Um vinho com Hannah Arendt

Foto: Fred Stein

Foto: Fred Stein

 

A foto aí de cima é de Hannah Arendt, inspiração para a minha amiga Denise M. Freitas. Denise é uma poeta e crítica literária muito instigante. Conversei com ela esta semana. Ela mantém o blog literário Sísifo sem perdas .

 

Como você definiria sua relação com a palavra?

Minha relação com a palavra vincula-se à curiosidade, ao inusitado e ao inconformismo (este talvez seja o motivo da curiosidade). Procuro desarticulá-la de suas funcionalidades cotidianas, com isso, surge o lugar da surpresa e do desaviso; por vezes esse processo é bem intencional, noutras, nem tanto. O melhor de tudo é que o envolvimento provoca “pensamentos” e força o saque, a pilhagem nesse território tão extenso da linguagem, que é onde se situa a palavra. Gosto da sugestão de Herder de que as palavras da infância, nossa língua materna, compõem nossa primeira realidade, o primeiro mundo do qual tiramos proveito, o primeiro que “logramos ver”. Além disso, ao longo da história, a palavra tem mantido o contato com o outro, daí a multiplicidade e a parcela de equívoco que carrega.

Quando você percebeu que era de fato uma poeta?

Logo nos primeiros anos de letramento, o prazer da leitura, eu encontrei nos poemas. Isso nada diz respeito à pergunta; de fato, gostar de poesia não significa ser poeta. No entanto, e vale lembrar que a aprendizagem envolve imitação, em seguida quis mimetizar aquilo que via e ouvia em minhas leituras. Ainda bem jovem percebi a vontade de escrever poemas, mas a cisma ainda não fazia de mim poeta. Somente com acúmulo de leitura (leitura e pesquisa, que acionam outros componentes além do deleite e do gosto) e contato com diferentes formas de poesia foi possível compreender que fazer versos apenas não autoriza o sujeito ao título. Há, principalmente, a necessidade de estudo das diferentes justificativas que têm sido atribuídas à poesia, daí a relevância da crítica, da análise, da arguição na formação do poeta (bem como de qualquer artista). Enfim, entendo que a percepção sobre ser poeta esteja relacionada com certa maturidade, e essa relação não se encerra totalmente no dado cronológico, mas passa, em certa medida, por ele.

Como você vê o mundo acadêmico brasileiro hoje? Ele é um propulsor cultural ou só fortalece um retrocesso conservador no trato com a palavra do saber?

O mundo acadêmico compõe-se, além de suas personagens, de suas instituições de ensino. Suas regras, sua dinâmica, sua estrutura são organizacionais, mais delimitam e encerram, do que promovem o trânsito ou a agitação. Portanto, serve mais ao retrocesso conservador. No Brasil, envolve, ainda, importantes questões sociais e econômicas no que diz respeito aos seus caminhos de acesso e oportunidades de permanência. Tais questões já deveriam ter sido, ao menos, bastante minimizadas, e não foram. Mas ele tem também seu lado positivo, deve ter.

Você enxerga um meio literário vibrante em POA?

Nossa atividade sísmica nem chega a deslocar, do zero, a escala. Há algum murmúrio, entretanto nada que impressione ou desfigure.

Por que escrever?

Porque é imprescindível. E porque dá prazer. A articulação da linguagem para a composição do texto envolve processos de satisfação. Escolha, recusa, busca, inquietação, tudo isso tem a ver com a atividade da escritura.

Com que autor você tomaria um café e com qual autora você beberia um vinho?

Supondo que não precise restringir minha escolha aos nomes vivos, o café, beberia com Sousândrade. Com Hannah Arendt, o vinho.

 

 

 

 

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