Um trekking pelo Cânion del Chicamocha

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Dificuldade

Quando me falaram que o ar era seco e a temperatura no cânion del Chicamocha chegava aos 40º das 10h às 15h, não pensei que seria tão difícil. Agora, sem uma gota de água no cantil, faltando três quilômetros até Los Santos, 800 metros para cima da montanha, não adianta mais pensar nisso, só caminhar. O último bus sai às 15h, não trouxe dinheiro para passar a noite na cidade. Tenho duas horas para chegar ao topo. Vai dar tempo.

A camisa de algodão protege minha pele do sol, mas está insuportável usá-la agora. As pedras do cânion que ficam na sombra estão geladas (ou meu corpo está muito quente). Tiro a camisa, o chapéu e me deito no chão por alguns minutos, esperando a temperatura baixar. A tranquilidade aguça meus sentidos. Pequenos lagartos correm pelas rochas, entre folhas secas. Uma cabra, certamente presa na encosta do cânion, berra sem parar como se fosse uma criança chorando.

Deslumbramento

Os vinte quilômetros entre Vilanueva e Los Santos, passando por Jórdan, precisam ser percorridos em oito horas. Leva-se apenas meia hora para ir com transporte público de San Gil a Vilanueva. Porém, para voltar de Los Santos, são dois ônibus e mais de quatro horas de estrada. Sim, é quase mais rápido ir caminhando.

A dureza do percurso não está na distância, mas nos aclives e declives. Depois de dez quilômetros por estrada de chão, começa-se a descer o cânion a uma altitude de 1700 metros até Jórdan, que fica ao nível do mar. Atravessa-se o Rio Chicamocha e então são 1300 metros para cima, pelo outro lado do cânion.

Consigo pegar o ônibus das 6h20 e chego às 6h45 em Vilanueva. Caminho perguntando para os locais e vão me indicando a direção. O sol está fraco e ganho distância rápido. Alcanço uma garota de seis anos, com o uniforme escolar – saia marrom e camisa branca. Entra no colégio – uma única sala – à beira da estrada, não sem antes abraçar uma mulher que está sentada em um banco, em frente a uma cancha de concreto com uma cesta de basquete. Espio para dentro e todos os alunos estão de pé. Da rua, posso escutá-los rezando.

A estrada sobe, serpenteando por mais alguns quilômetros, e começa a descer. Saio da rua de terra e entro na trilha. Me deparo, pela primeira vez, com o cânion mais de perto.

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Sede

Sem beber água a quase duas horas, chego em Los Santos. Saio da trilha e posso ver a cúpula da igreja a algumas quadras. Me arrasto até lá, suado e vermelho do sol. Os locais me olham com uma cara de “olha o gringo fudido”. Na praça, leio “mangos” e me atiro. Pergunto se é suco, a vendedora diz que sim. “Custa dois mil pesos”. Na verdade, é uma manga cortada em tiras, com suco de limão e pimenta, tudo dentro de um copo. Como aquilo, mesmo com a garganta seca, e me lembro de um francês com quem almocei em alguns pulgueiros baratos. Ele dizia que, mesmo se colocassem arroz com bosta na minha frente, comeria tudo. Ainda falaria, massageando a barriga, que estava muito bom.

Cabras

Começo a descer pelo cânion em direção a Jórdan e, em um primeiro momento, acho que há uma criança gritando pra mim. Perco uns minutos de vida para tentar encontrá-la. Na verdade, são cinco cabras que estão no desfiladeiro. Depois de alguns minutos no cânion, percebo que a cena é bem comum.

Após atravessar o rio Chicamocha por uma antiga ponte branca, em Jórdan, novamente vejo algumas cabras pastando, agora no meio da trilha. Estão no meio do mato fechado. Primeiro conto cinco, depois dez, logo parecem ser vinte. Olho para trás e algumas estão me seguindo.

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Interminável volta

Tenho que pegar uma buseta (não faça esta cara, é como chamam os ônibus pequenos aqui) até Los Curos e parar na rodovia onde passa o bus para San Gil. O percurso demora mais de duas horas, passando por alguns trechos tão ruins que parece que o transporte vai virar. O ônibus está vazio até parar em frente a uma escola, onde se enche de crianças. Desço na rodovia e, dez minutos depois, o coletivo para San Gil aparece na curva. Dirigem muito rápido e quase não tenho tempo de esticar o braço para pará-lo. O motorista para uns 50 metros de onde estou. Corro para alcançá-lo. Tento me ajeitar no banco, onde minhas pernas mal entram  – os ônibus são feitos para os colombianos, cuja estatura é menor. Mais duas horas estarei em San Gil.

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