“Mãe Só Há Uma”, a nova empreitada da festejada Anna Muylaert

Anna Muylaert ataca novamente. Seguindo os passos de seu filme anterior, o ótimo Que Horas Ela Volta?, a diretora e roteirista retoma alguns temas do trabalho anterior, como conflitos familiares e diferenças de classes sociais, acrescido da questão de identidade de gênero. Pena que aqui a receita desandou um pouco.

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Pierre (Naomi Nero), jovem de 17 anos que se relaciona com garotas e garotos, usa esmalte nas unhas e gosta de usar roupas intimas femininas, vive sem problemas com sua família suburbana, composta pela mãe (Dani Nefussi) e a irmã mais nova (Lais Dias). Até que um dia vem o baque: se descobre que Pierre, na verdade, foi roubado da maternidade. Com sua mãe de criação na cadeia, Pierre é entregue a sua família biológica, que o chamam de Felipe, seu verdadeiro nome da batismo.
Esta é sua ‘nova’ família, composta pelo pai Matheus (Matheus Natchergaele, mais contido que de costume), a mãe Glória (novamente interpretada por Dani Nefussi) e o irmão mais novo Joca (Daniel Botelho). Além da situação inusitada de troca de família e de vida, por si só estressante, Felipe, ex-Pierre, vai se deparar a uma realidade classe média que transpira conservadorismo. O conflito está armado.

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Inspirado livremente no caso real do sequestro do garoto Pedrinho, revelado em 2002, esse filme seria o passo adiante de Anna Muylaert após Que Horas Ela Volta?. Porém, faltou algo em Mãe Só Há Uma: carisma.  Da metade para o final abrupto, Pierre/Felipe se reduz a um adolescente birrento. Claro que os pais biológicos não ajudam, o pai é o tipo machão, que não aceita as escolhas do filho e a mãe é super protetora. E se o filme mostra abertamente o rapaz usando roupas íntimas femininas e beijando meninos e meninas (acreditem, ainda existem toupeiras que irão se chocar com essas coisas), por outro lado, a densidade dramática vai se esfarelando. Fico imaginando um argumento desses nas mãos de Pedro Almodóvar: poderia sair um melodrama kitsch escandalosamente maravilhoso! No entanto, quando aparecem os créditos finais, se fica com a sensação de falta, de que o filme não desenvolveu sua história a contento.

Mãe Só Há Uma tem seus pontos altos como o chilique de Matheus no clímax do boliche, a cena em que descobrimos que a irmã de criação de Pierre também fora sequestrada, e tal qual ele, a inadequação da garotinha com a sua família biológica.

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O estreante Naomi Nero no papel principal vem colhendo muitos elogios, misteriosamente – já que lhe falta carisma e empatia. Aqui se sente falta da força de uma Regina Casé.

Mãe Só Há Uma é um bom filme, apesar das irregularidades. Longe do arrebatamento que se esperava, mas ainda assim uma obra que é valida pela discussão da questão de gênero.

Mãe-só-ha-uma-PosterMãe Só Há Uma
(Brasil / 2016)
Direção: Anna Muylaert
Com: Naomi Nero, Daniel Botelho, Daniela Nefussi, Matheus Nachtergaele, Lais Dias.

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