A mídia cultural e a moda

Há muito não se vê novidades culturais no mundo. Se formos reduzindo os espaços, isso fica ainda mais evidente: Brasil está cada vez produzindo mais sertanejo universitário e funk; Rio Grande do Sul foca em música nativista e rock enlatado britânico. E a arte? Talvez uma das poucas novidades seja o parque temático do Banksy, cuja postura de artista se assemelha muito ao que já vimos no passado em outras áreas: Nos anos 80, o Kiss se maquiava de forma a ser difícil conhecer seus membros sem; posteriormente, o Slipknot e suas máscaras. Até o Guns’n’roses já teve membros ocultos, ou mesmo o fatídico baterista do Massacration, em terras tupiniquins. E o cinema? quantos remakes aparecendo, e quantos filmes que você acha que já viu estão entrando em salas de cinema? O cinema nordestino, que é um dos mais criativos do país, só aparece fora da TV Cultura (aquela, que é das melhores TVs do mundo, mas ninguém vê) quando os diretores fazem algum vexame em salas de cinema…

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Banksy chegou agora ao grande público com seu “parque temático”, mas há muito indaga sobre os pilares da sociedade atual

O fazer da arte também tem muitos círculos viciosos, em específico se tratando de temática. Você pode fazer uma linha de propagar bons sentimentos ou de questionar os posicionamentos, quase uma definição crua de preto e branco – ou sim, ou não.

Aliás, não é mais ou menos assim que está a mentalidade humana no cotidiano? Sem ver meios termos?

E você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com a moda. E se você pensa em determinar a partir daí uma cartela de cores cinzentas, ou mesmo que a moda está apenas retingindo as peças que ficaram em estoque ano passado, está enganado. Não completamente, mas está.

Toda a produção cultural tem algum elemento forte por trás. A música conta com uma indústria fonográfica eficaz, que através de jabás e propagandas consegue induzir ao consumo (voluntário ou involuntário) da massa. A arte precisa ser vendida para um público que, em geral, a associa a decoração – o ativismo artístico precisa ser assimilado pela população de uma forma não agressiva, contrariando as questões que pixadores colocam em pauta, por exemplo. Toda e qualquer manifestação artística tem custos, e todo artista só tem como se subsidiar quando a arte vira um produto. Mas… E quando os grandes nichos artísticos se fundem? E quando essa indústria, que perde forças dia após dia, resolve se remodelar para se sustentar? Aí encontramos a moda.

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Você se lembra do Restart? E da banda Cine? Talvez você se lembre com uma memória afetiva de uma época, mas essencialmente não tinham qualidade. Mas vendiam. E mais do que isso, foram a consolidação do Colorblock na moda, e uma jogada de mestre de colocar as cores vibrantes em evidência novamente, para todas as idades. Pense no efeito dominó: os jovens usam para se associar a identidade da banda (os fãs hoje são chamados de família), e a cultura ocidental nos leva a querer uma associação jovial com a roupa (e com toda a imagem, principalmente feminina).
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vivienne-westwood-5Como já falamos anteriormente, Vivienne Westwood teve esse mesmo processo com Malcom McLaren nos anos 70 na Inglaterra, com o desenvolvimento da indumentária punk dos Sex Pistols. Agora, o processo é revisitado ao redor do mundo – inclusive na própria Inglaterra.

Paralelamente, a moda se reinventa de forma nada criativa: releituras conflituosas de décadas passadas, renomeando as peças para parecerem novas, ou dando nomes confusos para a “cor da estação”. Uma moda com identidade, como o que temos visto no oriente ou na Rússia, virou mercado arriscado – afinal, a mídia impõe que sejamos iguais; Aliás, não tem apenas as mesmas peças a venda em todas as lojas, só mudando uma estampa ou serigrafia?

Entre arte, história e origens, Tatiana Parfionova desenvolve conceitos na moda russa.

A arte está saindo do papel e indo para o tecido e para a decoração; as novelas ainda são mais eficazes para ditar moda do que grifes ou desfiles por aqui. A Renner já vende camiseta de bandas outrora consideradas undergrounds. A padronização por trás do que vestimos nada mais é do que a padronização que nos empurram goela abaixo. Todos querem uma camiseta de super herói, seja por conta dos filmes da Marvel, seja por conta de Big Bang Theory. Infelizmente, hoje ter estilo é sinônimo de contracultura.

E aí, como você se veste?

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