A sátira “C.S.A.: The Confederate States of America” mostra um sinistra América alternativa

Com o aval de Spike Lee, C.S.A.: The Confederate States of America (2004), do afrodescendente Kevin Willmott, é um filme ácido, irônico, ora cômico, ora chocante, que parte de uma premissa inusitada. O filme é um mockumentary (pseudodocumentário) sobre uma realidade ‘alternativa’, mostrando como seriam os EUA se o sul tivesse ganhado a Guerra Civil norte-americana.

No formato de um programa televisivo de um canal britânico, tipo os documentários do History Channel, descobrimos a história dos ECA, Estados Confederados da América, que é o nome que o país ganhou após a vitória dos sulistas. Abraham Lincoln não acabaria assassinado pelo ator John Wilkes Booth, mas acabaria fugindo para o Canadá onde viveria até os 96 anos. Jefferson Davis assumiria a presidência do país. A nação utilizaria a escravidão até os tempos atuais. Nesse ínterim, os EUA… (opa!) O ECA, apoiaria Hitler – tendo a hilária cena em que o chanceler alemão vai visitar Nova York e o presidente norte-americano tenta convencer o führer a não matar judeus, mas sim escravizá-los.

Os ECA expandiria seu território conquistando a América Latina, onde o México, por exemplo, só teriam direitos os brancos caucasianos. Os mexicanos de pele indígena receberiam o mesmo tratamento do negro escravo.

A maioria dos negros fugiria do país e se exilariam no Canadá, o que cria um conflito gerando a Guerra Fria com os canadenses e não com soviéticos. Entre o Canadá e o ECA haveria um muro que se chamaria cortina de algodão (uma óbvia paródia ao muro de Berlim) Na década de 50, o equivalente ao macartismo não seria uma caça aos comunistas, mas aos abolicionistas! John Kennedy seria morto por suas posições abolicionistas. O país ganharia o embargo do mundo todo, tendo relações apenas com a África do Sul, sua principal fonte de escravos.

Temos também os testes de pureza racial, tal qual a eugenia nazista, que chega a prejudicar a campanha do candidato a presidência John Ambrose Fauntroy V (Larry Peterson, impagável), descendente de uma dinastia de presidentes sulistas.

Como estamos falando em formato de um programa de televisão, o filme é entremeados por comerciais fakes, que são um dos pontos altos da obra, todos de teor inegavelmente racistas. O mais impressionante é que, nos letreiros finais, descobrimos que tais produtos realmente existiram ao longo da história dos EUA, ou seja, na vida real mesmo!

C.S.A.: The Confederate States of America é daquelas obras para se discutir e para fazer pensar. O mais incrível é que por mais mirabolantes que sejam as suposições, em alguns momentos se tem a impressão que os EUA real não difere muito dos ECA retratado.

O diretor Kevin Willmott tem em seu currículo outros filmes onde retrata a temática racial (como The Only Good Indian, Bunker Hill e Destination Planet Negro). Aqui ele não poupa sarcasmo e farpas, inclusive para Lincoln, Kennedy, e claro, David Wark Griffith, em outro momento engraçado da obra. O filme ainda resgata a figura de Harriet Tubman, uma escrava fugida que ajudou os abolicionistas e realizou várias missões, com fugas de escravos. Uma figura heroica para os negros norte-americanos, mas que é praticamente esquecida hoje em dia.

Reza a lenda que várias cena ficaram de fora, como a chegada do homem a lua (com a bandeira dos confederados), um atentado a tiro ao Papa João Paulo II por um batista, a excursão das “cruzadas”, ao Kuwait, Iraque e Afeganistão, entre outras, o que pode ser uma pena. De qualquer forma, a duração do filme é ideal para um material enxuto e que não canse o espectador.

Divertido, caústico, incisivo e demolidor, C.S.A.: The Confederate States of America parte de uma ideia original e bem executada. Uma sátira que merece ser conhecida.

C.S.A.: The Confederate States of America

(EUA, 2004)

Direção: Kevin Willmott

Com: Larry Peterson, Greg Kirsch, Renée Patrick, Molly Graham, William Willmott, Kevin McKinney, Will Averill.

 

 

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