Metralhando imagens

Foto: João Pedro Wapler

Foto: João Pedro Wapler

Conversei com meu amigo Alexandre Rossi, ator, cineasta e roteirista. Falamos um pouco sobre a poética da imagem.

Vivemos numa era onde predomina a aparência da imagem em detrimento do conteúdo? Falemos aqui em matéria de arte, de todas elas.

A era é, sem dúvida, de excesso de informação. E grande parte dela é imagética. Penso que, para avaliarmos o conteúdo de uma obra, devemos levar em conta a sua proposta. Não me parece correto, por exemplo, colocarmos no mesmo saco produções artísticas e comerciais.

Ouço muitas críticas às novelas televisivas que desconsideram essa questão. Nas novelas existe narrativa e personagens (mesmo que, muitas vezes, estereotipados). Mas é essencialmente um produto. Um reflexo de demanda popular, tal qual um tênis ou um celular. Feito por empresas que visam lucro (e estão no seu direito) objetivando o público e moldado por esse mesmo público para o seu puro entretenimento. A grande questão é: por que a grande massa é entretida por obras de qualidade artística medíocre? Por que essa fórmula funciona? Acredito que a resposta passa, prioritariamente, pelo sistema educacional precário do Brasil. Se existissem investimentos mais substanciais nessa área e um maior apoio às produções culturais, talvez no futuro a arte é que pudesse se tornar o produto mais rentável.

Sim, a arte também é um produto. Isso é óbvio e muito necessário. A distinção que fiz entre o comercial e o artístico se dá pela essência, pela motivação. Ao longo de minha (não tão longa) jornada como roteirista cinematográfico, acabei me dando conta de que as histórias que mais me satisfaziam eram aquelas às quais eu mais “me emprestava”, com meus medos, vontades, experiências… Percebi que, quando falamos de arte, o conteúdo deve ser movido pelo autor. O público é a consequência. Ele é atingido pela nossa verdade. Entretanto, creio que durante a criação, há sim um momento em que devemos nos preocupar com o espectador, é quando codificamos. Quando o artista constrói a forma, ele deve fornecer as informações necessárias (e não mais do que isso) para que o espectador compreenda o conteúdo. Uma arte que não pode ser decodificada é uma arte perdida. Temos que solucionar essa equação entre forma e conteúdo. Exemplos bem sucedidos disso são Woody Allen, Almodóvar e Tarantino. Cineastas extremamente autorais e, mesmo assim, de grande abrangência popular.

Qual o valor do texto hoje nas produções onde a imagem é tudo? Posso citar o cinema, a tv, o YouTube, só para exemplificar essas mídias de “imagem pura”.

Eu vejo o roteirista como um escritor de imagens. Assim sendo, ele deve compreender o poder e o significado delas dentro do contexto criado. De nada adianta “metralhar” imagens esteticamente belas se isso não é verossímil com a história. O mesmo acontece em relação ao texto falado. Um dos erros mais recorrentes de quem começa a escrever roteiro é o de querer colocar todas as informações na boca das personagens, sem saber que um simples desvio de olhar pode significar mais do que uma página de diálogo.

Por que será que um vídeo de um bebê gargalhando tem mais visualizações no YouTube do que a maioria das web-séries de grande produção? Não é por acaso. Há algo por trás da simples figura do bebê e seu simples ato de sorrir. Há a pureza, a singeleza.

Esse tipo de subtexto deve ser compreendido, para que se evitem falas explicativas que apenas repitam informações já expressas. Toda ação (aí se incluem os diálogos) feita por uma personagem, deve ser originada dela mesma, nunca do autor. O roteirista não deve funcionar como um manipulador de marionetes. Pelo contrário, ele deve criar personagens com vida, para que elas mostrem-lhe o caminho.

O cinema argentino faz isso muito bem. Filmes de produção simples e narrativas bem desenvolvidas, movidas por personagens sólidas, bem apresentadas e com história pregressa. Aliás, a história pré-fílmica das personagens é essencial. É de lá que saem suas gírias, silêncios, gestos… Talvez isso ajude a explicar o sucesso de longas como Tropa de Elite e Cidade de Deus, no Brasil. São personagens construídas de forma quase documental, isso faz com que o público as aceite mais facilmente como verdadeiras

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