Literário por natureza

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Foto: João Pedro Wapler

Meu amigo Robertson Frizero é escritor e tradutor, com mestrado em Teoria da Literatura pela PUCRS. É dramaturgo do grupo DRAN, oficina permanente de dramaturgia sob orientação de Graça Nunes que funciona no Theatro São Pedro. Conversamos um pouco sobre os textos produzidos para serem vistos:

De uma maneira geral, como você vê hoje a influência da literatura brasileira na dramaturgia produzida no Brasil, seja ela para o palco ou tela de computador, de tv ou mesmo de cinema?

Creio que há uma tendência mundial de buscar na literatura tanto temas quanto enredos que sirvam de material para a dramaturgia. O escritor, afinal, levou um grande tempo de elaboração naquelas histórias, o que facilita o trabalho do dramaturgo ou adaptador. Por outro lado, há o delicioso desafio de transpor para o palco ou para a tela as sensações e impressões que a prosa nos traz e que são, em certa medida, quase intraduzíveis para a ação dramática – o que torna algumas obras literárias quase um fetiche para diretores e dramaturgos mundo afora, algo como “quem teve a ousadia de levar o livro X para o teatro?” ou “como ele vai colocar em um filme todas aquelas longas e poéticas descrições do livro?”… Se pensarmos em questões de mercado, há ainda o fato de que, quando eu adapto uma obra literária para a dramaturgia, eu também estou herdando o público leitor que, de um modo ou de outro, foi influenciado ou tocado por aquela obra.

O brasileiro é um povo mais visual, musical, verbal ou literário?
Arrisco-me a dizer que o povo brasileiro é literário por natureza – adoramos contar histórias, isso deve vir da nossa maravilhosa mistura de índios, negros e portugueses, todos povos nos quais a literatura oral é forte e genial. Mas não há como negar que outras expressões artísticas também estão no cotidiano de todo brasileiro. Falta-nos, talvez, mais acesso formal às artes, mais presença da música, do teatro e das artes visuais na vida escolar desde cedo. As artes em geral ainda são vistas no Brasil como algo sempre muito espontâneo e que surge magicamente nos que tem talento – um pouco de educação formal para a arte, como executores ou mesmo espectadores, faria o país explodir culturalmente. Iniciativas como a Escola de Espectadores recém fundada em Porto Alegre, a primeira do Brasil, coordenada pelo meu grande amigo Renato Mendonça e voltada para a formação de público para o teatro, trazem resultados fantásticos e difíceis de mensurar – mais ainda são raras por aqui.
Como você vê a teledramaturgia nacional hoje e as web séries tupiniquins?

O Brasil é um país com uma teledramaturgia única, muito peculiar, que encontrou um caminho próprio e conquistou mercado mesmo no exterior com as telenovelas. É inevitável que essa qualidade chegasse às chamadas web séries, que ganharam também em qualidade técnica. Tanto a televisão quanto a internet estão vendo uma evolução do formato. O maior acesso dos brasileiros às séries de TV estrangeiras, por TV a cabo ou internet, também está fazendo o produtor brasileiro repensar a forma de fazer teledramaturgia no que diz respeito às séries: o formato dado pela Rede Globo de Televisão nas décadas de 1970 e 1980 a esse tipo de produção, que as aproximava das telenovelas, está aos poucos dando lugar ao formato mais esquemático e dinâmico das séries americanas.

O texto dramatúrgico teatral brasileiro empobreceu ou enriqueceu com o tempo? 

O texto teatral no Brasil, infelizmente, desapareceu das prateleiras das livrarias e das bibliotecas escolares. Quase não se houve falar de leitura de textos dramáticos como parte do ensino de língua e literatura. Isso faz com que tenhamos menos leitores de dramaturgia, uma audiência menos qualificada e, a meu ver, menos dramaturgos. Com isso, percebo que há muitos atores e diretores escrevendo roteiros teatrais para uso em seus próprios espetáculos, mas esses textos não chegam à publicação e, por isso, muitas vezes também não são escritos com o cuidado de uma obra que também pode ser lida como literatura. Há pouco teatro sendo publicado no Brasil, mesmo os clássicos estão sendo esquecidos pelas editoras. Creio que é inevitável que o texto teatral brasileiro tenha empobrecido. Mas há esperança: a internet tem feito grupos de dramaturgia surgirem Brasil afora, que usam o meio para divulgar seus textos e contactar outros dramaturgos e grupos de teatro interessados em montar textos novos. Há gente boa escrevendo dramaturgia – falta, talvez, diretores e produtores que queiram descobrir os novos talentos ao invés de se dedicar apenas aos textos consagrados da dramaturgia.

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