“Maresia” é a corrosão dos mitos de um artista

O limbo de mitificações entre o artista e seus admiradores: este é o norte mais fascinante em Maresia, estréia de Marcos Guttman no terreno arredio dos longas metragens.

Baseado no romance Barco a Seco, de Rubens Figueiredo, ganhador do  Jabuti em 2002, o longa avança em duas frentes narrativas separadas por um hiato de 50 anos. Primeiramente, temos Gaspar Dias (Julio Andrade), um grande fã e pesquisador do pintor Emilio Vega, falecido há 50 anos, que teria – supostamente – se suicidado, morto afogado nas águas do mar, principal tema de suas pinturas, após uma bebedeira.

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Metódico e sisudo, Gaspar passou os últimos dez anos trabalhando na biografia de Vega. Especialista na obra do pintor, o pesquisador é especialista em detectar obras falsas, supostamente atribuídas ao seu ídolo.

Porém, Gaspar, que até então se achava o maior especialista em Vega do mundo, vê suas convicções desmoronarem como um castelo de areia quando conhece Inácio Cabrera (Pietro Bogianchini), um senhor de idade que afirma ter conhecido o pintor. As revelações de Inácio vão minando aos poucos o conhecimento e a autoconfiança de Gaspar.

Paralelamente, a narrativa dá um recuo e mostra o próprio Vega em pessoa (interpretado também por Julio Andrade), de barba grande e cabelos longos e revoltos. Esse pintor amante do mar, praticamente um pré-hippie, vive de forma frugal em um barco precário, passando os dias pintando na beira da praia, trocando sua arte por comida e bebida alcoólica. Também é uma pessoa excêntrica e de comportamento impetuoso. A figura de Vega é claramente inspirada em van Gogh.

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Maresia confronta a idealização de um admirador, por mais sério e isento que seja, com a realidade do artista. Uma situação que ilustra bem é quando se comenta a influência que Vega teria tido do pintor italiano Vicenzo Valente (Roberto Birindelli), quando pelo ‘flashback’ vemos que os dois não se davam bem – muito pelo contrário -, tendo um conflito peculiar em um bar onde Emilio Vega quebra uma garrafa no chão e caminha descalço por cima dos cacos de vidro. No filme não escapa nem a questão do reconhecimento posterior a morte do artista (mais uma vez Vincent van Gogh vem à lembrança).

Interessante notar a diferença aqui entre fã e pintor: Vega é despojado, praticamente um selvagem, enquanto Gaspar, sempre barbeado e de cabelo cortado, é tão asséptico que toma banho de mar com seu inseparável óculos de mergulho. Colocar fã e ídolo interpretados pelo mesmo ator foi uma jogada de mestre, e Julio Andrade está ótimo nas duas frentes, dando um tour de force. Do bom elenco temos ainda participações de Vera Holtz como Angelina, colega de trabalho de Gaspar, e Jonas Bloch. Talvez a única exceção seja para Álamo Facó, como o problemático filho supostamente drogado de Angelina, exagerando nos olhos esbugalhados.

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Com roteiro partindo de uma ideia interessante, Marcos Guttman, que começou em curtas com Numa Beira de Estrada (1991)  e foi assistente de direção de Carla Camuratti em Carlota Joaquina (1995), se saiu bem em sua estréia em longas metragens, levando com segurança as duas narrativas e dando espaços para subjetividades.

Com locações em praias do rio de janeiro e Niterói, a bela fotografia de Alexandre Ramos (Lisbela e o Prisoneiro, de Guel Arraes,O Maior Amor do Mundo, de Carlos Diegues) é um achado, alternando um presente de tons mais escuros e o passado onde predomina tons pasteis e cores mais vivas, sem contar as tomadas das águas cristalinas do mar, a verdadeira grande paixão do fictício pintor retratado aqui.

Maresia se revela uma bela surpresa. Um filme bem interessante e que merece uma conferida.

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(Brasil, 2014)

Direção: Marcos Guttman

Com: Julio Andrade, Pietro Bogianchini, Vera Holtz, Mariana Nunes, Cristina Flores, Roberto Birindelli, Jonas Bloch.

 

Para o pessoal de Porto Alegre, o filme se encontra em cartaz no Cine Bancários, maiores informações pelo site: http://cinebancarios.blogspot.com.br/

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