Cordillera Blanca: três noites acampado nos Andes peruanos

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A ideia era fazer tudo sozinho, mas depois de ver os (baratos) preços cobrados pelas companhias de turismo e tomar uns tapas do soroche – o mal de altitude –, mudei de ideia. Às 5 e meia da manhã de terça-feira, 27 de outubro, estava com minha mochilinha e o saco de dormir prontos, sentadinho na recepção do hostel em Huaraz, onde estava hospedado, esperando a empresa me recolher.

Logo apareceram no saguão mais dois brasileiros, de Porto Alegre. Iam fazer o trekking comigo. A quebrada Santa Cruz é o hike mais famoso do Parque Nacional Huscarán. São quatro dias e três noites caminhando às bordas da Cordillera Blanca, do povoados de Vaqueria até o de Santa Cruz, a mais indicada aventura para quem quer conhecer boa parte dos 31 nevados a mais de cinco mil metros que compõe o conjunto de montanhas andinas.

Seis horas de busão

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Para chegar em Vacaria, são necessários seis horas de busão. Primeiro, se vai até Yungay, por asfalto. É rápido, umas duas horas. Depois, é estrada de chão, precipício a cima. O ônibus faz uma parada lá no alto para que todo mundo tire fotos das lagunas Llaganuco (a macho e a fêmea). O primeiro impulso da maioria não é fotografar, mas tirar aquela água do joelho. Está frio pra porra, nevando! Cinco minutos, todo mundo está correndo de volta pra dentro da van.

Depois, mais três horas montanha a baixo. Curva pro lado, curva pro outro, impossível não dormir. Um israelense, sentado no banco da frente, apaga abraçado no banco do motorista. São os caras que mais vão tirar sarro durante toda a viagem, enquanto seguem estritamente as regras de sua religião. Preparam a própria comida e rezam, pelo menos, duas vezes por dia. Na manhã do segundo dia, vejo um deles rezando enquanto mija. Juro!

Chuva

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Primeiro, neva muito. Depois, a temperatura se estabiliza e começa a chover. A barraca de um casal de franceses está com furos e entra água. Colocam umas lonas plásticas em cima, mas não adianta. No meio da noite, escuto o guia chamando o arreeiro para ajudar. Divido a barraca com um francês e o canadense boludo (já vai se saber o porquê). Entra um pouco de água dentro, não muito. Uso a capa de chuva da mochila e do saco de dormir para manter minhas coisas secas.

Pescadores

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Os dois franceses são os que carregam mais peso. Estão com seu equipamento de pesca, não houve espaço para os burros levarem, então vai nas costas mesmo. É proibido pescar no parque, mas ninguém diz nada, muito menos o guia. Eles adiantam o passo no terceiro dia e, quando chegamos na lagoa em que vamos almoçar, já pescaram 19 peixes. O francês pega mais um e devolve para a lagoa, o guia quase tem um surto. Pede que lhe dê os próximos peixes, é um desperdício devolver! De noite, o prato é macarrão com as trutas que pescaram. Delicioso.

Cenários deslumbrantes

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O segundo dia é o mais complicado. Mil metros para cima até Punta Union, o passo, que fica aos 4750 metros. Lá, novamente neva. Não dá pra parar, senão congela. É atravessar para o outro lado da montanha que a temperatura já sobe um pouco. Este e o terceiro dia são os mais bonitos. Estamos a mais de quatro mil metros, sempre próximo aos nevados.

Van cercada por homens de facão

Voltando para Huaraz, no quarto dia, um grupo de homens armados de facão, que estão “arrumando a estrada”, cercam nossa van. Colocaram um galho de árvore cruzando a rua que impede a passagem. O guia dá uma merreca e irrita os homens. Há um princípio de estranhamento. O guia segue dizendo que ninguém o impede de sair e entrar na montanha. Os homens dizem que há muitos turistas na van e querem sua parte. Os homens de facão olham para dentro um tanto intimadores e vão se dirigindo até um carro que parou atrás de nós. Levam, pelo menos, 100 soles da agência.

Os dois canadenses

Um dos canadenses está um pouco doente. Levo pouco papel e, quando me pede, para assoar o nariz, aviso que até tenho, mas se for para ele ir ao banheiro. Dizer que a consciência pesa um pouco quando, no outro dia, ele acaba voltando por um caminho mais curto para Huaraz. Passou a noite com muita febre e não consegue mais fazer o caminho tradicional. O outro canadense deve ter sangue argentino. O boludo vê um cachorro, um burro, uma serpente, vai lá meter a mão. A princípio, não simpatizamos bem um com o outro. Dois dias depois, encontro ele no hostel onde estou hospedado, apavorado. Me pede ajuda para falar com o dono de uma empresa de ônibus. Comprou a passagem, colocou a mala no coletivo e foi almoçar, pois o busum só iria sair uma hora. Quando volta à empresa, 40 minutos depois, descobre que o ônibus lotou e saiu antes. Bem comum por aqui. E se foi com sua bagagem! No fim, vão entregar a mochila dele no outro dia. Espero que tenha dado tudo certo.

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Frio

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Caminhamos, geralmente, até às três da tarde, menos no primeiro dia. Chegamos no acampamento e o sol está baixo. Frio demais, impossível ficar fora de uma tenda, mesmo com luvas, gorro, três casacos. A janta sai pelas sete horas. Escovo os dentes logo depois e a água quase congela minha boca. O saco de dormir que uso é pra 0º. Aguenta bem os três dias, mas sempre durmo com calça, casaco e meias.

Saiba mais sobre o trekking no site A pé no Mundo

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