“Miss Violence” choca ao mostrar uma família nada convencional

A grande crise na Grécia, tão alardeada na imprensa nos últimos dias, começou em 2010. As medidas de austeridade do governo criou uma multidão de desempregados e esfomeados. Essa é uma das motivações por trás do pano de Miss Violence, de Alexandros Avranas.2

É quase impossível falar desse filme premiado em festivais sem compará-lo com outro filme grego, o excelente Dente Canino (Kynodontas / Dogtooth), realizado por Yorgos Lanthimos em 2009. Ambos os filmes retratam a decomposição de famílias nada ortodoxas. Ainda que Miss Violence retrate temas mais palpáveis e chocantes, mais próximos da tal vida real, Dentes Caninos marca pelo inusitado, quase surreal, e essa obra está mais atrelada a questão da educação do que socioeconômica. No fim ambos os filmes merecem atenção.

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Aqui temos Angeliki (Chloe Bolota) está comemorando 11 anos, em meio a festa com seus familiares. Ela, com um sorriso no rosto, comete suicídio, atirando-se da janela do apartamento onde mora.

A família convence a polícia de que foi um acidente e a assistência social, apesar das desconfianças, não acha nada de concreto.

Assim como em Dente Canino, vai ser lentamente em conta-gotas, que a história se dá. Ou seja, ao longo do filme, que compreenderemos as relações e segredos da família de Angeliki. E assim como em Dente Canino, temos novamente um filme que gira em torno de um núcleo familiar, e também é mais filme grego que nega ao espectador uma Grécia de cartão-postal. Quase todo filmado em cenários fechados.

O quadro completo da família: o avô Angeliki (Themis Panou), o patriarca e suposto provedor da família, que vive arranjando empregos temporários; a avó complacente e sempre doente (Reni Pittaki); a mãe de Angeliki, Eleni (Eleni Roussinou), que além da filha suicida tem mais dois filhos, a pequena Alkimini (Kalliopi Zontanou) e o garoto Phillippos (Constantinos Athanasiades), todos de pais desconhecidos; e por fim a irmã de Eleni, a adolescente Myrto (Sissy Toumasi).

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Falar sobre a trama pode estragar as surpresas que ela revela, mesmo que essas surpresas não sejam tão surpreendentes assim.

Embora, como afirmei no começo do texto, a crise grega seja o motor da trama, os abusos vistos aqui são, infelizmente, universais.

Interessante é a cena em que vemos uma criança dançar uma música grega de forma “sensual”, um equivalente mediterrâneo de uma criança dançando na boquinha da garrafa, e as nefastas consequências disso.

Filmado com frieza, Miss Violence se revela um show de horrores que vai se desnudando. Sem precisar apelar para artifícios fáceis, como cenas sangrentas ou sexualidade explícita, ele choca o espectador desavisado pelo descaso com a moral.

Mesmo que a maioria das barbáries contidas aqui seja apenas sugerida, ficando fora do foco da câmera, não deixa de ser interessante notar que, fora uma sequência de sexo (filmada friamente e de forma mecânica), as cenas mais fortes graficamente são as cenas em que a adolescente Myrto corta a palma da mão com uma faca, outra ela faz um corte na virilha com um aparelho de barbear, e claro, o suicídio de Angeliki, que abre o filme, todas essas cenas envolvem a tentativa das garotas em se libertarem na condição que foram impostas. O sangue aqui, quando exibido em tela, tem propósitos libertadores, um toque de fina ironia.

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O diretor novato Alexandre Avranas, em seu segundo longa, conduz o roteiro, que também assina como co-autor, com calma e segurança – merecidamente levou o Leão de Prata do Festival de Veneza.

O elenco está ótimo. Destaque para Themis Panou, o patriarca sinistro e excêntrico, e Eleni Roussinou, a mãe solteira da prole, que parece imersa em uma apatia, como se encaminhando para o mesmo estado que sua mãe.

Para variar na Europa, alguns detratores mais conservadores acusaram o filme de “banalizar o mal” ou de que temos que “violentar nossos filhos para salvar o euro”. Ou não entenderam o filme, ou, como desconfio, é pura má vontade com a obra.

Miss Violence não é uma obra de fácil digestão, e poderá impactar os mais impressionáveis. Por isso já merece ser visto.

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(Grécia, 2013)

Direção: Alexandros Avranas

Com: Themis Panou, Eleni Roussinou, Reni Pittaki, Sissy Toumasi, Kalliopi Zontanou, Constantinos Athanasiades, Chloe Bolota.

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