Que os mortos enterrem seus mortos

Foto: João Pedro Wapler

Foto: João Pedro Wapler

Uma das minhas alegrias diárias é ler jornal. Como um velhinho ranzinza, leio tudo o que está no jornal. Sou obsessivo por notícias, principalmente àquelas ligadas à política (não a partidária!). Saber onde estamos é o primeiro passo para não sair tropeçando por aí e achando-se sensacional e inovador. 80% das pessoas não sabem em que cidade ou em que país vivem. Por isso que estamos onde estamos. As pessoas preferem assistir a novelas com os mesmos enredos de vinte anos atrás do que sair de casa e ir ao teatro. Ninguém que ser provocado, todos querem ser masturbados por outra mão que não diz nada.

Leio um jornal daqui e um nacional. Sou tarado pela precisão dos jornalistas; eles não repetem palavras e sabem fazer o texto fluir. Eu sou mais da escrita descompassada, por isso invejo eles. Mas nunca seria jornalista, pois sou completamente parcial e chato com o que penso.

Não sabia o que escrever aqui essa semana. Esta coluna para mim é um desabafo semanal terapêutico. Adoro escrever crônicas. Ando até a esquina e tenho ideias para duzentas crônicas. Mas tem semanas onde meu cérebro parece sepultado em agitações marítimas chatas. Daí não escrevo; ou sofro para escrever.

Como sou um pouco preguiçoso decidi mandar algumas perguntas para o poeta Ronald Augusto. Foi ele que me ensinou quase tudo do que sei de poesia hoje. Admiro o meu amigo, pois ele é um grande artista e um grande crítico. Não consigo imaginar um ser artista que não pensa o mundo. Ronald é erudito e popular, autodidata e nada acadêmico. Alguns dizem que o Ronald é crítico demais e sua poesia é muito hermética. Eu rebato e digo: que bom. Nada melhor do que um poeta pensante numa geração de poetas bobinhos. Mas Ronald é aberto para o diálogo franco, diferente dos papos que hoje correm por aí, onde um artista bajula o outro em redes sociais numa masturbação infinita e impotente ao mesmo tempo.

Qual a arte que mais instiga sua sensibilidade hoje? 

O cinema, sem dúvida. É impressionante como o cinema levou apenas, mais ou menos, meio século para se firmar como arte autônoma, nesse curto período de tempo definiu e ensinou sua gramática ao apreciador. E a partir de um estilo de elipses radicais, conseguiu, no que toca ao quesito “contar uma história”, disputar a primazia narrativa com o romance. Nenhuma outra arte fez um percurso tão veloz. Ok, parte dessa velocidade deve ser creditada à dimensão industrial e tecnológica do cinema, mas isso em fim de contas depõe ainda a seu favor, pois os realizadores conseguiram criar obras primas mesmo sob a pressão dos tacanhos interesses meramente mercantis.

O cinema e o sistema do corte, da montagem lembram a tessitura poética, quanto à imagem. Poesia às vezes nem parece tanto com literatura. Poesia parece algo mais indefinível quanto linguagem. Poesia parece um gênero mais aberto que o romance e mais radical. A poesia é a salvação da língua?

A poesia não é salvação de nada. Além do mais ela não é língua, mas linguagem. O grande problema para a poesia é essa superestimação (great expectations) que as pessoas projetam no fazer poético, que não é senão um fazer.  O que está por detrás do processo compositivo do cinema é um tipo de função da linguagem (seja verbal ou não) que é comum a outras formas de arte, trata-se da função poética. A função poética chama a atenção para a própria linguagem, para a forma significante que se opera diante dos nossos olhos. Metáforas, comparações, elipses, reiterações e analogias, enfim, esses conceitos são comuns a todas as artes, mesmo a ideia de antiarte supõe essas coisas. A poesia é, de fato, mais aberta que o romance, mas isso entra na conta tão só das diferenças entre as duas linguagens, não há mérito nenhum nisso.

Vejamos, um escritor ou crítico é restrito ao âmbito literário e lá saca de tudo. Não procura muito outras esferas artísticas. A literatura está cada vez mais fechada em si ou dialoga cada vez mais com as artes em geral? 

Essa não me parece ser a figura mais precisa tanto do escritor, quanto do crítico no quadro contemporâneo. Aliás, quem pretende, hoje, seguir o rumo da literatura, sabe que não pode ser apenas um escritor avestruz, fechado em seus limites. Não há dúvida de que ter um conhecimento específico sobre o gênero é necessário, mas já não é suficiente. Entretanto, o interesse, por parte do escritor, pelo contato com outras esferas artísticas não deve se configurar numa tábua de salvação, quer dizer, esse diálogo não deve ser do tipo oportunista ou no simples interesse de uma sobrevida do campo literário. Que os mortos enterrem seus mortos.

A gente mora do Brasil, por isso falamos sobre o Brasil, vamos lá: o que você, o senhor, tu acha da Academia Brasileira de Letras e da Feira Literária de Paraty ou de qualquer “feira literária”? Elas servem à arte de pensar ou a de aparecer?

Dizem que há sujeitos interessantes na ABL, não sei. Manuel Bandeira entrou para Academia, Drummond não. A ABL é que nem o facebook, há amigos demais. Quanto às feiras, me parece que elas são a vitrine do que está na superfície do meio literário, do que, no momento, atrai a atenção. São eventos mais atentos ao mercado do que a qualquer outra coisa.

Qual conselho você não daria para um escritor?

Que ele se vire.

A tendência é as pessoas lerem cada vez menos?

Acho que as pessoas estão lendo cada vez mais. Agora, quanto a ler no suporte livro, eu não sei dizer se se lê menos, me parece que se lê de maneira mais fragmentada, vários livros, partes de livros, também em função das necessidades de formação (isto é, o leitor de literatura, em sentido clássico, cursa o ensino superior, faz letras). Talvez o que chamamos de “leitor comum”, este, sim, talvez esteja diminuindo. Mas isso é uma questão para as pesquisas e as estatísticas

A poesia da geração anos 2000 me parece a menos instigante de todos os tempos. Ela é de apartamento, cheirosinha, blogueira e digerível. Concordas?

Concordo e não teria mais nada a acrescentar. Teria, sim. A geração dos anos 2000 também posa de revoltadinha. Os poetas são maloqueiros bem nascidos, as poetas são feministas que não leram nada sobre o movimento feminista.

A poesia brasileira não está engraçadinha demais?

Não só a poesia. Todos estão engraçadinhos. As tiradas, os ditos, os trocadilhos, se transformaram na moeda corrente do pensamento contemporâneo. É a ideologia do stand-up. Acho um saco.

 

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