Porto Alegre, Cidade Aberta

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Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Dia 20/06/2013. Tempo nublado e extremamente chuvoso. As 16h da tarde recebo um telefonema cancelando meu ensaio no teatro. Meia hora depois atendo outra chamada telefônica – é tão raro receber uma ligação hoje em dia na era do sms e do Facebook! – cancelando minha aula de inglês. Fico sabendo pelo meu rádio de pilha- herdei do meu avô– que antes das 17h todos os estabelecimentos do centro da capital gaúcha estariam fechando suas portas e os táxis em sua maioria permaneceriam fora de circulação. Será que haverá um estado de sítio? Esse termo lembra um filme de Costa Gavras que marcou minha vida. Fico agitado. Está ocorrendo finalmente algo na minha pequena e simpática capital provinciana.

É o dia da maior manifestação política das últimas duas décadas. O ponto de encontro é na frente da prefeitura municipal. Moro longe de lá e pegar um ônibus naquele instante seria impossível. Convoco minha irmã e nós dois partimos no meu Gol ano 2004 rumo ao ato político. Não há tanto trânsito assim. Encontro um estacionamento e coloco o meu carro – não posso deixar ele na rua já que foi arrombado diversas vezes. Saímos eu e minha fiel escudeira pelas ruas do centro desertas. Depois de duas quadras chegamos diante da prefeitura. Encontro adolescentes skatistas, algumas senhoras, funcionários públicos com identificação, universitários, militantes de esquerda, fotógrafos e um clima de festa e alegria. Converso com amigos que não via há anos. Naquele instante, pela primeira vez em minha vida, senti-me num lugar onde a história do Brasil estava sendo feita e refeita.

O Brasil vive um momento muito curioso. Diferentes de nossos hermanos, que têm como Deus Maradona, nós nunca tivemos a tradição de sair às ruas para reclamar. O único momento em que o brasileiro discute política é em época de eleição, sendo que muitas vezes nem nesse período ele pensa no assunto, deixando a escolha de seu candidato para a última hora. Nesses últimos dias o Brasil virou um país vibrante e tenso, recheado de gritos, faixas, corpos correndo, prédios pichados, vidros quebrados e bombas de gás. Com uma presença maciça do povo, principalmente dos jovens, nas grandes avenidas, as grandes cidades pararam. Nunca se viu antes – pelo menos nunca vi desde quando nasci em 1986 – tanta gente discutindo política no táxi, no ônibus, na sinaleira, no banco e no buffet a quilo.

Pela primeira vez na minha vida saí na rua e escutei as pessoas debatendo o seu próprio país. Ao invés de futebol, de novelas e de programas televisivos ou vídeos no YouTube, o povo estava argumentando a respeito dos rumos do país. Por que só agora algumas pessoas estão acordando e assumindo o papel de cidadãos de verdade e não apenas de portadores de um RG? Por que o pessoal do Brasil nunca teve o hábito de protestar?

Se nós protestássemos mais com certeza teríamos um país mais decente, quem sabe. Como nossa população sempre foi amena e dócil, os políticos e seus aliados (e financiadoras de campanha) sentaram a bunda na nossa cara. Só agora é que eles estão se reunindo e, com medo de perderem o poder, debatendo melhores maneiras de dialogar com os eleitores órfãos. Mas vale salientar que os políticos que nesse exato momento falam depois de estarem com as calças na mão, se manifestam não como estadistas e sim como oportunistas querendo tirar uma casquinha das manifestações, mostrando-se  “solidários” aos manifestantes. São oportunistas, eleitoreiros e sem caráter.

Queremos políticos que falem com clareza, sem consultar seus marqueteiros – que hoje, diga-se de passagem –  são os verdadeiros governantes. Os políticos precisam parar de querer agradar o povo e expor seus pontos de vista e fazer o que deve ser feito para o bem estar geral, doa a quem doer. Não se avança democraticamente dopando o povo com palavras e bolsas disso e daquilo somente.

O PT é sem dúvida o maior retrato da decadência do modelo partidário do Brasil. Antes do lado das massas, hoje está no poder e é rechaçado até em passeatas. Como um partido que emergiu das ruas pode chegar a tal ponto de decrepitude? O  PT hoje não tem mais respaldo como antes e só tem simpatizantes entre sindicalistas e alguns artistas. O PT virará um PMDB, o PT virou sinônimo de Mensalão. Triste destino para um partido com uma trajetória de lutas tão significativas e que teve em seu quadro grandes figuras.

Na realidade todos os partidos políticos nacionais estão sem programa, sem credibilidade e tentando se reinventar. Há alguns melhores que os outros, com algumas mentes inteligentes. Outros são siglas de aluguel ou grupos radicais disfarçados de partido, pregando ideologias que já foram sepultadas há décadas.

Nessa onda de que “nenhum partido serve” precisamos agir com parcimônia. As grandes manifestações devem ser pensados e bem orientados e não apenas serem um evento onde “quem quiser reclamar pode vir” pois dessa maneira se banalizam muito e se dá muita margem para atos violentos e autoritários , daqueles que querem “quebrar tudo” por terem a cabeça oca. As ideias dos manifestantes é muito difusa. Por exemplo, chamam todos os políticos de ladrões e esquecem de que a corrupção é endêmica em todos os setores da sociedade.

O protesto por si só serve apenas para gerar um estado de alerta na população antes adormecida. Mas ele se esvai se não ganhar corpo com novas ideias e escolher alguns focos de combate. Nenhum movimento se mantém só com palavras de ordem e jargões contra o Estado. É preciso propor coisas para esse novo estado ou os donos do poder vão apenas se utilizar das manifestações a seu favor, forjando um discurso que se mostre simpático aos manifestantes.

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