Adeus, menino

Foto: Beatriz Seibel

Quando eu tinha menos de oito anos, odiava ir para o colégio. Eu só tinha um amigo – ele era asmático e ainda mais excluído que eu. Eu passava a maior parte do tempo conversando com os professores, as secretárias e faxineiras – no recreio cantava para as moças da limpeza algumas músicas do Roberto Carlos. Não lembro disso claramente, mas descobri tal fato lendo umas das avaliações disciplinares da pré-escola a meu respeito, em um papel perdido num dos armários aqui de casa.

Minha mãe era constantemente chamada a dar depoimentos sobre mim para aquelas diretoras de escola, que normalmente são umas chatas. Pior ainda eram as psicólogas escolares. Eu lembro de uma que me xingava por que eu não olhava nos olhos dela. Que ridículo, até hoje não olho direito na cara das pessoas e nem por isso sou um retardado. Minha mãe ouvia que eu era excluído demais e que passava o tempo todo falando sozinho num balanço. Disso eu lembro bem. Adorava fazer isso. Criava histórias e fazia a voz dos personagens, além de cantar. Por um lado era triste, pois passava o tempo todo contando as horas para sair daquele claustro educacional e voltar para meu condomínio, que era o único ambiente social onde eu tinha amigos e me divertia. Com essa turma do eu prédio eu era muito feliz. A gente se fantasiava, fazia teatro e outras loucuras.

Tive várias fases na infância. Primeiro quis ser uma gaúcho tradicionalista e andava o tempo todo pilchado. Não sei da onde tirei essa mania. Ninguém é de CTG na minha família, nem é estancieiro. Mas assumi essa personalidade gauchesca com fervor. Dançava chula nos restaurantes e ouvia discos do Rui Biriva.

Depois assumi a persona de Michael Jackson. Colecionava tudo dele. Dava voltas pela cidade para garimpar livros e discos dele com a minha mãe. Adorava a Madonna também e aquela era a fase dela mais pervertida. Chamava-me à atenção aquela mulher com os peitos de fora, gemendo sem parar. Em seguida aflorou meu amor pelo rock que até hoje persiste. Ganhei num natal uma coletânea dos Beatles do meu pai e uma minibateria onde acompanhava a melodia de “Love me do” e “Help”. Era fascinado pelas capas de discos de vinil que ocupavam as estantes da sala de estar. Até hoje os rostos de Jagger, Paul e John povoam meu imaginário. Naquela época meus primos mais velhos eram fãs de Nirvana, Metallica e Guns. Eu queria imitá-los e comprava os cds de rock do momento, além de forrar as paredes do meu quarto com pôsteres das bandas.

Depois de meu oitavo aniversário comecei a jogar futebol e a torcer apaixonadamente pelo tricolor gaúcho. A partir daí me enturmei com os outros garotos da escola e vivi os anos mais felizes da minha vida, que duraram mais ou menos até o início da puberdade.

Diariamente lembro de mim sozinho naqueles balanços e tento ser tão criativo quanto era. Tenho obsessão em preservar esse olhar de espanto diante do mundo.

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