Sai do Facebook e vai pra rua!

Foto: João Pedro Wapler

Foto: João Pedro Wapler

Os protestos que se alastraram pelo Brasil nessa semana acordaram o país. O pretexto do preço das passagens foi só o estopim de uma série de manifestações confusas, que misturavam diversos interesses gritados pelos manifestantes. Os jovens brasileiros não se sentem representados em Brasília nem nos palácios de governos e assembleias legislativas. Eles querem mais. A geração que nasceu depois do fim da Ditadura Militar está se dando conta do país em que mora. Depois de longos anos ditatoriais e de nem sequer trinta anos de eleições diretas, nossa juventude não tem voz no poder e começou a se incomodar com isso.

Muito se fala sobre a despolitização dos jovens brasileiros do século XXI. Dizem que eles são zumbis que vivem entorno da internet, que não lêem, que se drogam muito e desrespeitam a família, enfim, só querem saber de vandalismos eróticos e não sabem o que querem da vida. De fato a geração 2000 é muito hiperconectada, nervosa e indecisa, mas as manifestações dos últimos dias viraram do avesso a cabeça de todo mundo. Quem é essa juventude que vai às ruas? O que eles querem de fato? Por que o poder público se distanciou tanto dos interesses da massa jovem e inquieta?

Ninguém esperava que os jovens brasileiros saíssem do Facebook e invadissem as calçadas, isto é um fato. Nossa juventude, antes vista como preguiçosa e acomodada por facilidades, mostrou que sabe muito bem fazer barulho quando quer. O que vai resultar desse barulho ninguém sabe ainda. Os políticos estão com as calças borradas. Só isso já é um grande avanço para nossa democracia. Ver na televisão um tapete humano cobrindo o asfalto das grandes cidades é um marco da democracia civil brasileira, pois mexe com os brios da classe política e remexe no marasmo que permeia o debate público no Brasil. Porém, creio que há mais hormônios que neurônios nas manifestações.

Cabe ressaltar que nunca tivemos uma construção democrática civilizada de verdade no Brasil. Nossa democracia está ainda na pré-escola, aprendendo a conjugar poder público com interesses da sociedade. Nossa população é desinformada, sem cultura e instrução, e por consequência, bastante alienada e sedada pelos donos do poder. Nossas crianças não têm um bom ensino básico e não chegam nem ao curso superior. Um povo deseducado, não lê, não escreve e não sabe fazer uma leitura crítica do que ocorre a sua volta, deixando isso para meia-dúzia de engravatados. Será que foi por isso que o pessoal demorou tantos anos para ir às ruas?

Vale a pena ressaltar também que a manada de jovens nas avenidas são de classe média e não proletários. São estudantes que não sabem direito se enquadrar num país que não dá respostas para suas angústias. Eles odeiam os partidos políticos, dentre outras organizações e instituições consagradas. Depois de mais de duas décadas, repito duas décadas, sem protestos desse porte, os jovens brasileiros tomaram as ruas, mas não há uma bandeira comum e sim diversas questões sendo levantadas de maneira extremamente confusa e fragmentada. Misturada à massa descontente e pacífica, há um bando de criminosos e militantes radicais aproveitando-se do momento para caotizar. Há algo de podre no meio desses protestos pacíficos que é difícil de ser domado. Quem controla a “minoria violenta”? Será que ela não é devidamente condenada pelos líderes difusos dos manifestantes? As depredações seguem e os protestos estão cada vez mais caóticos e perigosos.

É muita ingenuidade achar que não existem líderes nessas manifestações. É evidente que sim, só que são de difícil identificação. Sempre há grupelhos mais articulados no meio da massa. Alguém precisa marcar o local do evento, juntar gente. Existem várias lideranças se articulando e reunindo entorno delas uma massa absolutamente heterogênea.

Por exemplo, porta-vozes do “movimento” de Porto Alegre que falaram num bate papo curioso com o Governador do RS Tarso Genro, são vinculados a ideias políticas muito confusas e não condenam claramente as violências que ocorrem nos protestos, demonizando o Estado de maneira infantil.

Essa é a desvantagem de hoje: por não haver uma causa específica, um líder e uma ideologia, a massa não sabe definir um foco específico e pode se enfraquecer ou ser usada por mentes oportunistas e fascistas. Todos os protestos dos últimos dias tem tido a mesma trajetória: iniciam-se com uma espécie de festa de rua e debandam para desvios asquerosos de marginais.

O protesto de Porto Alegre do dia 20/6/2013 foi emblemático: a maioria dos manifestantes fez uma marcha gigantesca por uma das principais avenidas da cidade e uma minoria optou por um caminho estúpido que levou a depredações e conflitos lamentáveis com as forças de segurança. Por sinal, Porto Alegre comprovou seu protagonismo político contestatório no Brasil, já que aqui começaram as primeiras manifestações dessa espécie.

Não podemos ainda definir aonde vão dar todas essas manifestações. Mas só a sensação de medo que essas revoltas geraram na classe política – e espero que elas possam gerar cada vez mais medo nessa classe carcomida – já é interessante. Devemos ficar atentos aos excessos que esses protestos podem provocar, pois é muito difícil de comandar uma massa. Mas o fato da apatia do jovem brasileiro ter sido sacudida com ações nas ruas, já deixa um saldo positivo para o futuro da política nacional. O que falta é maior clareza nas reinvindicações, pois elas são muito vagas e variam muito dependendo do dia. Um movimento não tem força se não tem foco. Porém, se o objetivo do “movimento” for apenas sacudir as estruturas, ele cumpriu sua função com extremo sucesso. O clima gerado nas cidades e os debates que surgiram em virtude dos protestos também foram absolutamente saudáveis para a vida democrática. Só devemos evitar o caos, pois ele leva só à destruição.

Uma democracia não se faz só nas urnas e sim no dia a dia. Nosso sistema político está falido e não reflete o Brasil de hoje e os desejos dos jovens principalmente. Sem uma reforma política o país continuará atrasado. E qualquer reforma política começa na cabeça do cidadão, no seu desenvolvimento intelectual e político. Sem uma massa informada e pensante não se muda um país para melhor. O Brasil precisa de novas ideias para seu poder político ser mais democrático e o impulso para desenvolver soluções inteligentes no país já foi dado nas ruas nos últimos dias. Qual a resposta será dada para os manifestantes?

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