Moda em tempos de crise

A São Paulo Fashion Week restringiu-se esse ano, diante da crise do país. O Brasil adentrou a crise mundial, que muitos associam os efeito à crise de 1929 dos EUA, ou seja, a crise é mundial.

Mas não vamos adentrar questões políticas num espaço de moda, não é mesmo? Para esse debate, chame-me para um café que irei com prazer!

O mundo da moda já passou por diversas crises, mas nunca uma tão forte veio depois do desenvolvimento da indústria de moda, como podemos dizer, ou da reformulação da sistemática do produto. Se para você é complicado entender nesses termos, as outras grandes crises que abalaram o mundo da moda foram durante as grandes guerras, e nem diante da escassez de prima teve uma diminuição tão significativa da alta costura – que, então, era carro chefe das marcas, e hoje poucas mantém, das quais é quase unanimidade ser pelo histórico da marca. As consequências de crises econômicas mundiais na moda, até então, tratavam de restrições de produto, limitando a produção. Mas os tempos mudaram, e essa crise se estrutura diferente: as grandes marcas precisam lidar com a falência ou mudança de classe de muitos de seus consumidores, o plágio fácil do produto (principalmente quando é terceirizado) e a competição de preço  (praticamente imbatível) que a China oferece. Podemos arriscar dizer que, nesta crise, as grifes perderam a importância de timbrar as peças para muitas pessoas.

Nicholas K

Se em outros momentos sensíveis da economia mundial se tinha restrições de matéria prima ou quedas de consumo, o reflexo no momento atual é muito exponenciado, ocasionando estoques de peças não vendidas nas grandes lojas (não se restringindo a marcas, pois o excesso de produto é uma constante em todos os segmentos da indústria da moda). Como, então, pode-se lidar com esse acervo excedente?

Tendências. Sempre nos deparamos com as tendências e as releituras. E se já vínhamos de tensões políticas, econômicas e sociais quando essas tendências foram lançadas, essas miasmas seguem em vigor. Ou seja, é estrutural e produtivamente um produto de moda se houver pequenas adequações do produto, e deixa de ser uma perda total (além de liberar o estoque).

As tendências outono/inverno 2017 são nitidamente um mix de tudo o que vimos nas últimas estações, com pequenas alterações de modelagem e muitas nomenclaturas diferentes. E prepare seu estômago para aceitar algumas coisas bem específica, como militarismo e Tye Dye entrando como facetas do grunge (E, com propriedade de quem vieu os anos 90, posso dizer não!!!), e super misturado com tendências góticas dos anos 80 e 90. Outra mudança sensacional é que trocaram o tom vermelho do ano passado, o Marsala, por vermelho, grená ou bordô (Ou seja, carregue sempre seu pantone embaixo do braço para lidar com certezas na hora de comprar o tom de vermelho fashionista, e não o super ultrapassado).

Parece que a indústria da moda está absorvendo essa tendência de não questionar o que se ouve, e aceitar fielmente o que é imposto. Ter um argumento que justifique e posicione peças numa coleção ou numa tendência é um mecanismo econômico diante da crise, mas se sairmos da definição filosófica do que é moda e colocarmos na prática, a não criação e a não novidade não insere nenhum produto no conceito, mesmo que customizada ou adaptada. Isso, em tempos de crise, também essencialmente elimina a necessidade de um estilista, por assim dizer. Existem peças atemporais em muitas marcas, então inserir um item ou mais como elemento de coleção nova é unicamente um engodo desrespeitoso ao consumidor, onde as marcas optam por relançar as peças a liquidá-las. Ou seja, fique atento: moda em tempos de crise é muito mais consciência que consumo.

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