“Perigosamente Harlem” é uma viagem divertida

Interessante adaptação de um clássico do escritor Chester Himes, Perigosamente Harlem (A Rage in Harlem, 1991) também é uma bela homenagem ao cinema blacksploitation, filão de filmes protagonizados por negros na década de 1970.

Temos aqui o carola Jackson (Forest Whitaker, tão perfeito que fica difícil imaginar outro no papel), um rapaz puro, temente a Deus e que trabalha numa agência funerária, enfim, o perfeito boboca para cair nas garras de Imabelle (a belíssima Robin Givens, a eterna ex-sra Mike Tyson), um furacão sensual que invade a vida do pobre mancebo.

Na verdade, Imabelle saiu correndo das grotas do Mississippi para o Harlem, trazendo um baú recheado de ouro a tiracolo, que irá negociar com um gangster local, chamado Easy Money (Danny Glover). O problema é que o mafioso acaba sendo preso pela dupla de tiras durões, Coffin Ed (Stack Pierce) e Grave Digger (George Wallace). Sem dinheiro em espécie e com a negociata do valioso minério em suspenso, a beldade vê no pobre Jackson a chance de descolar um teto enquanto não resolve seu imbróglio.

A cena em que o casal Jackson e Imabelle se conhece é deliciosa. Se passa num baile promovido pelos agentes funerários do Harlem, com uma apresentação do malucão Screamin’ Jay Hawkins!

Nessa altura, aparece no bairro os amigos da moça, lá do Mississippi, e que teriam roubado o ouro de fato – e que ela julgava mortos num tiroteio com a polícia, incluindo o antigo namorado, o brutamontes Slim (Badja Djola). Claro que eles querem o ouro de volta e, por diversão, tirar todas as economias de Jackson, nosso atrapalhado protagonista, que acha que sua amada mulher foi sequestrada por bandidos. Para reaver Amabelle e o ouro, o funcionário de funerária terá que contar com a ajuda de seu irmão Goldy (Gregory Hines) e de Big Kathy, travesti velho dono de uma boate (interpretado pelo veterano Zakes Mokae, impagável).

Lançado em 1957 como For Love of Imabelle e depois relançado como A Rage in Harlem, aproveitando a onda do filme, o livro de Chester Himes foi lançado aqui no Brasil como A maldição do Dinheiro, e marcava a estreia da dupla de policiais Coffin Ed e Grave Digger Jones (ou Ed Caixão e Jones Coveiro, como são chamados por aqui) numa série de romances noir, onde o escritor fazia uma radiografia do Harlem negro e pobre, numa prosa febril, cheia de violência, personagens bizarros e humor negro.

Perigosamente Harlem marca a estréia no cinema de Bill Duke como diretor. Até então com vários trabalhos no cinema, ele é mais lembrado como ator, o negro grandalhão e truculento, coadjuvante de Schwarzenegger nos clássicos brucutus Comando para Matar e Predador. Duke teve a sensibilidade de adaptar o universo de Himes de forma bastante estilizada e particular, mostrando um Harlem bastante clean – o que pode decepcionar os leitores mais xiitas do escritor. Fora isso, está tudo lá: os falsos cegos e pastores de rua, mafiosos, larápios, punguistas e malandros… Toda a escória social, que Himes retratava com carinho. O lado caricatural dos livros é exaltado aqui.

Porém, o grande pecado mesmo de Perigosamente Harlem é reduzir a dupla Coffin Ed e Grave Digger Jones em coadjuvantes atrapalhados, que entram em cena como alívio cômico, parecendo terem saído de um quadro de Os Trapalhões – o que é uma pena e definitivamente não faz jus a criação de Himes. A dupla de policiais já tinha surgido nas telas, no auge do blacksploitation, em dois filmes: Rififi no Harlem (1970) e Deixem a cidade se Vingar (1972), ambos estrelados por Godfrey Cambridge (Grave Digger Jones) e Raymond St. Jacques (Coffin Ed).

De pontos positivos, temos a trilha de Elmer Berstein e Jeff Vincent, um ritmo de ação constante que não faz o filme cair na monotonia em qualquer momento. Sem falar no ótimo elenco.

Como adaptação fica aquém do esperado, ainda assim Perigosamente Harlem é divertido o suficiente para agradar qualquer cinéfilo.

Perigosamente Harlem

(A Rage in Harlem, EUA / 1991)

Direção: Bill Duke

Com: Forest Whitaker, Gregory Hines, Robin Gives, Zakes Mokae, Danny Glover, Badja Djola, John Toles-Bey, Stack Pierce, George Wallace. 

 

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