Provocador e polêmico, “Elle” é um Verhoeven autêntico

Envolto numa fumaça de polêmicas, antes mesmo de chegar aos cinemas brasileiros, com acusações de misoginia por causa do modo que retrata um estupro e suas conseqüências. Elle (Ela em francês), a nova proeza do holandês voador Paul Verhoeven em terras francesas, mostra que o diretor está em plena forma, e provocador como sempre foi, aliás.

A personagem central Michèle Leblanc (Isabelle Huppert) é uma mulher de personalidade forte e praticamente sem emoções, diretora de uma empresa de jogos de videogame, ela comanda seu jovem staff de forma tirana, tem uma relação conturbada com a mãe (Judith Magre), com seu filho (Jonas Bloquet), com a nora (Alice Isaaz), com o ex-marido (Charles Berling), além de trair a melhor amiga (Anne Consigny). Tudo isso sem falar na figura do pai, um serial killer que está há décadas preso, depois de ter matado dezenas de pessoas da vizinhança num único dia, e com o auxílio da própria Michèle, então com apenas onze anos de idade.


O filme abre com a protagonista sofrendo o estupro, na verdade é mostrado apenas o fim do ato (a cena será retomada em alguns flashbacks, mais adiante). A empresaria consegue passar pelo trauma sem borrar a maquiagem. Querendo distância da polícia e dos holofotes da mídia, Michèle resolve buscar a identidade do estuprador, não para o óbvio de clichê da vingança, mas estabelecer com seu violador um perigoso jogo sadomasoquista. É aí que brotou a ira de muitas mulheres, acusando o filme de machista e misógino.
Segundo palavras do próprio diretor, o tema do estupro cobre trinta por cento do filme, o resto é mostrando a interação social da protagonista com sua família, colegas de trabalho e com o casal de vizinhos, Patrick (Laurent Lafitte) e a sua esposa carola e católica Rebecca (Virgine Effira). Fica evidente que Michèle não é exatamente uma pessoa ‘normal’, algo compreensível em vista de seu trauma de infância com o pai assassino. Fria e implacável, ela também tem o prazer de estragar os prazeres de quem a rodeia, como quando humilha a mãe no jantar de natal, – levando a senhora ao coma -, ou quando confessa a sua amiga, numa festa da empresa, a sua traição. Sim, Michele é capaz das piores vilanias, dignas de malfeitora de telenovela do horário nobre.


Baseado no livro Oh…, do francês Philippe Djian, Elle, a princípio seria rodado nos EUA. O papel principal foi oferecido para várias atrizes que, por motivo ou outro, não toparam a parada (Nicole Kidman, Diane Lane, Julianne Moore, Cate Blanchett, Kate Winslet, Sharon Stone…). A saída foi retornar à Europa. E foi um grande acerto filmar na França: a grande força de Elle está na geleira chamada Isabelle Huppert, tão poderosa quanto perversa.
Paul Verhoeven, aqui em sua primeira experiência na terra de Voltaire, sempre foi um provocador, desde seus primeiros filmes realizados em sua Holanda natal (O Soldado de Laranja, Louca Paixão, O Quarto Homem). Nem em sua estadia em Hollywood, na sua fase comercial (Robocop, Instinto Selvagem) ele deixou de lado suas perversõezinhas. Muito pelo contrário! Depois de dirigir, em 2000, o fraco O Homem sem Sombra (uma dispensável variação de O Homem Invisível, de H. G. Wells), Paul fica em um hiato de seus anos sem filmar, e já de volta a Holanda solta o ótimo A Espiã, mostrando que ainda tem lenha para queimar. Agora, Elle recoloca o diretor no seu lugar.


Elle é basicamente um thriller dramático, carregado de um inesperado humor negro e de uma crítica social, onde esculacha com convenções sociais, e ainda sobra ironias para a religião católica. Ou seja, um Verhoeven típico, afrontador e amoral. Um dos melhores filmes do ano.

Elle
(2016, França / Alemanha / Bélgica)
Direção: Paul Verhoeven
Com: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte, Anne Consigny, Charles Berling, Virgine Effira, Judith Magre, Christian Berkel, Jonas Bloquet, Alice Isaaz, Vimala Pons.

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