Moda em tempos de crise II: fast fashion, grifes, qualidade e consumo

Teve um texto (que beira o infame) rolando essa semana nas redes sociais, onde – além de um argumento machista e, posteriormente, uma justificativa que piora substancialmente o conteúdo – o rapaz diz “toda mulher precisa estar bonita”. Mais do que isso, ele dá dicas!

Chegamos num momento em que todo mundo se acha apto a dar dicas de absolutamente tudo, e moda saiu dos livros e passarelas e virou conteúdo manipulado por blogueiras descoladas. Essas, além (é claro) de serem pagas por marcas, são as novas ditadoras de tendências, superando (pasmem!) até mesmo as novelas.

Com isso, o remanejo da indústria da moda tem se posicionado de forma mais rápida ainda, gerando produtos de extrema baixa qualidade, tanto de acabamentos quanto de material, para quem consume apenas a tendência – ignorando todo e qualquer critério. Isso justifica a quantidade de poliéster nas vitrines populares, bem como as costuras tortas de camisas Ricardo Almeida.

Se o poliéster não exige acabamento (é muito comum encontrar peças sem acabamento MESMO, dizendo que é uma finalização a laser) e é fácil de trabalhar em qualquer fábrica (sem bainha, só precisa de um overlock para os fechamentos), atende os atributos de consumo rápido que a fast fashion implica. Ironicamente, marcas mais elitistas têm tido produtos muito mais mal acabados do que o valor investido na peça, trabalhando num argumento infame de que as classes consumidoras de seus produtos não usam repetidamente as peças, não precisando ter uma boa qualidade. Tratando-se de modismos, encontramos peças que parecem que vão se desfazer quando lavadas – e muitas se findam, mesmo.

Nitidamente, as apostas da moda rápida são para não durar, e sim, para obrigar o consumidor a girar esse mercado. Com a óbvia queda da alta costura e a necessidade de se criar subdivisões nas coleções das estações das grifes – talvez a última tentativa de espaço de criação autoral, visto que são poucas as inovações ou assinaturas visuais de criação dos produtos (salvo a etiqueta em si) -, a moda rápida surge para atender demanda imediata, que não vai durar, mas que cria uma necessidade no consumidor, como temos hoje as jovens de tiara de orelhinhas de gato. E, claro, o foco é nas mulheres e suas compras de impulso, não tendo espaço em produtos de beleza e maquiagens, por exemplo. Não existe fast fashion para homens: existem peças padrão de qualidade (e preço) muito inferiores.

Poucas são as marcas que trabalham com qualidade associada a preço, mas ainda existem peças feitas para durar, com baixo índice de desbotamento e boa produção. Assim, torna-se fundamental a consciência da relação etiqueta, qualidade e necessidade. Claro, um pouco de conhecimento de moda, que envolve desde como usar uma peça até o quanto ela há de durar sem você se sentir out (é moda ou modismo?) também faz milagres!

E, pro mocinho lá de cima, que ainda sonha com a moça dos anos 60, jovem recatada e do lar, só falta algumas indagações…

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