Eu voto em quem?

Foto: João Pedro Wapler

 

A maior política estrutural-cultural que poderia ser feita no Brasil seria a do ensino. Mas isso não traz voto, já que os resultados só vêm ao longo dos anos e nossos monarcas querem que suas realizações deem frutos em votos e não em legados futuros. Dentro da nossa demagógica classe política, vagabunda e arraigada, seria um milagre se algum homem público se arriscasse em investir pesadamente em educação ao invés de gastar a maior parte do tempo aparelhando a máquina estatal e cooptando ongs e sindicatos.

Sem reformular os currículos, reformar as escolas e treinar melhor os professores nunca teremos um povo culto e interessado genuinamente em cultura de uma maneira geral. Carecemos de um público significativo para assistir às nossas produções artísticas. Este é o ponto nevrálgico onde repousa toda a fragilidade e a condição marginal do fazer artístico nacional. Estamos produzindo muito para um público acanhado e debilmente inculto.

Nunca vimos tantos novos carros importados rasgando as avenidas brasileiras, nunca foram construídos tantos condomínios residenciais equipados de saunas, piscinas e quadras de tênis, nunca observamos tantos novos restaurantes, salões de beleza e pet shops abrindo as portas em nossos bairros. O Brasil está numa emergência econômica notável e é a quinta economia do mundo. Por outro lado, não somos emergentes na área cultural. Ainda estamos na periferia mundial. Um trabalhador de poucos salários mínimos tem um Ipod mas nunca foi na vida a um museu.

A afirmação da cultura como uma riqueza nacional não pode ser inserida na mente das pessoas à força, através de um puro dirigismo estatal ultrapassado. O desenvolvimento intelectual do sujeito é construído desde os primórdios da infância, através de estímulos variados. Sei que isso não é novidade para ninguém, mas vale ser constantemente lembrado, pois aí está a porta para o aprimoramento intelectual de uma nação. Não se incrementa a cultura de um povo sem o foco na constituição mental do sujeito desde os anos básicos de ensino.

No Brasil o processo é inverso: nossas políticas são forjadas num populismo imediatista e eleitoreiro, que não leva em conta um planejamento estratégico em longo prazo. O ensino escolar público é de péssima qualidade. O que estão fazendo a respeito disso? Criaram-se cotas universitárias para estudantes lamentavelmente despreparados adentrarem na faculdade, numa política de inserção social e não de aprimoramento intelectual acadêmico. O estudante que foi vítima de um sistema de ensino de quinta categoria é jogado dentro uma faculdade. Precisamos clarificar a raiz do problema e não investir em compensações históricas de eficácia duvidosa. A distorção das nossas políticas sociais em geral é que elas são impregnadas de intuitos compensatórios e não de um reflexão que vislumbre as décadas vindouras.

Vejamos, enquanto nossas crianças passam algumas horas por dia em escolas públicas capengas, sem estrutura nem professores capacitados, vemos surgindo, paradoxalmente, novas faculdades e cursos técnicos voltados para as artes. Nunca se viram tantos estudantes de cinema, de moda, de design, de arquitetura, de artes visuais, de teatro, de dança e de literatura.

Paralelamente, não se desenvolve um público receptor para esse fantástico fluxo criativo. O Brasil está numa emergência econômica que propicia um ambiente rico para o empreendedorismo criativo. Ok, isso é ótimo. Mas para quem estamos produzindo nossas obras de arte?

Este processo é lento, por isso o governo deve continuar impulsionando e financiando uma parcela significativa dos artistas a criarem. Uma coisa não exlcui a outra em absoluto. Numa país subdesenvolvido como o nosso, sem o aparato estatal, a arte morre infelizmente. A iniciativa privada tem um papel muito pequeno ainda no que tange ao incentivo da produção cultural. Creio que a situação ideal e redondamente utópica, levando em conta a realidade brasileira, deveria ser a de uma iniciativa privada mais zelosa aos bens culturais como constitutivos de uma nação.

Mas como exigir de empresários e cidadãos comuns algo que eles não estão acostumados a dar? Como pedir para investirem seu dinheiro em algo que não dá retorno financeiro para eles? Veja bem, não defendo aqui uma arte regida pelo mercado e inexoravelmente criada para ele. Apenas ressalto que num país onde os atores sociais valorizam a arte como matéria-bruta constitutiva da sociedade, não são necessárias tantas medidas de incentivo estatal para subsidiar quem cria; o financiamento surge naturalmente. Espero que um dia cheguemos lá. Mas possivelmente já estarei morto quando isso ocorrer.

 

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