Uma conversa animada com Tihuana

O Café teve o prazer de trocar uma ideia com o Egypcio em sua passagem por Porto Alegre. Num bate papo divertido, descontraído e muito construtivo, o dono das vozes antagônicas dos vocais do Tihuana se mostrou extremamente simpático, acessível e opinativo. Confere aí um pouco do que falamos.

O Café: Parabéns pelo “Agora é pra Valer”. Esse longo período que separou o disco de “Tropa de Elite” foi um processo criativo ou uma forma de se distanciar do hit?

Egypcio: É, os dois. Na verdade a gente, antes do “Agora é pra Valer”, teve um hiato de 7 anos, sem lançar nada (inédito), produzindo esse disco. Nesse meio tempo, a gente gravou um disco e um DVD comemorativo, sem inéditas porque o filme ainda estava estourado. Mas mesmo nessa época, a gente não queria lançar nada inédito porque a música ainda estava muito forte, e a gente não conseguia aproveitar. Então a gente realmente relaxou, tipo “vamos deixar a galera enjoar”, para que a gente possa chegar com alguma coisa nova. A gente seguiu produzindo, gravando, criando repertório pro disco novo… Pra concluir o “Agora é pra Valer” a gente gravou umas quarenta e poucas músicas. Tinham algumas versões – a gente gravou até Legião Urbana, Paralamas do Sucesso… Mas nada disso entrou no disco. E foi bacana porque os fães estavam cobrando isso da gente. Como a gente tinha lançado antes desse o disco de inéditas “dia de Cada Vez” em 2006, a galera tava muito “na seca”. Então a gente fez com calma, a gente tava com um grande problema de colocar músicas nas rádios porque (até hoje) o pop rock não tem tanto espaço no Brasil. Tá difícil, e em SP não é diferente. A única rádio que toca nossas músicas até hoje é a 89, a Rádio Rock, que só toca rock. Então, pra você ter noção, esses 7 anos que a gente não lançou nada, foi o tempo que a rádio desapareceu de São Paulo, que ela parou uma época, ela fechou. E ficou 7 anos parada, que também foi o tempo que ficamos em cima do disco. Então a gente foi fazer tranquilo, sem a presão de gravadora, pensando que quando estivesse tudo certo, a gente lançava. E foi isso o que aconteceu. E muito coincidentemente teve esse lance da volta da rádio. A rádio nos apoia muito, então perfeito, tudo certo!

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Foto-arte: Pedro Alice

O Café: Como se dá teu processo criativo? 

Egypcio: Meu processo criativo é muito simples. Eu vou guardando várias ideias no celular. Celular é ótimo pra gravar, né? A gente grava aqui e pode gravar em tudo. Se tem uma letra de música, uma ideia que vem, eu vou gravando… Não tenho aquele padrão de sentar e escrever. Tem uma parceira minha, que é a Ivy, que ela é paulistana, mas mora em Balneário Camboriú, que a gente tem muita parceria de música, dentro do Tihuana, fora do Tihuana, tem projeto dela, também. Então, tipo assim… Estou já compondo coisas para um próximo trabalho, mas é tudo muito perdido; Não sentei ainda para organizar. Minha forma é assim, meio bagunçada, mas eu acabo me organizando (risos).

Foto-arte: Pedro Alice

Foto-arte: Pedro Alice

O Café: Em “Renata”, que estourou por aqui também, já conseguimos ver uma veia mais melódica, cantada, sem teu habitual e conhecido timbre vocal que nos marca. O novo trabalho transita em diversas fontes sonoras, mas “Perto de você, Longe de mim”, que foge do formato mais balada, também é mais cantada.

Egypcio: É muito louco isso, porque o Tihuana sempre foi, como eu digo, uma banda meio Jeckyll & Hyde. Uma hora a gente é monstro, outra hora a gente é bonzinho. Bonzinho, que eu digo, é que estamos com algumas canções melódicas desde o primeiro disco. Somos uma banda de rock, mas com diversas influências. Mas minha característica vocal é marcante, quando estou fazendo “Tropa de Elite” e outras músicas mais, mais pesadas, que aí meu tom de voz sobe, muda… E aí até tem gente que acha que tem dois vocalistas na banda! Tipo, quando canta daquele jeito é o Egypcio, quando não canta, é outro. Mas na verdade, não; Sou eu, só. E nesse disco, no último, o “Agora é pra Valer”, é bem equilibrado. Se você ver, tem as músicas nervosas, mais pesadas, e músicas mais melódicas, mais acústoica, voz e violão.

O Café. É o que podemos esperar dessa nova fase?

Egypcio: Não é uma coisa inesperada… Nem inesperada. A gente gosta de misturar muito. Se você olhar todos os álbuns, é muito próximo. O mais diferente, e que na verdade é o meu preferido, é o “Dia de Cada Vez”, que é nosso quinto álbum. Esse é um disco que é muito mais melódico, são muito mais canções do que músicas pesadas. Mas o novo… Pode aguardar, que vai vir tudo misturado de novo (risos)!

