Como estimular a consciência alimentar em adultos e crianças – sem deixar de lado os doces!

Por Nutri Marina Medeiros

Imagine a seguinte situação: É uma sexta-feira, fim do dia, e você recebe o convite de uma pessoa especial para um café em uma confeitaria nova. Eu considero um convite irrecusável, e você?

Isso estragaria sua dieta?

Minha opinião é de que esses momentos não devem ser excluídos da vida de ninguém. Mesmo quem tem restrições devido a alguma doença ou situação específica, não precisa recusar um convite especial. Há de se saber como lidar com esses momentos, já que viver as experiências da melhor maneira possível deixa a vida mais leve e possibilita um equilíbrio – que evita as famosas compulsões resultantes de severas restrições.

É possível dividir o doce preferido com a companhia, saborear cada mordida e vivenciar o momento de forma consciente, mantendo a saúde e a dieta. Inclusive, mantendo a boa saúde mental e emocional, pois o sabor e aroma da comida pode fazer o cérebro acessar lembranças muito felizes, as chamadas memórias afetivas. Nosso cérebro memoriza nossos sentidos sensitivos e, por isso, não é incomum nosso alimento preferido ter um vínculo importante com a nossa infância, com momentos e pessoas especiais. Podemos pensar também em recompensas, e em quais alimentos queremos comer quando estamos alegres ou tristes. Nessas situações é importante estarmos novamente fazendo isso de forma consciente.

E então entra a segunda parte da situação que imaginamos no início do texto: em cima da mesa dessa mesma confeitaria havia saches de açúcar, cada um com uma frase. Sendo que a que mais me chamou atenção dizia assim: “Faças as crianças gargalharem”. No mesmo momento que pensei nessas memórias afetivas e em quanto o açúcar está presente na maioria delas, desejei que atrás da em embalagem do açúcar contivesse um aviso como aqueles de carteira de cigarros. A linha entre o prazer e o vício ao açúcar é muito tênue. Um momento especial em um dia eventual em equilíbrio com uma alimentação que além de prazerosa seja saudável é adequado. Mas a rotina com dependência por doces e produtos de padarias é fator pra desenvolvimento de muitas doenças crônicas que já acometem as crianças de hoje em dia.


Fazer as crianças alegres com doces e guloseima é uma tradicional forma de demonstrar afeto, mas a minha sugestão é que isso também aconteça com os alimentos saudáveis. Ensinar o prazer de comer uma fruta madura na época, com a experiência inesquecível de colher direto do pé. Ou com um vegetal que foi escolhido pela criança e preparado junto com a família também vai fazer memórias afetivas positivas relacionadas a esses alimentos. Muitas famílias tem a tradição de preparar pães e bolo com os filhos e essa lembrança é eterna, então a ideia é que as lembranças também sejam do preparo de vegetais, e de outros ingredientes que, muitas vezes, não ganham atenção e acabam construindo uma relação inadequada com a comida nesses indivíduos que pode perdurar a vida toda.
Não ensine as crianças que salada é castigo e sobremesa é recompensa. Não ensine que verduras e frutas são obrigação. Crie a tradição na sua família de fazer as pazes das crianças com os vegetais. Desmistifique o contato deles com as hortaliças e plante essa semente da memória afetiva na lembrança dos alimentos que vão nutrir além do amor, a saúde desses futuros adultos que irão passar para suas outras gerações e fazer as crianças gargalharem, sim, mas através do prazer com equilíbrio.

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