E agora, José?

Foto: João Pedro Wapler

Foto: João Pedro Wapler

O momento vivido no Brasil hoje em decorrência da série de manifestações que balançaram o país nas últimas semanas é de muito receio e tensão. O movimento oriundo das redes sociais e que resultou na saída de vários cidadãos às ruas gerou mudanças significativamente positivas no panorama político nacional, mas vem acompanhado de uma série de dúvidas. O povo acordou e começou a falar de política. Bravo! Mas será que os políticos eleitos por nós estão interessados em mudanças significativas? Será que a pressão exercida nas ruas vai ecoar nos altos postos do poder onde as decisões são de fato tomadas?

O grito nas ruas é o pontapé inicial para novos paradigmas políticos, mas alguém precisa sentar e organizar todas as mudanças que queremos. Pelo nosso sistema político, quem faz isso são os deputados, senadores, prefeitos, governadores, etc. Os protestos deixaram claro que a maioria da população não acredita mais nesses senhores. Eles vão fazer algo de fato ou só vão habilmente desviar à atenção da população, antes adormecida, com medidas falsamente afirmativas? Essa é a grande questão do momento. E agora, José? O povo acordou, mas os poderosos de colarinho branco precisam sair do estado vegetativo em que vivem e suar um pouco como os cidadãos comuns.

Alguns movimentos políticos das autoridades já foram vistos, mas ficou claro que para remexer na estrutura do poder calcado numa burocracia inerte e em pactos espúrios com financiadores de campanha, o caminho é longo. Outro fator que deixa o futuro mais nebuloso é o fato de que as demandas que brotam das ruas são diversas e por vezes confusas. Uma coisa é baixar as tarifas do transporte coletivo, outra, muito mais complexa, é fazer uma reforma política. O que se viu nas últimas semanas foram medidas tomadas pelos políticos às pressas com medo do aumento das manifestações que estavam ao ponto de parar país. Mas essas resoluções estão longe de satisfazer a massa que saiu da poltrona e foi gritar na calçada. Há uma gritante desconexão entre as ruas e os palácios de governo. Será que os protestos deveriam ser mais focados em algumas questões mais específicas (como o caso do preço da passagem)? Não seria mais fácil dessa maneira estabelecer um diálogo com os mandatários do povo?

Para atender às demandas mais ressaltadas nos protestos, como o combate rigoroso à corrupção da classe política e o investimento maciço em educação, os governos estaduais e municipais, assim como o federal, estão ainda muito lentos para agir. Como o nosso sistema de democracia representativa é baseado no loteamento de cargos públicos e no financiamento espúrio da atividade política, qualquer manobra mais ousada e afirmativa no campo das políticas públicas é barrada prontamente pelo elefante branco da burocracia e dos interesses corporativos.

O país nunca avançará de fato se o povo não for mais consciente. Isso começa na base. Num país onde grande parte das crianças não têm condições dignas de vida não há como promover grandes avanços. Se desde cedo a maioria da população, antes de atingir a maioridade, não tem acesso a hospitais e à educação básica de qualidade, não há um futuro decente em vista. Precisamos começar pelo início, sendo redundante: um país precisa oferecer um ambiente propício para sua população crescer com dignidade e conhecimento.

As instituições políticas brasileiras raramente tocam na raiz dos problemas, tomando decisões populistas para dopar a população e fingir que vivemos nos País das Maravilhas, no El Dorado, no país do futuro. O governo decide gastar bilhões em estádios à serviço da FIFA e não consegue investir em novos hospitais e escolas. Com essa mentalidade de Terceiro Mundo, seremos sempre um país no máximo emergente.

Além de direcionar seus investimentos com um mínimo de decência, nossos governantes deveriam aprender a servir a quem os elegeu com o voto e não a si mesmos. Por que não diminuem os gastos absurdos com a burocracia e os infindáveis cargos, ministérios e secretarias inúteis, regenerando o funcionamento da máquina pública e direcionando melhor as grandes quantias arrecadadas? No Brasil o cidadão comum é uma vítima dos impostos que são arrecadados e extremamente mal geridos.

Dentro de tal sistema não há brecha para reformas que melhorem a qualidade de vida da população, pois a primeira preocupação dos governantes é em manter seus aliados satisfeitos e com seus cargos e benefícios intactos, só depois é que eles pensam em fazer algo pelo sujeito que pagou honestamente os seus impostos.

O exemplo precisa vir de cima e não está vindo.

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