O figurino de Michele Clapton para as personagens femininas de Game of Thrones

*O texto pode conter SPOILERS!

Quando se fala a respeito da premiada série Game of Thrones da HBO, baseada nos livros de George R. R. Martin, logo pensamos no enredo empolgante, personagens carismáticos (outros nem tanto…) devido a sua inteligência ou até mesmo a falta dela. E é claro…Não podemos esquecer dos elementos mais marcantes da série: ação, medo, mortes, reviravoltas e ansiedade a cada episódio das temporadas. É o tipo de série viciante, a narrativa conquista rapidamente, transporta para outro mundo…Um mundo muito louco e bizarro, mas que muitas vezes serve como metáfora para as situações que vivemos em sociedade, no dia a dia. Pode ser ousadia fazer essa relação, mas por incrível que pareça, é possível! Reflexões filosóficas não faltariam para se fazer a respeito da série e de cada personagem da trama. Mas como nosso foco é outro, o que dizer do figurino?

Esqueça os trajes medievais que são feitos para os filmes e séries épicas, a complexidade das roupas para cada personagem é muito maior, pois está carregada de detalhes que também ajudam o público a mergulhar na história. O tempo no qual a narrativa acontece não é especificado, apesar de encontrarmos elementos medievais nas roupas. Pesquisa e criatividade intensas foram necessárias para construir o figurino de acordo com o contexto social e político apresentado na ficção.

À primeira vista, ficamos encantados com os tecidos utilizados para os vestidos, os bordados ricamente elaborados, penteados impecáveis, armaduras decoradas com símbolos das Casas de Westeros e muito mais. Na primeira temporada, os figurinos que ficam em evidência são os da Casa Stark de Winterfell, cujo lema é “O inverno está chegando”. O azul é constante principalmente nos trajes femininos dos Stark; há quem diga que a escolha dessa cor é para combinar com o lugar frio no qual a família mora, no entanto, seria preciso compreender o significado cromático atribuído às qualidades e à posição da Casa no contexto da narrativa. Apesar de fria e até triste, o azul pode ser visto como a cor da simpatia, harmonia e fidelidade, segundo as explicações de Eva Heller em sua obra intitulada “A psicologia das cores” da editora Gustavo Gilli. Tem tudo a ver com os Stark. Os bons moços da Guerra dos Tronos, que também erram, mas são honrados, torcemos para eles e acabamos até “fazendo parte da família” por causa disso – o que pode gerar algumas decepções, bem sabemos, mas não que isso seja motivo para deixar de acompanhar a saga.

O azul também simboliza o feminino, remete à água e tem algo de sagrado. Lady Catelyn (Michelle Fairley), a mãezona preocupada com seus filhos, ciumenta e zelosa pelo marido Lorde Eddard (Sean Bean), aparece com vários vestidos azuis, apenas os tons vão mudando. Cat tem aquele jeito de sacerdotisa, sempre conectada com os deuses, é uma guerreira que luta por sua família com unhas e dentes sem perder o ar de mãe pronta para abraçar e pegar os filhos no colo. Apesar, é claro, dela ter seu lado frio e agressivo dependendo da situação. Proveniente da Casa Tully, cujo símbolo é o peixe, é possível perceber em alguns de seus vestidos têm pequenos peixes bordados. Devemos mencionar um broche que ela aparece usando para fechar o vestido.

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Créditos de imagem: obrigadopelospeixes.com

Outra personagem que aparece com a mesma cor, e bem marcante, é a Daenerys Targaryen (Emilia Clarke), a Khaleesi, Mãe dos Dragões, a Quebradora de Correntes, qualquer um dos títulos é válido para identificá-la! Daenerys é um ícone feminista da série. Conforme sua personalidade se desenvolve e seu poder cresce, os figurinos vão mudando. Antes de casar com o dothraki Khal Drogo (Jason Momoa), usava vestidos esvoaçantes de cores claras e drapeados que reforçam o ar angelical da personagem nesse dado momento. Depois, passa a vestir tops na cor marrom, roupas mais curtas e de tecido grosseiro, no estilo selvagem da tribo de seu marido. Ao passar por vários contratempos e adquirir as rédeas de uma nova fase de sua vida, na qual ela torna-se conquistadora de cidades e salvadora dos fracos e oprimidos, o azul vem com força. Ela usa um vestido cuja textura tenta imitar escamas de dragão; por baixo, veste um tipo de calça e botas, afinal, precisa ter um look de rainha e guerreira ao mesmo tempo. O cabelo é cheio de tranças arrumadas meticulosamente.

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Créditos de imagem: Pinterest

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Créditos de imagem: gameofthrones.wikia.com

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Créditos de imagem: Pinterest

Sansa Stark (Sophie Turner), a filha de Lady Cat e Lorde Eddard, usa belos vestidos bordados, e o mais interessante da “princesinha”, são as mudanças de penteado conforme a situação vivida e as pessoas que a cercam. Ao conhecer Lady Cersei, começa a andar com o cabelo parecido com o da “futura sogra”; mais tarde, passa a arrumá-lo conforme a moda de Margaery Tyrell (Natalie Dormer). Talvez por desejar ser aceita, representar inocência e ingenuidade e ter a personalidade ainda em desenvolvimento, Sansa busca os estilos das pessoas por quem tem uma admiração.

