeza no dedo. Não está evoluindo muito. “O que você fez nesse dedo” é a pergunta que mais ouço. Quando encontro a enfermeira que estava na sala no dia em que desmaiei, sempre me manda deitar na maca. Pergunto que nota, de 1 a 10, dá para meu dedo. Com a boca, a enfermeira diz 6. Sua cara me diz um e meio.

Saiba mais sobre o Peru em À pé no mundo.

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