No barco da Piratas do Porto – Uma conversa com Antonio Oliveira

O Café foi bater um papo com o Antonio Oliveira, da Piratas do Porto, que está lançando um novo clipe agora em agosto. Confere aí!

O Café: Para quem ainda não conhece a Piratas do Porto, faça uma breve apresentação.  

Antonio Oliveira: A Piratas do Porto é, em essência, uma banda de rock. Rock and Roll. Rock Gaúcho.  Quando criei a banda tinha um objetivo: trabalhar minhas criações. Sou compositor.  O nome Piratas tem a ver com a realidade da música autoral. É preciso transgredir esteticamente, propor caminhos, conquistar espaços. Levantar âncora e içar as velas. E por que do Porto? Gosto do mix de personagens e paisagens universais e locais. “És um rosto de mulher / Lindo e mal pintado / Tristeza é um pecado / Que te posso perdoar / Invejo ao poeta que te entende e que te ama / É esse amor tua beleza secreta / Porto Alegre de Quintana”  Esse porto (e seu poeta maior, Mário Quintana) já habitavam minha criação (Porto Alegre de Quintana, que se tornou o tema da TV COM, é uma parceria com o Nando Gross, hoje radialista esportivo). Voltando a Piratas, em 2005 começamos como todas as bandas, garage e underground total. Festivais, Coletivos, etc… Em 2006, um show temático – Onde Está o Prazer – rendeu o primeiro EP da banda. E uma sequência por bares e teatros do RS. Depois, um acústico, Porto Alegre de Quintana, homenagem ao centenário do Mário Quintana. Então, unindo a experiência acústica com o rock pirata, escrevi Aruanda, A Ópera Rock. Acredito que a primeira inspirada na mitologia dos Orixás no Brasil. Foi no auge do sucesso de público e crítica da Ópera Rock que me transferi para Curitiba. De onde regressei 03 anos depois, no final de 2013. E como sou Pirata e sou do Porto, coloquei o navio de volta ao mar do rock. Agora, com Rock em Quadrinhos, um projeto para 03 EPs. E muitos shows. Lançamos um Single “Almost a Beatles Song” onde toda a letra é feita com título de canções dos Beatles. Masterizada em Abbey Road, por Geoff Poesch ( Gorillaz, Blur, Jimmy Page & Robert Plant) e com clipe do designer espanhol Álvaro Ortega.  O tempo passou e agora em 2015 fizemos um projeto chamado Quarta Pirata comemorando 01 ano do sucesso internacional do Almost (México, Inglaterra, Espanha, França, EUA, Autrália, etc…) onde nos apresentamos todas as quartas, sempre com uma banda convidada.  E, para finalizar, as influências são muitas, cada músico que trabalha comigo, trás uma bagagem. Eu sou rock raiz, passando por C. Berry, Elvis, Beatles, Stones, Creedence… Sou fã de Pink Floyd, Yes, Supertramp e Queen… Mas ouço muita coisa de todos os estilos. Curto o rock gaúcho. Inclusive a Piratas tá preparando uma releitura (ser pirata implica em não fazer cover rsrsrs) criativa de vários rocks daqui… Gosto de Zé Ramalho, Raul Seixas, Sá, Rodrix e Guarabira, Erasmo Carlos, Mutantes…

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O Café: O sono da Bruxa se diferencia muito de Almost a Beatle Song. Claro que seguimos vendo a influência direta de Beatles, mas nitidamente é um novo período.  O que está embasando esse nova fase?

Antonio Oliveira: O Almost foi uma homenagem, com certeza. Repleta de citações musicais que nos remetem ao universo beatle. O Sono da Bruxa é uma sacada do momento atual onde todos “dormem o sono da bruxa”. E trás diversas questões filosóficas, políticas e religiosas misturadas no caldeirão da bruxa (rsrsrsrs). “Quem sou eu? Quem somos nós? Um dia sou o réu. No outro, o algoz.”

O Café: E o clipe? Vocês transitam entre produções mais casuais, e romperam isso com o Almost a Beatle Song, q é uma animação muito divertida. O que podemos esperar do Sono da Bruxa?

Antonio Oliveira: Temos alguns clipes no canal da banda onde mesclamos imagens com apresentações ao vivo. O Almost é um marco na história da Piratas. Alvaro Ortega (espanhol) é um criador de animações com temáticas Beatles, retrô, vintage, geniais. E deu à canção, a dimensão que queríamos. Um sinal do que viria na saga Rock em Quadrinhos. O clipe do O Sono da Bruxa tem uma edição atenta para valorizar a animação do premiado diretor sul africano Goddy Roodt e sua equipe. É a luta do bem e do mal. Com final dramático. Vale a pena assistir mais de uma vez e curtir os detalhes.

O Café: E o processo criativo por trás do Sono da Bruxa, como se deu?

Antonio Oliveira: Assisti algumas palestras do físico, astrofísico e espiritualista Prof. Laercio Fonseca, que se reflete nos versos na primeira pessoa… “Quem sou eu? O que sou eu?” Muitos filmes e gibis para o refrão  “A humanidade dorme o sono da bruxa. A humanidade não consegue acordar.”  Impossível não citar o comentário do Maestro Alexandre Di Paoli (arranjos e gravações):

– Gosto da forma que tu trata a política nas tuas músicas, Antonio. Tens umas sacadas geniais

– Gostastes do “Ditadura da Corrupção”, então? – perguntei.

– Gostei sim. Mas prefiro a linguagem que usas no “O Sono da Bruxa” – ele respondeu.

