O absurdo “Hitler – Dead or Alive” foi uma das inspirações de Tarantino

Atenção: este texto contém spoilers.

Hitler – Dead or Alive (1942) seria mais uma daquelas obscuras produções B, feitas como propaganda nos esforços de guerra, recheada de patriotismo e caída no esquecimento, até que Quentin Tarantino, “o coveiro do cinema” (palavras do saudoso Carlos Reichenbach) citou a película como uma de suas inspirações para Bastardos Inglórios, desenterrando assim esta obra do anonimato.

Se, em Bastardos Inglórios, a referência mais imediata é do filme de guerra italiano Quel Maledetto Treno Blindato, de Enzo G. Castellari, cujo o título em inglês para o mercado exterior (The Inglorious Bastards) foi surrupiado por Tarantino, o roteiro a influência maior é mesmo de Hitler – Dead or Alive, como veremos a seguir.

Para quem gosta de nonsense, o roteiro aqui é um prato farto. Estamos em 1942, e a Segunda guerra Mundial está bombando na Europa. Um milionário (Russell Hicks), cujo irmão foi assassinado na Alemanha pela Gestapo, resolve se vingar contratando três gângsters, chefiados por Steve Maschick (Ward Bond). Eles receberão a recompensa de um milhão de dólares pela cabeça de – ninguém menos – que Adolf Hitler (Bobby Watson, que interpretou o Führer em meia dúzia de produções).

Com a ajuda do aviador Johnny Stevens (Bruce Edwards), os três bandidos, agora convertidos em guerreiros patriotas (o que um milhão de verdinhas não faz, não é?!), se embrenham nas estradas germânicas para botar em prática a missão suicida. Eles acabam presos em Duchau, que aqui é mostrada como uma prisão comum, quando na verdade foi o primeiro campo de concentração – ou seja, a estilização, aqui, faz o lugar parecer um colégio interno, perto da sucursal do inferno que foi na realidade. Nossos heróis conseguem fugir dos guardas idiotas e levam a tiracolo uma moça, que pode ser uma aliada (Dorothy Tree). Depois de alguns quiproquós, nossos protagonistas têm a chance de ouro de colocar as mãos no ditador durante um jantar, aonde irão disfarçados – o que faz lembrar imediatamente de Brad Pitt e seus comandados disfarçados de italianos em Bastardos Inglórios.

Lendo rapidamente a sinopse, parece algum roteiro de Os Três patetas, mas a coisa aqui é levada a sério. E isto é o mais fantástico, já que é tudo tão bizarro que a comicidade brota involuntariamente. E Hitler – Dead or Alive é daqueles filmes em que é difícil se comentar sem dar spoiler, já que boa parte da projeção o filme, por mais ridículo, ainda soa um tanto banal. Porém, nos seus últimos quinze minutos, vira uma loucura: os gângsters colocam a mão em Hitler – o problema é que o alemão, antevendo atentados contra ele, usa sósias em seu lugar, em algumas de suas aparições públicas. Então, como descobrir que o homem capturado é realmente o Führer? Simples! Segundo o roteiro, Hitler teria levado, anos atrás, uma garrafada na parte superior do lábio, em decorrência de uma briga em uma cervejaria e, desde então, o homem usaria seu famoso bigodinho para esconder a cicatriz. Os gângsters então raspam o bigode e confirmam que estão em poder do próprio. Para completar, eles arrancam também a famosa franja sebosa do ditador, em forma de escalpo (que lembra qual filme? Isto mesmo, novamente Bastardos Inglórios!).

Bizarro demais? Não o suficiente. Destituído de suas marcas registradas, o bigode escovinha e a franja pré-emo, Hitler consegue escapar de seus algozes ianques e vai procurar ajuda com seus milicos da SS. Porém, os soldados alemães não o reconhecem, e o homem toma uma série de bordoadas, até finalmente ser abatido a tiros por um nazista.

Concebido como um filme de guerra sério, de propaganda aos aliados, é impossível de assistir Hitler – Dead or Alive como outra coisa senão uma comédia maluca.

O mais incrível é que o filme fez parte de um ciclo de filmes com o ditador alemão no título, assim temos o curta The Devil with Hitler (1942) e o longa A Quadrilha de Hitler (The Hitler Gang, 1944), ambos estrelados por Bobby Watson, além do precursor A Besta de Hitler (Hitler – Beast of Berlin, 1939), segue: A Estranha Morte de Adolf Hitler (The Strange Death of Adolf Hitler, 1943, feito dois anos antes da morte do tirano), Os Filhos de Hitler (Hitler’s Children, 1943), O Capanga de Hitler (Hitler’s Madman, 1943), As Escravas de Hitler (Hitler’s Women / Women in Bondage, 1943), o curta documentário de Don Siegel: Hitler Lives (1945, este sim, produzido após a morte do ditador). Sem falar no clássico do Mestre Fritz Lang, O Homem que Quis Matar Hitler (Man Hunt, 1941), tudo bem, não tem Hitler no título original, mas não poderia deixar de citar essa bela obra aqui.

A direção de Hitler – Dead or Alive ficou a cargo do Nick Grinde, aqui em seu penúltimo trabalho. Artesão que começou no cinema mudo, ele dirigiu mais de sessenta produções, embora detratores digam que este filme aqui é tão vexatório que nem parece que foi feito por um veterano.

Outra curiosidade do filme é ter Ward Bond no papel principal. Da trupe de John Ford, o ator é comumente lembrado como coadjuvante em obras-primas seminais da história do cinema, como Rastros de Ódio, A Mocidade de Lincoln e Paixão dos Fortes, todos esses sob a batuta de seu amigo Ford, sem falar em A Felicidade Não Se Compra, Relíquia Macabra, Onde Começa o Inferno, etc. Ora, Bond tem créditos em mais de duzentas e setenta produções, portanto não é de se espantar que participe de tranqueiras como Hitler – Dead or Alive.

Embora em grande parte de sua duração seja um filme de guerra bobo (e até chato), a loucura que é seus quinze minutos finais compensa a espera. Indicado para fãs de filmes bizarros e obscuros. Serve uma conferida, nem que seja para ver de onde Tarantino “bebe” algumas ideias para suas produções.

Hitler – Dead or Alive

(EUA, 1942)

Direção: Nick Grinde

Com: Ward Bond, Dorothy Tree, Warren Hymer, Paul Fix, Russell Hicks, Bruce Edwards, Felix Basch, Bobby Watson. 

 

 

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