Moda, importação e identidade de estilo

Parece uma das coisas mais inesperadas, mas a monocromia desapareceu das lojas. Tornou-se uma árdua tarefa encontrar uma peça completamente lisa, ainda mais se não quiser nenhum escrito ou mesmo a marca impressa.

As grandes marcas, cada vez mais, investem na estampa como referência da identidade de coleção (mesmo as coleções que não são mais tratadas como tal), bem como modelagens mais específicas – e que não são adequadas para todos os estilos ou todos os tipos de corpos. Fora isso, ainda está, cada vez mais, se investindo em tecidos naturais, livres do sintético por completo – note que despontam novamente os jeans sem elastano, por exemplo. Nos produtos mais populares, além de mix de tendências habitual, as peças de uma cor só e sem estampas desapareceram. Quando se acha, normalmente vem com pedrarias e um tecido muito questionável.

Pensando nos tecidos de fibras naturais, eles são melhores para o uso em geral: evitam alergias e dermatites no corpo, permitem a transpiração, não têm depósito (constante) durante as lavagens; no dia a dia, nos deparamos com os conceitos ultrapassados (mas que ainda são assumidos por uma grande maioria das pessoas) de ter de se andar sem amassados na roupa (por sorte, as camisas perderam a necessidade da goma nas golas, não é mesmo?), criando um gasto de tempo bastante significativo até para quem seca as roupas em cabides. Paralelamente, a grande mídia televisiva insiste em afirmar que as grandes tendências são malhas de algodão, que têm seu preço super elevado ultimamente, tanto pelo preço dos fios, quanto por conta desse engodo.

 

É muito complicado se pensar em estilo quando somos vítimas das tendências. E as tendências atuais são, não só inspiradas no que vem

 

os (e relemos) a Europa, quanto no que tem chegado via importação. Mais do que isso, até as marcas nacionais têm investido em tecidos importados, em sua maioria sintéticos, por questão de custos. E as importadoras trabalham com os produtos que seguem uma mesma tendência, mantendo produtos estocados até se venderem por completo. Já notou que as estampas estão praticamente as mesmas nos últimos anos, nos produtos mais populares? Mesmo tipo de floral, mesma estampa étnica, mesma estampa psicodélica com cores mais caretas… (Os tecidos lisos saíram tudo há 2 anos, será?)

 

E, claro, isso estrutura uma identidade street muito específica, que também influencia as grandes marcas no investimento de criação de estampas próprias – afinal, mercadologicamente, é isso que mais está vendendo.

Em tempos de crise, essa estratégia é muito válida, mas perdemos a identidade pessoal e a identidade de marca em meio a isso. Consequentemente, para se manter um estilo, ou temos de nos adaptar ao que o mercado oferece, ou buscar em brechós – onde os produtos mais interessantes já andam escassos e/ou nos brechós de luxo que surgiram, eliminando o processo (muito interessante, diga-se) de procurar em milhares de cabides.

 

Mais uma vez, há de se questionar como é esse novo formato da moda que surge em tempos em que todas as profissões estão se alterando, muitas se extinguindo e as bases para a produção da moda estão se extinguindo em função do mercado de consumo. E diante de tantos tutoriais de blogs sobre como se vestir ou o que comprar, onde está a moda?

Sem dúvida, isso há de nos lembrar outras questões que englobam a moda e a estética, como a criação de padrões únicos de beleza, a padronização do consumo ou os pré-conceitos a respeito de visuais. Mais que isso, nada expressa tão bem como essa animação, intitulada “Felicidade Consumista”, de Steve Cutts.

PS: Todas as imagens deste post são resultado da pesquisa felicidade, consumo, moda

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