Menos certezas e respostas prontas

Foto: João Pedro Wapler

Foto: João Pedro Wapler

Essa semana conversei com o meu amigo Guilherme Dal Sasso. Ele é formado em Comunicação e estudante de Ciências Sociais, dedicando-se mais ao estudo da Antropologia e pesquisando temas relacionados à violência e  instituições totais. Ele e eu moramos nessa cidade chamada Porto Alegre e acabamos pensando sobre ela, inevitavelmente.

A internet é hoje a grande propulsora para grande parte dos movimentos jovens, nos âmbitos culturais e políticos. Eles utilizam largamente as ferramentas digitais para programarem seus encontros em prol de alguma causa. Essa ferramenta facilitadora não tem banalizado muito os movimentos socioculturais de maneira geral? 

Penso que é um pouco problemático usar o termo “banalização” para designar a proliferação desses eventos. Não sei se entendi exatamente a tua pergunta, mas o que vemos recentemente em Porto Alegre, e no país de um modo geral, é uma ofensiva dos setores conservadores da sociedade, contando muitas vezes com o apoio daqueles que há pouco tempo eram parte fundamental das resistências articuladas no campo popular. Não tenho porque omitir nomes, me refiro basicamente ao PT. Desse modo, assistimos a fenômenos variados mas que guardam fortes relações entre si, como a questão dos megaeventos e o projeto desenvolvimentista adotado pelo governo federal. Essas duas questões centrais vão impactar de modos diferentes as diferentes regiões do país, mas basicamente o que vemos no campo é um novo avanço das fronteiras agrícolas, do extrativismo, do desmatamento e de grandes obras com grandes impactos sociais e ambientais, como uma nova onda de colonização desse Brasil profundo. Nas grandes cidades, o que vemos em função do mesmo projeto desenvolvimentista, somado à questão dos grandes eventos, são projetos autoritários de reformas urbanas, privilegiando grandes grupos empresariais, grandes obras (com os mesmos grandes custos ambientais e sociais) articuladas a um ideal higienista de sociedade. Os mais afetados, para ser eufemista, por esses projetos, são os mesmos de sempre: índios, quilombolas, populações ribeirinhas e sem-terra no campo; população de rua, favelados, artistas de rua, camelôs e pobres em geral na cidade.

Desse modo, o que vemos é um descontentamento crescente de uma parcela da sociedade sem que haja uma resistência fortemente articulada, pois como eu disse antes, boa parte desses projetos conta com a liderança ou apoio explícito (ou implícito) de quem possuía hegemonia nas lutas até pouco mais de uma década atrás. Isso tudo, no entanto, não se basta para explicar o que assistimos, pois há muitos outros elementos colocados. Assim, para tentar ser breve, eu acrescentaria um elemento global mais vago, a onda de manifestações que varreu o mundo de 2011 pra cá, com a Primavera Árabe, os Occupy e os Indignados, e um elemento mais local e preciso, que é a gestão do prefeito Fortunati, responsável por políticas que descontentaram fortemente uma parcela da juventude de Porto Alegre. Se não há uma causa única, podemos colocar a gênese desse descontentamento com o cerceamento e fechamento de zonas de lazer e confraternização dessa juventude (p. ex.: Cidade Baixa), relacionado a um fortalecimento da especulação imobiliária nesse mesmo bairro e outros próximos, a privatização de espaços públicos (Araújo Viana, Largo Glênio Peres) e, fundamentalmente, uma reação autoritária a qualquer contestação dessas políticas. O episódio do Tatu e os protestos contra o aumento das passagens de ônibus foram marcos de resistência da juventude contra políticas da prefeitura que contaram com forte repressão policial, e agora temos o caso das árvores do Gasômetro. Todas essas lutas se articulam com um movimento de descontentamento maior com a questão da Copa e seus (negativos) efeitos sociais, e tornou-se uma questão mais ampla: o que está em disputa é um projeto de cidade, de onde a juventude se vê cada vez mais excluída e com suas reivindicações criminalizadas e oprimidas pela força policial. Enfim, dei toda essa volta para chegar a esse ponto: a proliferação de eventos e movimentos pelas redes sociais se deve por ser um dos únicos espaços onde essa juventude pode se articular, discutir e esboçar uma reação, uma resistência e até mesmo uma alternativa a essas questões anteriormente colocadas. Isso se dá em novos e diferentes protestos por diferentes motivos, em ocupações de espaços públicos para promover atividades e/ou protestos e até mesmo para simplesmente beber e confraternizar, tendo todos esses acontecimentos a mesma matriz política e cultural: a disputa material e simbólica de espaços e concepções da cidade.

No caso específico de Porto Alegre. Temos vários protestos organizados via internet. Eles fazem um sucesso tremendo ao reunir muita gente graças à tecnologia de comunicação. As pessoas fazem barulho e chamam a atenção da sociedade para questões cruciais da cidade. Ok, isso é ótimo. Mas não há hoje mais uma vontade de se “reunir pra fazer barulho e protestar” do que propriamente formular soluções a cidade? 

Estou de acordo, em parte. Pegando o que já tínhamos conversado na primeira questão colocada, eu acho que vemos um pequeno grupo de pessoas com vontade de mudar muitas coisas. Ora, isso coloca todo um universo de dificuldades meio óbvio. No entanto, é fundamental dizer e enxergar que existe uma parcela da população exigindo participação política da sociedade nos assuntos que dizem respeito à cidade, e que não se conformam com as formas mortas de representação. Não sei se é papel das pessoas e da população formular soluções para a cidade, como tu colocas. As efervescências sociais são fenômenos fundamentalmente políticos, jamais técnicos. No entanto, são essas mobilizações que abrem espaço para outras técnicas, outras ideias, outra política. É o caso do aumento das passagens: já ouvi jovens conservadores (por mais que eles não se pensem assim) dizerem que deveríamos fazer as contas, apresentar alternativas, apontar matematicamente os abusos na tarifa. Em primeiro lugar, isso seria impossível, visto que não há transparência nos custos e valores que envolvem o transporte público. Mas mais fundamental do que isso é apontar que esses movimentos não tem nem nunca terão um caráter técnico, seu papel é forçar uma outra relação entre Estado e população e entre Estado e mercado. Mesmo assim, há demandas claras sendo feitas: mais transparência, maior participação popular e, condição básica para tudo isso, menos opressão – simbólica por parte da mídia e dos governantes, física por parte da polícia.

