“Senhoritas em Uniforme” fala sobre lesbianismo e educação na Alemanha pré-nazista

O período da história da Alemanha conhecida como República de Weimar – que vai do fim da Primeira Guerra, em 1919, até a ascensão do nazismo, em 1933 – foi marcada por uma profunda recessão, mas também por um certo liberalismo, que gerou o filme Diferente dos Outros (leia texto sobre ele aqui), a primeira obra do cinema a abordar a questão homossexual. Em 1931, uma outra obra tratava não só sobre lesbianismo, como questionava o rigor da educação em internatos, o filme em questão é Senhoritas em Uniforme (Mädchen in Uniform).

No internato de Frau Oberin (Emilia Unda) as internas recebem uma educação rigorosa, praticamente militar, inspirada na metodologia do sistema de educação prussiana. Todas as alunas têm que ter cabelos curtos ou armados em coques, e usar o uniforme listrado do internato, que coincidentemente e macabramente lembra os uniformes usados pelos judeus nos campos de concentração que ainda haveriam de existir!

Neste ambiente sisudo, entra em cena Manuela Von Meinhards (Hertha Thiele), uma jovem sensível, órfã de mãe, que é entregue à instituição pelas mãos de seu  tio.

Não demora muito para a jovem novata fazer amizades, como com a espevitada Ilse (Ellen Schwanneke). Porém, o que vai marcar mesmo a jovem Manuela é a professora Von Bernburg (Dorothea Wieck), por quem a maioria das aulas são apaixonadas – e com a novata não será diferente.

Depois de uma apresentação teatral no internato, há uma celebração com um ponche alcoólico. Manuela se embebeda e declara seu amor a professora aos quatro ventos, o que desagrada Frau Oberin e trará graves conseqüências.

Quem esperar aqui uma obra caliente, cheia de ousadia, vai quebrar a cara. Tudo é muito pudico, como é de se esperar de um produto da época. Bem da verdade que muitas vezes a questão do lesbianismo fica em segundo plano, dando mais vazão a questão do rigor educacional.

Baseada na peça Gesten und Morgen, de Christa Winsloe, foi um grande sucesso nos teatros alemães em 1930, a adaptação cinematográfica trazia a atriz principal do espetáculo, Hertha Thiele, em sua estréia no cinema. Para a direção do filme, foi trazido a diretora da peça, Leontine Sagan, oriunda da trupe do lendário Max Reinhardt, também estreando nas telas. Como este não tinha experiência cinematográfica, foi chamado o experiente Carl Froelich para a co-direção – os atributos do filme são creditados a ele.

A câmera passeia com desenvoltura pelos corredores do internato, buscando ângulos inusitados que destacam os desenhos geométricos da arquitetura. Também se destaca a boa utilização de som.

Como curiosidade, a dupla principal de atrizes Dorothea Wieck e Hertha Thiele, professora e aluna, respectivamente, voltariam a estrelar um romance lésbico em Anna und Elisabeth (1933) de Frank Wisbar, um dos produtores de Senhoritas em Uniforme. Vale lembrar que as duas atrizes estão ótimas aqui.

Senhoritas em Uniforme chegou a enfrentar problemas em seu lançamento, sendo banido nos cinemas alemães e norte-americanos. Nos EUA, foi liberado em 1933, após a intervenção de Eleanor Roosevelt, esposa do então presidente Franklin Roosevelt, que viu características artísticas relevantes na obra. Já os nazistas tentaram destruir todas as cópias, mas obviamente, e felizmente, falharam.

Interessante notar a racha histórica que houve depois com a ascensão do nazismo, a atriz Hertha Thiele e a diretora, de origem judaica, Leontine Sagan, ambas colegas dos tempos de teatro, buscaram o asilo depois da tomada de Hitler ao poder, enquanto Dorothea Wieck e o outro diretor, Carl Froelich se adequaram ao cinema do Reich.

O filme ganharia ainda duas refilmagens: uma mexicana, chamada Muchachas de Uniforme (1951) e um homônimo alemão, co-produzido com a França, em 1958, estrelado por Lilli Palmer e Romy Schneider.

Filme de importância história, e feito com o talento e competência típicas do cinema alemão da época, se faz presente aqui as sombras do expressionismo. Senhoritas em Uniforme é um filme que merece ser visto.

 

Senhoritas em Uniforme

(Mädchen in Uniform, Alemanha / 1931)

Direção: Leontine Sagan, Carl Froelich

Com: Dorothea Wieck, Hertha Thiele, Emilia Unda, Hedwig Schlichter, Ellen Schwanneke.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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