O intrigante “La Cabina”, curta que inspirou “Black Mirror”

Realizado para a TV espanhola em 1972, o curta clássico La Cabina, uma pequena e angustiante obra-prima, ganhou nova visibilidade depois que o roteirista e produtor Charlie Brooker, o criador do badalado Black Mirror, citou a obra, numa entrevista para o site El País:

“É a história de um sujeito que fica preso numa cabine telefônica. Aquele curta me impressionou muito e me deu muito medo. Não conseguia acreditar que estava vendo algo tão doentio. De certo modo, queria captar e mostrar as sensações que aquilo produziu em mim.”

Palavras do próprio Brooker.

Numa era anterior a dos telefones móveis (leia-se celulares), em uma pequena e movimentada praça que crianças usam diariamente como caminho ao ponto de ônibus, para irem à escola, vemos homens instalando uma nova cabine telefônica.

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Depois de deixar seu filho pegar o ônibus, um homem comum (José Luis López Vázquez) resolve usar o telefone público. Ele constata  que o telefone não funciona, e fica preso dentro da cabine.

Primeiro motivo de piada das crianças e transeuntes, depois a própria população tenta tirar o pobre homem de dentro da cabine, sem sucesso algum.

Como a situação não fosse angustiante o suficiente, um caminhão chega e recolhe a cabine com o homem dentro. Numa viagem a um lugar desconhecido o preso na cabine, descobre que há outras cabines iguais, com pessoas presas, como parte de uma conspiração surreal.

Com poucas falas, La Cabina é quase um filme mudo, de pouco mais de meia hora, e poderia ser um digno episódio da série Twilght Zone.  Com um começo em tom de farsa (a abertura, com os homens montando a cabine na praça, lembram as pegadinhas do Silvio Santos), mas, a medida que avança, vai ficando claustrofóbico e angustiante. Feito durante a ditadura de Franco, o curta é uma metáfora dos tempos franquistas, uma fábula sobre viver na ditadura, e que curiosamente conseguiu escapar aos olhos da censura. É um filme sobre o ataque a liberdade individual. Ao contrário das obsoletas cabines telefônicas, a mensagem dessa obra continua atual, infelizmente. Há também aqueles que procurem analogias deste curta com outro clássico do cinema mexicano: O Anjo Exterminador(1962) de Luis Buñuel.

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O realizador Antonio Mercero, de origem basca, teve seu pai, um chefe de um setor de uma fábrica de pneus, morto a tiros por anarquistas durante a Guerra Civil Espanhola, quando tinha apenas seis meses de idade. Realizando trabalhos para a TV até os dias atuais, seu primeiro longa, Manchas de Sangre em um Coche Nuevo (1975), continuavam com suas simbologias críticas ao franquismo, ao mostrar um burguês que foge de um acidente para não sujar de sangue seu carro novo, logo em seguida, manchas de sangue surgem do nada no interior do carro.

Original, conciso, sem gorduras ou faltas, na medida certa, o curta tem eficiente roteiro escrito a quatro mãos por José Luis Guarci (também co-roteirista do clássico A Força do Diabo, de Jorge Grau, a melhor versão da condessa Bathotry para o cinema) e do próprio diretor Antonio Mercero. O ator José Luis López Vázquez consegue passar todo o desespero de seu personagem sem precisar utilizar muitas linhas de diálogo. A montagem de Javier Morán e a trilha sonora irônica, e que ‘comenta’ maravilhosamente bem as imagens, constroem o clima ideal.

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Claustrofóbico, sarcástico, assustador, e com uma conclusão perturbadora, La Cabina é uma pequena grande obra. E seu tema tanto serve para interpretações políticas quanto kafkanias. E ver o homem preso a sua criação tecnológica é uma metáfora que lembra muito bem o Black Mirror. Para ver e rever.

la-cabina-posterLa Cabina

(Espanha / 1972)

Direção: Antonio Mercero

Com: José Luis Guarci, Augustín González, Goyo Lebrero, Tito Garcia, Carmen Martinez Sierra, Carmen Luján, Maria Vicó.

Filme completo com legendas em inglês:

 

 

 

 

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