“Santa Claus” um dos mais bizarros filmes natalinos

A produção mexicana Santa Claus (1959) disputa com a produção norte-americana Santa Claus Conquers the Martians o posto de filme mais bizarro envolvendo a figura do Papai Noel e o feriado de natal – obviamente deixando de fora filmes de terror com motivos natalinos (Black Christmas, Natal Sangrento, Christmas Evil, O Dia da Besta, etc) e os vídeos pornôs amadores de sites como PornTube e XVideos (este tinha milhares de opções de vídeo tendo o natal como tema, segundo pesquisa de campo).

A primeira pergunta que fica é: se a película é mexicana e falada no seu espanhol… Então, porque Papai Noel aqui se chama Santa Claus, como nos EUA e Canadá? Simples! No México também se chama Santa Claus (se pronuncia Santa Clos). O narrador na abertura até se refere ao bom velhinho como “Santa Claus, também conhecido como Papai Noel e São Nicolau”.

Bom, o filme inicia com Papai Noel em sua moradia no pólo norte e, ao invés de vários duendes trabalhando exaustivamente, fabricando brinquedos para despachar na Noite Feliz, o velhinho aqui vive é com um bando de crianças do mundo todo. Papai Noel (interpretado pelo veterano José Elías Moreno) vai até um órgão e começa a tocar supostas músicas natalinas em diversos idiomas, cada país ou região é representada por um grupo de crianças. É interessante observar, nessa sequência, os estereótipos; a África é representada por crianças negras vestidas como selvagens (com direito a pedaço de osso enrolado no cabelo!) tocando tambores; a América do Sul, por crianças vestidas de gaúchos, evocando nossos hermanos argentinos e uruguaios, e também por um garoto de chapéu, camisa listrada e pandeiro (seria um carioquinha?) e para completar uma mini Carmem Miranda. Sem falar em ingleses, espanhóis, alemães, italianos, franceses, etc… Toda essa cantoria consome uns dez minutos de encheção de linguiça. Obviamente que lá pelas tantas enche o saco, mas é só depois disso é que realmente começa a trama.

Papai Noel está em seu palácio de gelo, onde tem um aparelho (digno de matar o Big Brother de inveja) de onde monitoram as crianças do mundo. Sua atenção recai sobre Lupita (Lupita Quezadas), uma garotinha pobre que deseja uma boneca de natal, e também um garotinho rico (Antonio Díaz conde Hijo) que, apesar de não lhe faltar nada materialmente, sofre com a ausência dos pais. Destaque para a sala de treinamentos, onde o velhinho se exercita entrando em réplicas de chaminés.

Como se todo esse dramalhão não fosse bizarro demais, não poderia deixar de faltar o vilão. Das profundezas do inferno, Satã (de quem só se escuta a voz em off) convoca um diabo menor, chamado Prieco (José Luis Aguirre Trotsky, sim, o sobrenome é esse mesmo), com uma missão: fazer com as crianças se comportem mal e atrapalhar o natal de Papai Noel.

Nosso herói natalino, antes de partir para sua longa jornada anual de espalhar brinquedos pelo mundo, e tendo que encarar um inimigo diabólico, ganha alguns presentes de seu amigo, o mago Merlin (Armando Arriola), aquele mesmo da Távola Redonda, aqui um tanto caduco. Os apetrechos que Papai Noel ganha do velho feiticeiro é uma flor mágica, que ao cheirá-la faz a pessoa desaparecer, e um saco com pó mágico que faz as pessoas dormirem e sonharem.

O resto é o Papai Noel visitando as casas e o pequeno tentando avacalhar a missão do bom velhinho, rendendo situações de quiproquós e piadas sem graça que cansam, fazendo a duração de 134 minuto parecerem uma eternidade.

 

A direção é de René Cardona, também co-autor do roteiro, baseado em uma ideia sua. O veterano Cardona (1906-1988), que na verdade era de nacionalidade cubana, dirigiu mais de 140 produções, dos mais diversos tipos, desde as comédias românticas (Cartas Marcadas), até o terror exploitation (La Horripilante Bestia Humana / Night of the Bloody Apes), passando por filmes do Santo (Santo em El Tesoro de Drácula, Santo Contra capulina) e o clássico da apelação: Sobreviventes dos Andes, sobre o time de rugby uruguaio que sofreu a um desastre aéreo nos Andes, onde os sobreviventes acabaram cometendo canibalismo para poderem sobreviver. O homem é um marco quando se fala em cinema bagaceiro mexicano. Como se não bastasse, René ainda seria o chefe do clã Cardona, com seu filho, René Cardona Jr (este falecido em 2003). dando continuidade a herança da família, com filmes apelativos como O Massacre da Guiana (sobre o Reverendo Jim Jones e a matança de Jonestown), além de filme com tubarões como Tintorera, Cardona Jr. Também foi responsável pelas sequências aquáticas da famosa cena do tubarão versus zumbi do clássico Zombie de Lucio Fulci. Para concluir a árvore da família ainda tem o neto René cardona III, ator e diretor (fez mais de 70 filmes) que ainda se encontra ativo. Realizou filmes de terror como Vacaciones de Terror, além de Keiko em Peligro, um filme família que conta as aventuras de uma orca alienígena!

Nos EUA o filme foi distribuído pelo produtor K. Gordon Murray, que dublou o narrador do começo do filme. Por problemas parece que na época só foi exibido apenas duas vezes. Hoje, tem seus cultuadores na terra do tio Sam.

No fim da projeção, muitos vão achar esse filme família ruim, medíocre e monótono. Porém os apreciadores de bizarrices cinematográficas poderão se deleitar com as tosquices desse artefato bisonho.

Santa Claus

(México, 1959)

Direção: René Cardona

Com: José Elías Moreno, Cesáreo Quezadas Pulgarcito, José Luis Aguirre Trotsky, Armando Arriola, Lupita Quezadas, Antonio Díaz conde Hijo. 

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