A revolta existe antes da escola

Foto: João Pedro Wapler

Foto: João Pedro Wapler

 

Conversei com meu amigo poeta Diego Petrarca mais uma vez. Ele mantém o blog literário Lado Dentro  e organiza o evento Entrevista Poética em Porto Alegre.

 

 

As diversas manifestações dos jovens ocorridas no Brasil recentemente irão remexer de que maneira o circuito cultural?

Não associo as manifestações com alguma interferência no circuito cultural, pelo menos não diretamente. O que penso ser possível é que as atividades culturais possam absorver essas manifestações como elemento crítico de modo a fazer com que as intervenções culturais possam ser uma extensão dessas manifestações declaradas sociais.

A internet é uma difusora espetacular de ideias. Com uma facilidade enorme qualquer um divulga seu trabalho artístico. Mas será que a preocupação de grande parte dos artistas hoje é de primeiro aparecer e depois pensar no resto?

 Observo um pouco isso. Existe uma ansiedade em mostrar logo algo motivado pela  facilidade de visibilidade que a internet permite. Apenas o comunicar que irá apresentar algo já é um modo de estar produzindo, isso compromete a maturidade de algum trabalho antecipado pela necessidade de ver algo (falsamente) realizado pelo imediatismo. Mas é o tal negócio, são as coisas que a internet gera de útil ou desagradável. No entanto, observo que a necessidade de produção é visível, considero saudável esse ímpeto, mesmo que caia nessas armadilhas do aparecer rápido, do verniz sem invenção.

Esses jovens que saíram as ruas são fruto de uma geração hiperativa que lê pouco e é um tanto desinformada sobre a história do país ou é uma massa de jovens insatisfeitos e agitadamente criativos? Foi-se o tempo do ativista politizado que lê os grandes pensadores e filósofos e depois sai pra rua?

A indignação independe de engajamento político ou intelectual. Não acho que para sair para rua e mostrar-se rebelde e insatisfeito com tantos absurdos cada vez mais descarados e naturalizados dependa de uma “inteligência” especial, qualificada.  Evidentemente que o modo de por em prática algumas manifestações, de planejar, de argumentar, de saber onde está pisando, precise de informação, leitura, reflexão, como para tudo na vida, mas a consciência de perceber injustiça, desigualdade, não depende necessariamente de precedentes politizados. Os jovens que não têm o hábito da leitura também conseguem perceber absurdos e indignar-se com isso e poder e devem reagir. Podem até correr o risco de cometer graves erros. E, claro, devem ler e informar-se sempre que possível. Se lessem mais, certamente acentuariam aquilo que já faísca indignação. Por outro lado, é mais fácil ler, escrever, pensar, engajar-se com a barriga cheia, com salário decente no fim do mês. A revolta existe antes da escola.

Existe essa obsessão, esse lugar comum, de colocar a leitura como a atividade mais transformadora do mundo, idealizando o ato de ler. Será que a literatura é tão importante assim? Por quê?

É sim, sempre será. Não se deve deixar a leitura como não sendo prioridade pelo fato não estarmos resolvidos com questões mais básicas. Deve-se insistir nisso. E me refiro mais a leitura até do que a literatura. Informação. Noção crítica. Talvez mais a prática real da leitura do que o discurso “ler é importante”. Essa “obsessão” é necessária para não banalizar a necessidade da leitura na formação do sujeito, mas não “leia isso e não aquilo”, sem hierarquia intelectual. Ler, apenas ler, cada qual terá sua experiência e seu desenvolvimento, sua progressão. Se não se lê, se perde. E se perde muito.

 

 

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