Escrever é um ato político

Foto: João Pedro Wapler

Foto: João Pedro Wapler

Pela segunda vez converso aqui com a minha grande amiga e poeta Nathalia Rech. Ela é a minha poeta favorita da nova geração. Nathalia é muito precoce. Quando eu conheci ela há pouco tempo atrás, ela tinha menos de 20 anos e uma profundidade poética deslumbrante. Desde de lá sigo lendo e relendo a moça, e fico cada vez mais encantado. Ela é uma cinéfila aplicada também e tem uma mente inquieta e docemente falante; temos algumas semelhanças de fato e por isso o que ela diz me toca. Apesar de não ter um livro com seu nome nas livrarias, ela é muito mais interessante como escritora do que muitas outras que saem por aí dando entrevistas para revistas cults.

Qual o espaço que os jovens escritores e poetas ocupam hoje no meio literário brasileiro?

Pelas minhas observações o cenário é positivo e colorido. Tem gente fazendo palavra na rua mesmo, através de outros meios, como coletivos, fanzines, megafones, saraus relâmpagos. Falando-se em publicação, há vários editais direcionados para jovens escritores, sites na internet que proporcionam a oportunidade de publicar um conto, um poema. O mais legal da coisa é que espaço é uma medida que se cria na pura vontade. E tem muita gente aqui bufando vontade, seja ela mais academicista ou de ordem prática – do tipo, vou lá e faço, ou aquela que mais gosto, vamos lá, e façamos.  Já perdi a conta dos livretos de poemas que catei nas ruas, sempre uma surpresa boa, fechaduras novas para espiar mais a vida.

Qual a função do feminismo na literatura hoje?

Falar em feminismo como força propulsora para qualquer criação é algo complicado. É difícil qualquer tipo de conjunto de ideias não prejudicar a potência de uma obra. Esse tipo de força política quando não é consequência do escrito e sim prerrogativa afeta algo que dá para ser chamado de pureza talvez. O meu voto é que a linguagem tem que vir primeiro. A linguagem é mais política que a narrativa, que a ideia. E dela, sai todo o resto. Acho que hoje o que seria mais relevante é seguir um tipo de sintoma do momento que seria no caso a discussão de gêneros em si. Desmistificar o masculino, o feminino, mas tudo isso sem levar nada a sério, sem fazer nenhuma defesa ferrenha, quem sabe fazer piada. O importante é confundir. E construir pontes, mesmo que, desertas ou nunca encontradas. Escrever é um ato político por excelência, mas é preciso saber lidar com isso.

Quais autores nacionais podem ser ditos também internacionais?

Acho que a lógica é a seguinte: quando mais sinceridade regional um artista carrega, mais internacionalidade ele possua talvez. Um exemplo é o Marcelino Freire. Quando ele ocupa uma parcela de mundo ignorada em parte dele, ele está cumprindo um certo universalismo, retificando a diversidade.

Qual a década áurea da literatura brasileira?

Acho que a época do grupo Noigandres, com o Décio Pignatari e irmãos de Campos foi uma época muito bonita, especial, e que agregou muito, e fez a língua brasileira ganhar mais peso, mais tudo. Mas como uma deslumbrada pelo momento presente, acho que a fase de agora pode ser minha favorita.

Qual foi o último grande mestre das palavras tupiniquim?

Não concordo muito com esses tipos de eleições, mas, atualmente estou bastante emocionada com Murilo Rubião, Campos de Carvalho.  Mas Guimarães Rosa e Manoel de Barros ainda são os que gritam mais alto. Orides Fontela também está bastante no meu ouvido, me lembrando de ter respeito com as palavras.

Quando você escreve, é antes um hábito ou um desabafo mental?

Acho que a ideia do desabafo virar um hábito é interessante. Você doma um pouca a fera, deixa ela por aí, criar vida própria. Escrever é uma violência contra o tempo, por isso, dedico cada vez mais horas do dia para isso.

Faça um panorama da cena literária de Porto Alegre.

Acho que não sou a pessoa mais indicada para falar disso. Mas o que eu conheço, gosto muito. Vejo muita coisa se criando. Coisa boa mesmo, gente jovem, que tem o que dizer, uma voz distinta, uma visão bem bonita da necessidade da poesia. E o principal é que tem muita gente que não é só da literatura que tá curtindo a ideia. Ano passado deu na telha de fazermos um sarau, apareceu umas 300 pessoas, cheias de textos, referências, desabafos e vontades. Aqui em Porto Alegre, temos os fanzines Desconexões Neurais, as publicações da Coisa Edições, os poemas que saem no Jornal Tabaré. Agora estou organizando com amigos mais um, o Cometa Nuh, que mantém a vontade de ser uma antologia de poemas do pessoal, e envolve também performances, poesia falada. Poderia citar agora mesmo vários nomes que eu aposto que farão ainda muita bagunça nessa tal  “cena literária de Porto Alegre”. São alguns deles: Lorenzo Ganzo, Gustavo Rosa, Rafael Iotti, Páris Cannes e Juergen Cannes. De Porto Alegre não sei, mas da minha cena literária com certeza fazem parte.

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