“A Última Gargalhada”, uma aula de cinema de Murnau

Friedrich Wilhelm Murnau, um dos gigantes da história do cinema, constrói em A Última Gargalhada (Der Letzte Mann, 1924) uma brilhante crônica social sobre hierarquia, orgulho e decadência.
O literalmente gigante ator Emil Jannings interpreta aqui o veterano porteiro do Atlantic, hotel cinco estrelas de Berlim. Orgulhoso de sua posição, o velho trabalhador desfila, com seu garboso uniforme, como um general, seja nas mediações do hotel, seja no cortiço onde mora, despertando a admiração de seus vizinhos.

the-last-laugh-1
Em um dia de chuva, o porteiro, atingido pela idade, tem dificuldades com a mala de um hóspede e, infelizmente, seus esforços são presenciados pelo gerente do hotel, que resolve transferir o velho funcionário de cargo para algo menos extenuante, onde não exija tanto esforço físico. O porteiro, então, é transferido para atendente de banheiro. Trocando seu uniforme espalhafatoso por um simples avental. Para o velho homem isto, é um rebaixamento, uma humilhação. Sem seu uniforme ele não é mais rei. E quando seus vizinhos do cortiço descobrem, a admiração se transforma em escárnio. O pobre homem chega as raias da loucura.
A narrativa vai mostrando a queda rápida do pobre porteiro até uma reviravolta, num final feliz cínico, na verdade uma imposição dos produtores, feito a contragosto de Murnau e do roteirista Carl Mayer, que idealizavam um final trágico. Este epílogo faceiro contrasta com o resto do filme, quase como que um corpo estranho, mas não o suficiente para ofuscar está bela obra.
Destaque absoluto para os movimentos de câmera. Dispensando o artifício de intertítulos (lembrando que este é um filme mudo), Murnau cria verdadeiros malabarismos visuais para narrar a história, numa série de closes e principalmente travellings. A fotografia ficou a cargo do mítico Karl Freund (O Golem, Metrópolis, Drácula de Tod Browning). Como curiosidade, também vale citar que na produção trabalharam futuros diretores como Edgar G. Ulmer e o grande mestre Alfred Hitchcock.

the-last-laugh-2

Muita gente cita como o grande feito de A Última Gargalhada, o fato de dispensar as cartelas de intertítulos, dando o mérito deste tour-de-force narrativo para F. W. Murnau. Claro que não se pode diminuir o grande talento deste gênio, mas o desprezo às legendas veio graças ao roteirista Carl Mayer. Muita gente não sabe, mas A Última Gargalhada não foi o primeiro filme a não usar legendas explicativas. Existem dois filmes anteriores, ambos roteirizados por Mayer e ambos dirigidos por Lupu Pick: Cacos / Escombros (Scherben, 1921) e A Noite de São Silvestre (Sylvester, 1924). Na verdade A Última Gargalhada era para fechar uma trilogia de Kammerspiel da dobradinha Lupu Pick / Carl Mayer – inclusive o diretor e ator romeno, que fez carreira na Alemanha, Lupu Pick iria interpretar o porteiro -, mas o desentendimento entre os dois fez o roteirista Mayer entregar seu script para Murnau , que chamou Emil Jannings como protagonista.

A Última Gargalhada é um clássico do que se chamou de kammerspiel, filmes caracterizados pelo uso de poucos diálogos e foco na personalidade dos personagens. Hoje o kammerspiel é visto quase como um subgênero dentro do expressionismo alemão. Além de Murnau e Pick, outro diretor que se destacou nesse filão foi G. W. Pabst (Diário de uma Perdida, A Caixa de Pandora).

the-last-laugh-3
Emil Jannings, para variar, está soberbo como o patético porteiro. Seu estado de soberba inicial até sua descida ao inferno da humilhação lembra outro personagem clássico do ator, o Professor Immanuel Rath de O Anjo Azul (1930), de Josef Von Stenberg, onde o personagem é um pedagogo moralista que se reduz a condição de palhaço de cabaré depois de cair nas garras da destruidora Lola Lola (a eterna Marlene Dietrich).
Resumindo, A Última Gargalhada não é apenas uma obra-prima, mas uma aula de cinema feita por um dos maiores gigantes desta arte chamada cinema.

the-last-laugh-posterA Última Gargalhada

(Der Letzte Mann, 1924 / Alemanha)

Direção: F. W. Murnau

Com: Emil Jannings, Maly Delschaft, Max Hiller, Emilie Kurz, Hans Unterkircher, Olaf Storm.

Comments

comments

Related Posts