Moda e Mídia II – Jovens meninas

moda-para-crianças-4Quando se fala em pedofilia, normalmente nos referimos a um indivíduo pedófilo. Por muitos, os anos 80 e 90 do milênio passado eram considerados como um acervo infinito a este conteúdo impróprio, desde pela formatação da televisão (quem não se lembra do Concurso Mini Carla Peres, com closes no bumbum das menininhas?) até as telas o cinema (a pornochanchada não tinha pudores de colocar crianças em suas tramas, vide Amor Estranho Amor, o polêmico filme da Xuxa com um menino de 10 anos).

Posteriormente, criaram-se leis mais eficazes, fiscalização para não se manter esse precedente, e criaram-se muitas iniciativas para proteger a criança e o adolescente desse tipo de abuso, e inclusive para se manter a criança como criança.

Poderíamos entrar na ação e consequência de algumas posturas, como a proibição de produtos com personagens infantis ou da veiculação de propagandas voltadas às crianças (que limaram a programação infantil da TV aberta, que era um dos principais “brinquedos” de muitas crianças carentes, que passam a ter de ver talkshows matutinos com temáticas muito adultas para elas). Como esse debate tem muitos argumentos por todos os lados, vamos nos dispor unicamente a questão da mídia na moda para crianças, e a adultização precoce dos pequenos.

Como falamos anteriormente na questão do direcionamento do pensamento para estereótipos de insatisfação pessoal, estamos sendo bombardeados por uma mídia inconsequente desde muito jovens, principalmente as mulheres, tanto que parece impossível se desassociar essa ideia em algum momento (não é ÓBVIO que existe um padrão que você quer seguir sem saber por que?). Então imagine essa nova geração, que não está preparada para esses questionamentos (não tenho certeza nem de que nós estejamos!!!)…

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Podemos eliminar os elementos diretos da mídia que atingem os pequenos, mas as referências perpetuam. Talvez, numa linguagem ainda mais agressiva, onde aquela velha brincadeira de se vestir com as roupas da mãe ou do pai  torna-se uma compulsão por mexer no celular ou no tablet, estejamos vendo a brincadeira lúdica de referência se transformando numa necessidade (muitas vezes, em crianças, parece compulsiva) de consumo.

E mesmo não tendo propagandas focadas no público infantil, temos os desenhos animados e seriadinhos, ainda específicos para cada idade. E tem brinquedos desses “novos ídolos” a venda. Que menina hoje não quer a coleção da Monster High completa? Ou se vestir como a Draculaura?

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Pensando nisso, todo o mercado está se focando em atender o público, jovem consumidor. Nas lojas mais simples focada em público infantil – ou com peças que atenda este – se encontra o biquini das princesas, algumas fantasias delas, a camisetinha da Frozen… E claro, o look de rendas e meias arrastão das Monster!

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Traduzindo para o linguajar mais fashion, o uso de rendas e transparências é tido como “sexy velado”, por ser sensual mas não explícito. O couro, a borracha, o vinil e as estampas animal print estão inseridas no material de origem fetichista, e está mais inserido ainda no look almejado por baixo do visual estudante da Monster High. Então vem o questionamento: por que uma criança tem de ser sexy? Não é atribuir uma necessidade muito adulta para (pasmem) até um bebê?

Gostaria de deixar claro que os poucos episódios que assisti do desenho eu achei muito bonitinho, com bons valores do tipo “seja quem você é e se aceite”, “não minta”, “busque a harmonia”… Ou seja, nada contra o desenho em si, mas com a referência que ele acabou se tornando.

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Enquanto isso, numa loja que atende apenas o público infanto-juvenil…

Voltando à ideia de produto, as coisas vão se podando involuntariamente, e existe todo um mercado que vai se valorizando com esse crescimento precoce das meninas. e muito pior que isso, já existe um mercado que se abusa de suas ânsias. Se um visual sexy ou de pegada de moda fetichista já soa inacreditável, o que achar de atribuir formas adultas para uma criança? Sim, isso existe.

Se há peças deste cunho no mercado infantil é porque tem público: ou uma criança que quer (e ganha!), ou uma mãe que incita as famigeradas “formas perfeitas” desde pequena na baby. Pessoalmente, já acho de extremo mal gosto aqueles sutiãs para crianças de 5 anos (que não têm mamas!!!), imagine uma peça dessas?

Há a necessidade de se ponderar sobre o tipo de informação e conceito que vem se recebendo no dia a dia. Talvez não seja mais a hora de se falar de moda, mas de estilo e comportamento – que gerem interação direta com seu visual. Estamos sendo presos em ideias que não necessariamente nos pertencem, em formas que não necessariamente nos favorecem e ainda querem nos atribuir o papel de sermos alguém que não sabemos se queremos ser. Somos parte de um sistema que depende de venda de produtos, mas não precisamos nos deixar ser objetificada desta forma. Uma mídia que impõe essa linguagem não é correta, mas é o formato que ascende desde os anos 60, mas meio século depois espero que estejamos mais aptas a decidir se queremos (ou não) que esse formato persista.

Vale permanecer no limítrofe da frustração? E vale condicionar uma criança a isso?

 

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