“Rio Cigano”, uma tentativa de mostrar o mundo cigano através do cinema fantástico

Fazer um mergulho onírico no universo do povo cigano, num tom de fábula, é a proposta de Rio Cigano, primeiro longa-metragem da diretora Julia Zakia.

O filme parte da amizade de Kaia e Reka, duas crianças ciganas, que vivem com seu grupo, brincando, ouvindo histórias fantásticas da matriarca do grupo (Leuda Bandeira)… E assim vão levando a vida itinerante, característica marcante dos ciganos.

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A ruptura entre as duas pequenas amigas se dá quando os ciganos acampam nas terras de uma condessa vaidosa que não quer envelhecer (Georgette Fadel), e são expulsos violentamente. Reka acaba ficando para trás e termina como empregada na fazenda (na fase adulta é interpretada pela própria diretora Julia Zakia).

Kaia, já adulta (interpretada também por Georgette, que faz a maléfica condessa) sai em busca da amiga de infância.

Mesclando elementos do folclore e da tradição oral cigana com outras referências, como a história da condessa húngara Erzsébet Bathory, na qual a figura da vilã é claramente baseada (assim como as rainhas más dos contos de fadas também), a diretora Zakia dispensa o tom documental e envereda numa fábula fantástica e surreal. Com citações que vão do western, cinema de horror e conto de fadas. Vale destacar que o filme dispensa demarcações geográficas e temporais, dando assim mais o aspecto fabular universal tão pretendido pela realizadora.

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Ter dispensado o tom documental, tão tentador ao tratar de um povo cuja cultura é mais discriminada do que entendida, é claramente compreendido a partir do fato de que Julia Zakia já tinha feito um curta sobre uma família de ciganos, chamado Tarabatara (2007). Na verdade, foi durante a realização do curta que surgiu a ideia deste longa.

A diretora, que também assina o roteiro e co-produção, mescla no filme as filmagens feitas no sertão de Alagoas e São Paulo, cenas que ela filmou em super-8mm no leste europeu (Sérvia, Eslováquia, Bósnia e Hungria), quando passou um ano lá, estudando os ciganos europeus.

A primeira parte do filme é bem conduzida, mas na segunda metade Zakia perde a mão, pesando sua inexperiência. Por mais que tente emular um cinema, como o de Emir Kusturica, sua tentativa de abstração e alcançar o surreal, mostram um filme esforçado, mas cansativo. Tudo fica mal costurado e irregular, o que é uma pena.

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A bela fotografia, do inglês radicado no Brasil Adrian Cooper, alcança o contraste do colorido das vestimentas e tendas ciganas com o ocre agressivo do sertão.

Mesmo irregular e com tropeços, Rio Cigano consegue despertar empatia, graças ao carinho com que retrata uma das etnias mais marginalizadas do mundo.

Aquém do que poderia render, mesmo assim merece uma conferida, nem que seja pela coragem de seguir os passos pantanosos das fábulas.

Rio Cigano segue em cartaz em alguns cinemas. Em Porto Alegre, pode ser conferido no Cinebancários, de 16 a 24 de fevereiro, com sessões as 15, 17 e 19 horas. O valor da sessão é R$10,00, e estudantes, idosos, bancários sindicalizados e jornalistas sindicalizados pagam R$5,00. O Cinebancários não exibe o filme nas segundas-feiras deste período. 

Rio-Cigano-PosterRio Cigano

(Brasil, 2013)

Direção: Julia Zakia

Com: Georgette Fadel, Leuda Bandeira, Mariana Senne, Jerry Gilli, Acauã Sol, Laura Fajngold, Carlos Simioni, Julia Zakia, Esio Magalhães.

 

 

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