Foto-arte: Pedro Alice

Foto-arte: Pedro Alice

O Café: O novo CD parece uma festa! Tem a participação do Dodô, do Detonator, do Zeider, do Digão …???

Egypcio: É… Isso aí, estamos falando do clipe de “Vem pra Festa”. No disco a gente abriu com “Minha Rainha”, que tem a participação do Digão, do Raimundo na música e no videoclipe, que também tem o Dinho, do Capital Inicial, tem a Dani Bolina… A gente juntou os amigos e colocou tudo lá pra atuar com a gente. Foi bem legal, foi engraçado… A gente gravou lá na Praia Grande, em São Paulo, num ar meio Califórnia, low rider, essas coisas… Que é o que a gente gosta, a gente curte essa cultura. Low rider eu gosto bastante. E no “Vem pra festa” a gente fez um clipe totalmente brincando com essa situação do momento do funk ostentação, aquela coisa de ostentar carro importado, mulher gostosa, peitão… E a gente fez essa brincadeira no clipe, só que a gente foi muito bem interpretado pelos fãs. Os fãs acharam que a gente estava virando uma banda de Rock Ostentação, que eu nunca ouvi falar (risos), e a gente foi muito xingado no Youtube por conta desse clipe.

O Café: Eu vi uma descrição do álbum novo, que era “rock, sertanejo, reggae”…

Egypcio: O pessoal ficou puto com a gente. Mas na verdade, a gente só esqueceu de colocar uma legenda pra essa galera que não entendeu, porque o clipe é, na verdade, uma grande alfinetada, né?

O Café: Então o Tihuana é amigo até do pessoal do Pixote, então?

Egypcio: O Dodô é muito gente boa, gosto dele pra caramba. Não é o tipo de música que eu ouço na minha casa, mas são pessoas que volta e meia estamos tocando juntos, em festivais e tal, e eu fiz questão de chamar ele, que é um cara muito divertido, é uma figura! Você dá risada demais com ele, é um cara muito engraçado. A gente chamou ele pra reverenciar o pagode, o novo pagode; o Zeider, do Planta, que é meu irmãozão, também representando o reggae, e também o Detonator, representando o metal. A gente deu uma brincada com todos esses movimentos, pra mostrar que a nossa música é… Eu não diria eclética, mas que transita por todos os meios. A gente tem esse lance da parceria com todos os movimentos… E também mostrar que era uma grande festa, que chamamos os amigos pra participar. O terceiro clipe que a gente fez, que é nossa nova música de trabalho “Perto de você, Longe de mim”, que já comentamos,  não tem nenhuma participação, mas a gente queria um clipe mais conceitual, mais simples. A gente fechou uma parceria com a Go Pro, com as minicâmeras, , e a gente quis fazer um clipe conceitual só usando as câmeras Go Pro. A galera pode acompanhar tudo pelo Facebook.

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Foto-arte: Pedro Alice

O Café: Como foi ter “Tropa de Elite” revisitada alguns anos depois?

Egypcio:Foi quase 8 anos depois do lançamento da música, e pra gente foi uma surpresa na época, porque uma música que já tinha tocado tanto tempo na rádio, voltar às paradas de novo, e daquela forma fenomenal. Foi o que aconteceu, e pra gente foi bem bacana, porque foi um convite inesperado, o filme documentário até então, quando o Zé Padilha conversou com a gente, ninguém tinha noção do fenômeno que ia virar, e deu que queriam “Tropa de Elite” no filme porque o BOPE usava nas operações nas buscasas, nas apreensões, e tinham “Tropa de Elite” como um hino dentro do quartel. E aí, pra gente foi uma surpresa, né? Pô, legal! E a gente acabou liberando a música, e o resto da história… Todo mundo já sabe (risos) , que deu certo, virou um fenômeno nacional o filme…

O Café: E é verdade que o filme teve o título mudado por conta da música, ou não, é uma lenda urbana? 

Egypcio:Na verdade, é, sim. O filme, se você buscar na Ancine, vem como BOPE, não como “Tropa de Elite”. O segundo já vem como “Tropa de Elite”. É que na verdade, quando o Zé falou com a gente, ele não tinha o nome da música como nome do filme. Só que quando rolou aquela história da pirataria e vazou o filme, que foi onde deu o primeiro estouro do filme, onde bombou, e que todo mundo achava que era um marketing e tal, foi tudo muito louco. Porque não foi uma coisa premeditada. Aconteceu uma loucura, deu certo, e eu acredito que o nome foi dado naquela época. A galera que pirateou e fez as cópias que chamou de tropa de elite, porque toca no filme… E pra gente foi tudo de bom, né? Tudo certo. Mas é real, o filme não tinha esse título. Passou a ter por conta disso.