Por outro lado, tu colocas uma questão extremamente importante, pois tua pergunta é ambígua. De um lado, é extremamente potente e importante essa “vontade de se reunir para fazer barulho e protestar”, pois recoloca o cidadão como agente de sua cidade, que, ora bolas, é o sentido último da palavra cidadão. De outro – e isso é algo bastante incômodo e confuso para mim e boa parte das pessoas que eu conheço -, há uma clara dificuldade em articular movimentos maiores, que não sejam meras reações e resistências aos desmandos dos governos e da ganância de seus financiadores de campanha. Isso é natural, visto que as experiências que falamos e as referências globais contemporâneas são extremamente recentes. No entanto, considero muito preciso o artigo “Quando a teoria torna a prática delirante”, de Thomas Frank, publicado no Le Monde Diplomatique de janeiro desse ano. Ali ele toca nas dificuldades encontradas pelo Occupy Wall Street, um movimento que rechaçou completamente qualquer forma de estruturação mais sólida, de programa, de demandas, etc. Talvez aquilo que o David Harvey vem chamando de “fetiche da horizontalidade”. Assim, parece que o Occupy valeu por si só, e nesse sentido ele aponta para as satisfações instantâneas de se estar protestando, sem que haja uma implicação verdadeira nos árduos processos de mudança, nas lutas que exigem muito mais que algumas horas de protesto. É nesse sentido que cita o filósofo Slavoj Zizek, em seu aviso para os manifestantes do Occupy Wall Street: “Não se apaixonem por vocês mesmos. Passamos um bom momento aqui, mas, lembrem-se, os carnavais não custam caro. O que conta é o dia seguinte, quando precisamos retomar nossa vida normal. E é quando nos perguntamos: alguma coisa mudou?”. Esse com certeza é o maior desafio da atual geração, que se propõe a levar a cabo mudanças sociais.

Nossa geração é mais despolitizada do que as de décadas passadas? 

Essa pergunta é difícil, pois eu não vivi as décadas passadas. No entanto, esses dias mesmo eu conversava com alguns amigos, sobre como nossa geração olha com ares saudosos para a geração de 68, que por sua vez olhava com o mesmo olhar para os jovens da década de 20, que por sua vez olhava com o mesmo olhar… Enfim, é um pensamento que pode não ser preciso, mas que diz uma verdade: se existe alguma mudança possível no mundo que vivemos (ou na nossa cidade, mesmo), esse momento é agora, não ontem! Acho sempre válido refletir e conversar sobre nossa geração, seja lá isso o que for. É inegável que nossa geração cresceu sobre os escombros do muro de Berlim, e crescemos acreditando (na verdade, sendo tutelados) que não há alternativa, que o socialismo ruiu, que as democracias liberais capitalistas são o fim da história, e que o individualismo é o melhor que cada um pode fazer por si e pela sociedade. Como já dizia minha mãe: “Quer mudar o mundo? Comece ajeitando seu quarto”. Enfim, essa ladainha toda que não cessa de se revelar uma grande falácia. Ora, isso inevitavelmente arrefeceu muito as potências contestadoras e as ideias extremamente básicas de que juntos podemos mais do que isolados. No entanto, as recentes mobilizações mostram que nossa geração começa a romper (em parte) com essa narrativa liberal e reinventar maneiras de se relacionar, consigo próprio e com o mundo. No entanto, e isso eu gostaria de ressaltar, acho sempre problemático o termo “nossa geração”. Se com esse termo nos referimos aos jovens de classe-média meio intelectuais meio de esquerda, pode ser que sejamos mais ou menos politizados, isso eu não sei dizer. Porque a década de 80 no Brasil foi extremamente potente politicamente, e desenhou o país que vemos hoje. Enquanto jovens como eu (nós?) seguiam o script pronto de faculdade-emprego-família-e-filhos, milhares de índios e negros e trabalhadores se mobilizavam para culminar na histórica conquista de direitos materializada na Constituição de 1988, e de onde partimos agora. A década de 1990 também foi permeada por lutas, principalmente na América Latina, e com a participação de muitos jovens. Por isso eu acho problemático o termo “nossa geração”… Enfim, antes de ser uma questão de faixa-etária, é uma questão de classe, cor, gênero… uma infinidade de fatores que se cruzam e nos cruzam e desenham as possibilidades de ação e mudança, dentro dos quais a questão etária é apenas mais uma variante. Pensando hoje, acho importante valorizar o que muitos jovens como nós vêm tentando fazer, de modo que não considero adequado o termo “despolitizado” para enquadrar toda uma juventude que luta, e isso pensando além dos estudantes universitários, englobando a cultura de resistência produzida pela juventude das periferias, movimentos de jovens de grupos minoritários, etc. Talvez o maior problema (e isso pode ser também uma qualidade) seja que nossa geração, além desse histórico recente de desmobilização, seja também a que tenha menos certezas e respostas prontas para os problemas que se apresentam, o que não raro é confundido com “despolitização” por parte de alguns setores da sociedade e até mesmo das esquerdas.

 

 

 

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