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Cersei Lannister (Lena Headey) é uma mulher fatal: astuciosa, cruel, sempre esnobe e exibindo roupas de luxo. O que nos escandaliza nela é a paixão pelo próprio irmão, o relacionamento incestuoso que ambos tentam esconder em vão. Com uma voz de veludo e um sorriso macabro, ela consegue plantar a semente da discórdia e desestabilizar muitos personagens da trama. Pode-se dizer que a perigosa Lannister é a grande “perua” da série. Seus vestidos apresentam variações em tecidos, estampas, rendas e brilhos. Os bordados de pássaros são constantes em suas roupas; com relação aos penteados, podemos dizer que o seu cabelo é um dos mais bem trabalhados. É uma legítima rainha.

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Créditos de imagem: hieloyfuego.wikia.com

Os vestidos das prostitutas principais que aparecem na série não transmitem exatamente vulgaridade, mas liberdade. Shae (Siebel Kekilli), a prostituta que acaba sendo amante do carismático Tyrion Lannister (Peter Dinklage), usa vestidos esvoaçantes na cor rosa, que é erótico e inocente ao mesmo tempo. Por ser confeccionado em um tecido leve e esvoaçante, confere mais agilidade e espontaneidade ao andar; lembram muito os trajes femininos gregos. Shae normalmente estava sempre indo no quarto do seu amado às escondidas, correndo para não ser flagrada por Cersei ou outro Lannister pronto para achar uma falha no comportamento de Tyrion, o renegado da família por ser anão. Se ela usasse corpetes como os de Sansa e Cersei, ela precisaria andar mais devagar, o que certamente dificultaria sua vida. Segundo Eva Heller, o rosa simboliza o “carinho erótico”, é a cor da nudez. Há um duplo sentido na utilização dessa cor na roupa de Shae e de outras prostitutas. Heller ainda explica:

[…] O rosa oscila entre a imoralidade e a paixão, entre o bem e o mal.

Créditos de imagem: Elle

Outra personagem interessante para análise é a Sacerdotisa Vermelha, Melisandre, que tenta conduzir Stannis na Guerra dos Tronos, usando magia negra e crueldade extrema. Obviamente, Melisandre usa vermelho, mas um tom que lembra sangue seco, muito mais obscuro e medonho, que faz jus à sua irritante frase: “A noite é escura e cheia de terrores”.

Créditos de imagem: divando.pop.com.br

Arya Stark foi aos poucos ganhando uma grande importância na série e é a mais nova mulher de todas até então apresentadas. Ao contrário de Sansa, não quis saber de costurar lindos vestidos e encontrar um bom partido para se casar. Ela foi aprender esgrima para tornar-se uma grande guerreira. Na primeira temporada suas vestes são femininas, porém simples, assim como seus penteados. Já nas temporadas seguintes, devido à fuga e ao disfarce de menino, ela usa roupas masculinas, grosseiras, largas e com um cinto. Conforme os acontecimentos se dão, agradecemos “aos 7” por Arya não ter tido o mesmo sonho da irmã de se casar e virar rainha. Ela representa a força feminina transgressora, tem o lado protetor, carinhoso e por que não dizer também materno? A menina Stark demonstra ter uma sensibilidade maior do que muitas outras da história.

Arya

Créditos de imagem: burn-and-bubble.blogspot.com

Créditos de imagem: gameofthrones.wikia.com

E por fim, Ygritte (Rose Leslie), a linda selvagem ruiva que se apaixona por Jon Snow. Como vive ao norte da Muralha, ela usa muitas peles devido ao frio. Sem vaidades, apenas roupas próprias para temperaturas baixíssimas: pesadas, cinzentas e quentes. Jon Snow até quis vê-la de vestido de seda, mas isso não foi possível, nem a interessava realmente. Mas como ela mesma dizia, o Jon não sabia de nada. Ygritte jamais seria Ygritte usando roupas de princesa.

Créditos de imagem: gameofthrones.wikia.com

A figurinista Michele Clapton facilita a compreensão da narrativa utilizando figurinos carregados de símbolos que ajudam a contar a história da Guerra dos Tronos, destacando seus personagens incomuns. Sem a profundidade estampada na roupa de cada um, seria mais difícil levar a sério e ser absorvido pelo mundo fantástico de GoT. A segunda pele dos atores é o figurino, e sem ele, crer no poder de uma Daenerys ou na astúcia de uma Cersei, seria mais difícil para o público. As cores e o trabalho artístico caprichado nos envolvem fortemente, de modo que nos transportamos para a narrativa, vivendo aventuras e desventuras junto aos personagens amados e odiados que acabamos conhecendo tão bem.

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