O Café: E conseguindo colocar o Rock como a música mais popular do Brasil… Por MUITO tempo… 

Egypcio: Conseguimos imortalizar um rock no Brasil vinculado a um filme nacional (que ainda é pouco visto por aqui) . Lá fora é comum o “conceito” de um filme levar a música, ou a música levar o filme, e aqui no Brasil não se tem esse conceito. A verdade é que deu sorte, deu certo! É que as vezes os filmes nacionais não ficam tanto tempo em cartaz, já entram e saem. E com o Tropa ficou muito tempo, foi um fenômeno, fica como exemplo, mas depois disso não rolou mais. Eu espero que aconteça, que o cinema nacional cresça cada vez mais e use os artistas daqui pra crescerem junto.

O Café: E depois desse grande boom do Tropa de elite, chegou a passar pela tua cabeça aquele medo de parar por ali, por só ser lembrado pelo Tropa de Elite?

Egypcio: Não. Muito pelo contrário. Como a gente falou, a gente esperou passar o momento da onda, a onda estava muito forte, mas é óbvio que nós somos a banda do Tropa de Elite. Vamos ficar eternizados, pelo tamanho de tudo: da força, da música, do filme… Mas a gente não tem preconceito como várias bandas que a gente vê por aí , tipo “não toco mais essa porque não sei o que”. Muito pelo contrário. Tropa de Elite é uma música que tem sempre no nosso repertório desde o início, desde o nosso primeiro show a gente não tirou. Porque é uma música que tem uma energia forte, ela já era forte antes de tocar na rádio. Então a gente usava ela pra abrir os shows, no início. E a gora a diferença é que a gente encerra os shows com ela. É muito bom encerrar com ela, porque é a música que as pessoas estão mais aguardando, por isso que a gente toca, vamos tocar sempre! (Risos)

O Café: Eu conheci Tihuana tocando Tropa de Elite na MTV… 

Egypcio: A gente teve uma renovação de público muito grande, porque em 2001 essa música não chegou pra todo mundo da forma que chegou em 2007, por conta do filme. Então a gente chegou em gente que não chegaria no Tihuana porque não gosta de rock. Tipo assim, o filme deu essa oportunidade pra gente: levar o Tihuana, a nossa música, pra pessoas que curtem outro tipo de música, mas acabaram gostando da gente por conta do filme.

O Café: E as versões…???

Egypcio: MEU DEUS, as versões são incríveis… (risos)

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Foto-arte: Pedro Alice

O Café: E esse novo trabalho vem quando a MTV aberta fechou. Tu nota alguma diferença na divulgação, nesse momento pós-MTV, ou já era complicado mesmo antes e a internet salva, compensa? 

Egypcio: A MTV perdeu muita força, ela era o único canal de música que a gente tinha, depois que apareceram os outros. Então era isso, só tinha eles, então surgiu o Multishow, Mix TV, VH1 entre outros, e ainda os locais. Então, na verdade, a gente não sente muita diferença, porque quando a pessoa quer ver o clipe de um artista, ela não fica mais esperando na frente da televisão, esperando que passe- ou não-, naquela ansiedade. Hoje, como a gente tem uma internet, que é tão rápida e tão confortável, vai lá e digita “Tropa de Elite” e tu vai ver o clipe na hora. Então a internet ajudou e ajuda muito nisso. Então, mesmo com a falta da MTV, isso não mudou em nada. A gente sempre divulgou por outros meios também. E agora ainda mais, né!? O Youtube é um canal muito forte também. Eu acho que passar na TV, nesses canais, é legal, mas o mais importante pra gente hoje é o Youtube desses canais de música.

O Café: E o que tu achou de Porto Alegre com relação a rock, já que tu falou que tem apenas uma rádio em São Paulo? Aqui tá bem mais ou menos, né? 

Egypcio: Eu noto assim: A Atlântida tocava mais rock, agora toca mais pop do que rock. A Ipanema também. Antigamente tinha a Pop Rock. Mas vejo assim, no Brasil o rock está com pouco espaço,  não só em São Paulo. Mas no geral. Eu adoro Porto Alegre, adoro o Rio Grande do Sul, admiro e respeito muito as bandas daqui, porque vocês conseguem se auto manter aqui no estado, sem precisar ir pra São Paulo, Rio de Janeiro, onde exp´lodem as bandas. E eu adoro o cenário de rock qui do sul. Comunidade, Acústicos, Ultramen, Cachorro Grande… Adoro! É uma galera que a gente ja tocou em alguns shows por aqui também. Então, máximo respeito, gosto muito do centário daqui, respeito muito Porto Alegre.

O Café: Brigada pela entrevista! Foi divertido! 

Egypcio: Brigada a você, foi muito!

E essa semana ainda tem sorteio de CDs do Tihuana. Mas até lá, curte a fanpage d’O Café clicando aqui, e a fanpage do Tihuana clicando aqui!

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