O mercado e a gordofobia

É muito inquietante pensar sobre a indústria da moda sendo capaz de ditar como você deve ser. Não, isso não se refere a unicamente seu tipo físico ou peso, mas no que gera isso: seu modo de vida. Você tem um tempo excelente de almoço, que te permite ir a um buffet e comer calmamente? Tem de comer fast food? Leva marmita de casa? Come olhando para o seu relógio?

O peso do mundo está aumentando, as vendas de cintas, bermudas e calças emagrecedoras está aumentando nos programas da tarde e poucas pessoas (mesmo!) estão ligando para isso, afinal, é uma imposição social que toda mulher seja eficaz, produtiva, trabalhadora e gostosa (fora outras tantas tarefas que não cabe listar aqui). Como se não bastasse, ainda tem todo o julgamento por volta de qualquer biotipo que não seja o padrão da moda – aquele, que ninguém sabe exatamente qual é, porque se é muito magra é anoréxica, se é musculosa é anabolizada, se tem quilos a mais é apenas preguiçosa… (Genética para que, mesmo?)

Muito se fala de gordofobia. O termo é feio, e muita gente pensa que é uma justificativa banal de todos os poréns de ser fora de uma estética pré concebida. Honestamente, parecia até uma questão mítica, em muitos aspectos, ou uma forma de pessoas justificarem suas inseguranças. Parecia.

Fluvia Lacerda

Se ao comparar as questões profissionais de mulheres e homens, onde mulheres ocupando o mesmo cargo ganham cerca de 30% a menos mesmo tendo grau de escolaridade superior, chega a ser absurdo nos depararmos com as questões do peso em meio a isso. Inacreditavelmente, quem chama a atenção para isso é uma ex-BBB, Fany Pacheco, que diz que, desde que engordou, sua agenda de compromissos zerou. Vale lembrar que a função de ex-BBB é ser figura cativa, presença confirmada em eventos. Não vou nem questionar como ou por que uma ex-BBB de sei lá quantos anos atrás segue fazendo eventos (isso sim, é demais para a minha cabeça), mas a função dela não é abalada pelo peso da moça.

Podemos pensar nestas questões de peso na indústria de modelos. A über model mundial, Gisele, está na lista da Forbes; a über model plus size também é brasileira, Fluvia Lacerda, e nem perambula pelos meios das grandes fortunas.

Se até a Rihanna foi açoitada pela mídia por conta de sua variação de peso – e muitos insinuam que a queda de volume de shows esteja atrelada a isso -, há como se questionar as inseguranças femininas com relação ao peso, variando desde uma crise de auto estima até receios, por exemplo, de competir por uma vaga de emprego?

A indústria da moda tem cada vez mais necessidade de se reinventar, e a única forma de viabilizar isso é focando no seu público principal, o feminino, e em suas vaidades e inseguranças. A repaginada dos anos 90-2000 constituiu na criação de tops conceituadíssimas que outrora foram capas da Capricho, desenhando o padrão de “desejo e possibilidade” que todo bom marketing atual tem usado; com o aumento de peso do mundo (e também pode-se atribuir à aposentadoria da Sra. Bündchen também… Será?), a queda de identificação com as modelos despencou, colocando em pauta as questões de identificação direta (como youtubers).

A “polêmica” da nudez de uma plus size

Em um período em que se fala de sustentabilidade, moda de brechó e marcas conceituadas ainda fazendo seu tamanho grande transitando entre o 42 e o 44, a expressão de uma identidade parece estar tomando conta da cabeça dos consumidores, inclusive das novas gerações. Incutir desde cedo a problemática do peso como uma forma de agressão ou abuso (afinal, ainda é bem restrita a confecção de roupas fora do padrão antiquado e quadrado, o que mostra que mesmo os consumidores plus size têm, em grande parte, gana de se esconder socialmente) passa a ser, então, um mecanismo que vai sustentar a indústria por mais algum tempo, sem ter de remodelar seus conceitos.

Enquanto isso, paralelamente, crescem as campanhas anti-bullying…

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