Pabllo Vittar e a identidade por trás da música

Conversando com uma amiga, me dei conta de que já vi a figura de Pabllo Vittar, mas nunca ouvi as músicas dela. Em retorno, ela me deu uma crítica falando que a voz é ruim, nasalada, mas que ela ama, afinal, é uma trans que se destacou.

Claro, em tempos como os atuais é sensacional que caia no gosto das pessoas uma trans, que ganhe a mídia e fale como popstar, ainda mais com os índices de violência contra homossexuais e transsexuais crescendo tanto no país, bem como restrições sociais das mais diversas formas, condicionando a população GLBT, muitas vezes, a viver a margem da sociedade. Aliás, chega a ser inacreditável que a grande mídia abra espaço para veicular Pabllo e suas parcerias quando, há não muito tempo, novelas sofreram críticas absurdas por mostrar um famigerado beijo gay.

Mas o quanto a vida pessoal de um artista influencia a imagem que se tem de seu trabalho?

Pabllo Vittar

O início dos anos 2000 deu muito o que se falar com relação a isso. Como não se lembrar das meninas do TATU, aquela banda russa (praticamente one hit only) que fez fama por serem assumidamente lésbicas, fato que criou até histórias de que elas teriam sido banidas da cidade em que viviam e coisas do gênero (ah, os ‘bons tempos’ da internet discada… Mesmo fake news não se restringindo apenas àqueles dias).

O dueto das meninas era resultado, também, das ganas de um ex-psicólogo infantil russo chamado Ivan Shapovalov, que montou a dupla para satisfazer suas ganas de dirigir um videoclipe. Claro que, com o sucesso do clipe que mostrava as jovens meninas entre carícias e beijos, esse nicho caiu no gosto de ser explorado, tendo o clipe seguinte com a imagem de uma matando a outra após uma traição com um menino.

Olhando os clipes, ainda podemos ver a vendagem da imagem de “ninfetas” ou “garotinhas de colégio” que é usada para enfatizar bem a imagem e o fetiche por trás de mil máscaras.

As verdades são muitas, mas o pulo do gato é que elas caíram no limbo depois da gravidez de Yulia, que desbancou toda a imagem construída até então, tanto a coisa “infantil” quanto a imagem referente a sexualidade.

Pabllo Vittar beija dançarino no Prêmio Multishow

Outra banda que compôs essa imagem foi o Placebo. Além de ter seu grande boom em terras tupiniquins com a trilha de Segundas Intenções, a imagem andrógena da banda e os vestidinhos de Brian Molko conquistaram o público jovem. O dueto nos vocais com David Bowie, o camaleão, em Without You I’m Nothing, além de tocar a alma, contribuiu para a imagem já feita da banda, que em seus shows tinha uma interação muito flertosa entre Brian e Stefan Olsdal, o baixista. Vale lembrar ainda que a banda, mesmo em clipes como Protege Moi (que não tem a versão uncensored no Youtube, obviamente) sempre fugiu da imagem de força, sempre fazendo questão de se mostrar muito sensível e emocionalmente frágil – outra coisa que colaborou para a imagem formada coletivamente.

Foi um choque quando Brian Molko, em 2005, teve um filho. Ali foi o declínio da banda, que se focou em temáticas mais pesadas (como vemos claramente no Meds, de 2006), e onde deixa as letras ambíguas e se volta para uma clareza depressiva. O rompimento da imagem parece que afetou as estruturas da banda também, que não conseguiu mais manter por muito tempo os bateristas a partir disso.

Pabllo Vittar é o novo ídolo de uma geração, e que com certeza não é um engodo de marketing como as bandas citadas. E para você, que ainda não tinha ido conhecer a musa, aqui fica ela, com seu marketing de diva americana, figurino de desbancar muita musa por aí, brasilidades no ritmo e no rebolado (tipo WOW!) e uma voz… Que deixo pro autotune comentar! 😉 Mas vale muito ser contemplada e, sejamos honestas, venerada!

E se tu só notou referências nacionais, aqui vai uma livre inspiração de Christina Aguillera e Beyoncee. Vale lembrar que a mina ainda aposta na batida do brega, que é O RITMO no norte e nordeste há décadas (vide Gaby Amarantos), mas que ainda são as regiões mais intolerantes com a comunidade GLBT. Ou seja, temos de reverenciar <3

 

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