Considerações sobre a edição 2017 do MATE

O MATE trouxe a Porto Alegre não apenas grandes nomes da relacionados a música (em sua maioria, referentes a festivais que acontecem ao redor do país) e a arte, como também a necessidade de se debater a arte e a cultura em tempos modernos.

Por mais que o evento se foque bastante nas questões musicais, fica muito claro o elo que une todas as artes, e que é necessário se desenhar o panorama social e político para poder se traçar alternativas para a cultura nacional. Afinal, além de estarmos com políticas culturais que favorecem artistas já conhecidos, o estado e a cidade estão com investimento em cultura estão de baixíssimos a nulos. Complementarmente, situando o Brasil na América do Sul, as leis não visam a circulação pelos países vizinhos, diferente da postura do Chile ou do Uruguai, por exemplo. Com isso, qualquer banda que não pertença ao mainstream de seu país não tem grandes conhecedores por aqui, principalmente com a extinção da Rádio Ipanema (que sempre abriu espaço para bandas novas, sem restrição de país).

Nitidamente, o MATE é um impulso para as bandas, gaúchas ou não, tratarem seu trabalho como um empreendimento, com toda a estrutura empresarial e burocrática que isso necessita. Essa proposta, tão ignorada e tão necessária, é enfatizada ao longo dos debates e do breve bate papo sobre pitching, e, mais do que isso, se mostra, de forma mais ampla, uma necessidade de todas as artes nos tempos atuais, onde a cultura teve de se desligar quase por completo dos subsídios governamentais – no RS, ainda de forma mais drástica.

Saindo um pouco da questão empreendedorismo cultural, talvez uma das coisas mais diferenciadas dos diálogos do MATE tenha sido o respeito ao músico, sem questionar o bom ou o ruim, ou que tipo de música é ou deixa de ser “cultural”. A música e as referências foram sempre tratadas com respeito, sem rótulos, diferenciadas unicamente por onde permeia, grande público ou um público mais restrito, mainstream ou midstream. Com certeza, na hora de apresentarem seus trabalhos na rodada de negócios.

No meio de toda essa imagem de construção empreendedora, podemos dizer que faltou um pouco das questões de abordagem tecnológica, como expandir o leque dos conhecedores do trabalho das bandas. Com certeza, hoje, que se tem um espaço aberto como a internet, paralelamente se tem as dificuldades de gerar interesse pelo novo, de novas formas de busca, mesmo com as tantas referências surgindo em todos os apps de música. Se é assim para conhecer novas bandas, os shows acabam ficando sempre restritos e mal difundidos – pudemos ver isso recentemente no show da Banda Eddie, de Olinda, que veio tocar em Porto Alegre depois de 13 anos, e tinha uma platéia pequena, formada, prioritariamente, por pernambucanos. O acesso a informação parece, então, tão fácil, que somos soterrados, de forma a deixar de ter interesse no novo. Mas, por mais necessário que seja este tópico, estamos em tempos de criação de novos nichos de mercado, bem como na extinção de outros tantos, e qualquer discussão sobre esse momento seria muito datado e efêmero.

 

O MATE é uma boa opção não apenas para músicos, como também para pessoas envolvidas com cultura em geral, estruturarem os planos de como lidar com suas carreiras e seus objetivos, bem como um ótimo espaço para networking; evidentemente necessário para todas as áreas nessa fase de transição das formas e espaço de trabalho no país. E como alguém por lá disse, vida longa ao MATE.

Confira aqui alguns momentos dos 2 dias do encontro, assinadas por Leandro Bierhals.

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