“Zatoichi’s Revenge” é um bom cartão de visita para conhecer este herói

Chanbara é um subgênero japonês também conhecido como “filmes de samurais” e, obviamente, muito popular por aquelas bandas, onde se privilegia o duelo de espadas. Alguns personagens se tornaram icônicos neste filão, como O Lobo Solitário e Zatoichi, o espadachim cego.

Zatoichi é um humilde massagista cego que vaga pelas estradas do Japão medieval. Por trás dessa fachada frágil, e graças a sua espada embutida em sua bengala, se esconde um hábil e ágil espadachim que, graças a audição e dedução, dispensa os olhos para dizimar o oponente que tiver de bobeira por perto. Surgido em 1962, em Tales of Zatoichi, de Kenji Misumi, a série cinematográfica duraria até 1989 com Zatoichi: Darkness is his Ally – totalizando, assim, 26 filmes em 27 anos, todos estrelados pelo incansável Shintaro Katsu, que deu toda áurea de dignidade e decência que marcou o personagem. Além do cinema, Zatoichi também virou série de TV, entre 1974 e 1979, com Katsu repetindo na telinha seu mais célebre papel.

Também houveram imitações, como a trilogia feita em Taiwan com um Zatoichi pirata, estrelada por Lung Shen, o sósia chinês de Shintaro Katsu. Takeshhi Kitano homenageou o espadachim cego em Zatoichi (2003). Recentemente tivemos Zatoichi: The Last (2010) com Shingo Katori na pele do herói. Também teve uma versão spaghetti western, com o divertido e politicamente incorreto Blindman, com um pistoleiro cego estrelado por Tony Anthony (o ator de nome mais redundante da história), além de inspirar o filme de ação Fúria Cega, que contava  com Rutger Hauer. Zatoichi também teria inspirado o Demolidor, que surgiu nos quadrinhos da Marvel em 1964, dois anos antes do primeiro filme da longeva série.

Para quem nunca assistiu um único exemplar da série, o ideal seria começar pelo Tales of Zatoichi, mas como são aventuras que podem ser vistas independentemente, um bom cartão de visitas é o décimo filme: Zatoichi’s Revenge (não confundir com Zatoichi’s Vegeance, que é o décimo terceiro da franquia).

Aqui temos nosso herói chegando a uma pequena cidade onde habitava um velho Mestre seu. Para sua surpresa, seu velho amigo não só foi brutalmente assassinado, como a filha deste é mantida prisioneira em um bordel, onde é obrigada a trabalhar, assim como outras mulheres do vilarejo.

Os manda-chuvas da cidade tem um esquema de agiotagem que faz com que os cidadãos se vejam perdidos em dividas e, como seguro, acabam prostituindo as filhas dos credores. O medo da população com essa burguesia local que, sem pestanejar, coloca as filha alheias em um prostíbulo, faz com que nosso herói não possa confiar plenamente em ninguém dali.

Zatoichi encontra uma cidade coberta por uma rede de corrupção e sordidez só comparáveis a da cidade em que o andarilho interpretado por Toshiro Mifune para no filme Yokimbo (1961), obra-prima do chanbara, dirigido por Akira kurosawa (curiosamente os dois heróis apareceriam, com seus respectivo astros nos papeis, em Zatoichi Meets Yojimbo (1970), de Kihacho Okamoto – que no Brasil passou nos cinemas como Encontro de Gigantes.

Como é de se esperar, nosso herói, no fim, não só vinga a morte de seu amigo num duelo com o assassino, como, para deleite de seus fãs, dizima um pequeno exército de homens, diminuindo drasticamente a população masculina local.

A direção de Akira Inoue, em sua estréia na série, é fluida e dá ao público exatamente o que ele quer. A essência de Zatoichi está aqui: o herói íntegro e digno, com sua espada implacável sempre pronta a defender os mais necessitados.

Curioso notar que Por um Punhado de Dólares, de Sergio Leone, foi um remake do supracitado Yojimbo, Sete Homens e um Destino de John Sturges, que, por sua vez, se inspirou em Os Sete Samurais, também de Kurosawa. Ambas as obras originais eram inspiradas no western ocidental, principalmente em John Ford e Howard Hawks. Mas, como num looping canibalistíco sem fim, assim como o filmes de kung fu chineses, o chanbara acabou aglutinando influências do faroeste, principalmente o bastardo italiano. Em Zatoichi’s Revenge temos uma trilha composta com violões que nos remete ao clima dos espaguetes (trilha assinada pelo lendário mestre Akira Ifukube, autor do clássico tema de Godzilla).

Enfim, Zatoichi’s Revenge é um belo filme, tanto para aqueles que nunca viram nada do espadachim cego, quanto para aqueles que já conhecem alguns de seus filmes.

Zatoichi’s Revenge / Zatôichi Nidan-Kiri

(Japão / 1965)

Direção: Akira Inoue

Com: Shintaro Katsu, Norihei Miki, Mikiko Tsubouchi, Takeshi Kato, Fujio Harumoto.

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