 Então é isso. Atemporal e, ao mesmo tempo, 100% atual.

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O Café: A Piratas é muito divertida por ter muito nítida a cara do rock gaúcho. Poderia arriscar dizer ser uma das últimas bandas que mantém essa identidade, enquanto tudo o que se faz por aqui parece ser feito pra tipo exportação. Como tu vê hoje essa questão da personalidade e criação artística das novas bandas que estão chegando?

Antonio Oliveira: Pergunta difícil. Vamos por partes. Gosto da diversidade. Acho que vários estilos merecem vários espaços. E talvez aí comece a ficar delicada a situação. A Piratas tem uma identidade e uma história. Nunca deu um centavo para rodar uma música ou um clipe. Somos autênticos. Atitude.  O que torna mais difícil o processo de divulgação do trabalho. Por outro lado, hoje, se um cara usar um tapa olho e segurar uma espada de plástico, pode ganhar mais espaço do que nós. Mesmo não tendo qualidade a sua criação musical. Triste, mas real.

Outro aspecto importante do que colocastes é o momento do rock gaúcho. Muitos tributos e covers. O que também tem seu valor. Eu costumo dizer nos shows que nós fizemos um som autoral porque sem autoral o cover deixa de existir. Acredito que o ideal é uma convivência harmoniosa entre ambos.

O Café: A Piratas tem saído do eixo tradicional e transitado por temáticas, como o Vamp e o Rock em Quadrinhos. Essa versatilidade hoje em dia é muito pouco vista por aqui, ainda mais se pensarmos na criação da ópera rock! E ainda, com tudo isso, tem aquela linha da identidade da banda que permite tudo isso. Esse processo de se adaptar a novas circunstâncias e condições faz parte da essência da banda? Ou melhor ainda, faz parte do processo criativo de vocês?

Antonio Oliveira: Sou pirata, compositor, músico, poeta, diretor de teatro, reikiano, rsrsrs… A lista é longa! Somada aos talentos de Evandro Cabron (guitarra), Carlito Barcelos (baixo) Adriano Andrade (bateria) e o novo integrante, Gui Grazziotin (voz e violão) dá mais do que um caldeirão de bruxa.  Acho que a identidade Piratas do Porto é essa. A criatividade de propostas temáticas!

Exemplo da louca lucidez. Na tela, a cena final do Planeta dos Macacos com Cesar indo embora prá floresta. Na janela, um passarinho fazendo acrobacias. No colo, o violão que comecei a dedilhar… E cantei “Eu fui criado por humanos / Confesso, tinha outros planos / Fazer do céu a minha casa / Humanos me cortaram as asas / Eu fui criado por humanos / Confesso, ainda faço planos / Andar à tarde pela praia / Humanos me fazem de cobaia / Fui, sou criado por humanos…”  Na hora, a Fátima (minha amada) perguntou:

– O que é isso que você está cantando?

– Uma brincadeirinha – respondi.

– Escreve isso. Escreva prá não esquecer. Disse ela já correndo com um caderno e caneta.

O arranjo com a banda ficou uma música vibrante com um solo bem bacana… A plateia canta junto sempre. Mesmo quem tá ouvindo a música pela primeira vez.

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O Café: Como tu vê os espaços para a música autoral, num todo?

Antonio Oliveira: Falta espaço para tocar, sim. Mas temos boas opções hoje em porto alegre e arredores. Acredito que falta mais espaço nos veículos de comunicação. O problema é que só roda quem tem R$ prá investir, ou seja, não há padrão de qualidade, importância artística. Pagou tá dentro. O reflexo disso é o “encolhimento” do interior gaúcho. Que antes investia no autoral e agora se vê obrigado a conviver só com covers e eletrônicos pré-fabricados.

O Café: E o público, tem chegado novas caras, ou, como em outras áreas, acaba sendo um público fiel e poucas novas caras? Tenho a triste impressão de que as novas gerações estão se afastando das novidades e se refugiado no óbvio dos covers ou de bandas que fazem exatamente a mesma coisa copiando alguma banda de fora (inclusive no visual)…

Antonio Oliveira: Se você sair à rua agora e perguntar para qualquer pessoa: quais as 10 bandas brasileiras ou gaúchas que você mais gosta. Primeiro, vai demorar a resposta. Segundo, muitos não conseguirão citar 10. Terceiro, não chega a 30% as novas bandas na lista.

Eu acredito na diversidade de estilos musicais, rock, pop, samba de raiz, salsa, tango, blues, etc… E acredito que tem espaço para todos.  Porém, como digo na canção, a humanidade dorme o sono da bruxa, ou seja, não há promoção do que faz pensar, do que faz meditar, do que provoca. Só se promove o que daqui a 5 minutos pode ser esquecido.

O Café: Por fim, deixe um recado pro pessoal d’O Café, convidando a todos para o grande lançamento show de O Sono da Bruxa!  Pode ainda criar o vídeo de cel, mesmo, q falamos!

Antonio Oliveira: Fica aqui o convite prá toda galera que curte O Café. Tem show de lançamento do clipe “O Sono da Bruxa” dia 01 de agosto no IN Sano Pub, as 23h. E acompanhe a banda porque vem aí lançamento do primeiro EP da série Rock em Quadrinhos e a comemoração de 10 anos de estrada. Longa vida aos piratas!

Curtiu? Quer curtir mais? Então dá uma conferida no site dos caras, no blog, no Twitter e vai no Youtube pra criar mais expectativa pro show! Nos vemos lá!

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