As cidades visíveis

Foto: João Pedro Wapler

Foto: João Pedro Wapler

Mesmo a minha coluna aqui sendo um tanto local – moro em Porto Alegre e escrevo em português bem coloquial – hoje com a internet não existem mais tantas fronteiras para o acesso ao conteúdo escrito na rede mundial de computadores. Um cara em Bangladesh pode ler o que escrevo; sem querer um dia pode cair um texto meu na sua rede. Qualquer texto na internet acaba automaticamente se tornando mundial, mesmo que o seu conteúdo não seja. Sentar no computador e escrever uma crônica para um fanzine é diferente de teclar parágrafos para um www.algumacoisa.

Pode ser até que algum fanzine tenha muito mais leitores que um domínio na net mas quem cria algo para o mundo virtual está sujeito a tudo: de dois leitores por dia a mil leitores por minuto. Isso é complicado. É muito impreciso saber quem nos lê na internet. O público é muito difuso, disperso. Mas há também o leitor que não é do acaso e não entrou no site sem querer não querendo. Vejamos um exemplo, um sujeito de Porto Alegre mora em Paris e quer saber sobre o que acontece aqui, para matar a saudade ou sei lá o quê. Provavelmente vai ler algum blog ou site local. Diminuindo as distâncias, um ser humano de Salvador pode estar pesquisando sobre o fotógrafo francês Guy Bourdin e ler um texto sobre o mestre escrito num site de POA.

O Café é há três anos uma referência local de cultura e eu, como colunista desde a primeira semana do site, não posso excluir minha capital de nascimento de minhas linhas. Mas O Café também é um site que qualquer um pode acessar de qualquer lugar do planeta e seria uma pena limita-lo ao mero bairrismo. Assim, eu e os outros colunistas sabemos que o que escrevemos deve ser algo global, sem querer ser pedante.

Por morar em POA acho essencial não ser um eremita de apartamento e tento fazer parte da minha cidade e não torna-la algo alienado a mim. Muita gente vive num lugar e preocupa-se no máximo com a sua calçada. Mas eu acho difícil não ser um cidadão ativo. Como nasci na capital gaúcha, tenho um carinho por ela. Não me sinto preso a ela, mas sou parte dela.

Poderia escrever aqui textos universais e sem identidade local; é algo mais difícil de ser feito, pois sempre somos impregnados de tecido social e são poucos os que têm cacife para decifrar, como diz o poeta, as almas do mundo. Eu aqui, vez por outra, me aventuro como protótipo de pensador de alguma coisa, mas na maioria das vezes será que não sou apenas um escritor local? Não sou jornalista, nem historiador, assim escrevo e tento fazê-lo da forma mais poética possível. Não estou comprometido com a verdade na maioria das vezes e sim com o prazer das palavras.

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