“Kanal” uma simbólica descida ao inferno da guerra

Kanal (1957) é um clássico dirigido por um dos diretores mais importantes da Polônia: Andrzej Wajda (1926-2016), uma descida metafórica ao inferno da guerra.

Estamos em Varsóvia, 1944, com a Segunda Guerra Mundial a pleno vapor. No famoso levante onde a cidade foi invadida pelos nazistas. Em meio às ruínas da cidade, encontramos o pelotão comandado pelo tenente Zadra (Wienczyslaw Glinski). Eles se vêem cercados pelas tropas alemãs, que podem atacar e destroçá-los a qualquer momento. O grupo de resistentes, que além de soldados incluem alguns civis, como a bela Stokrotka (Teresa Izewska), que é a amante do soldado Jacek (Tadeusz Janczar), e um músico e compositor chamado Michal (Vladek Sheybal, que depois ficaria famoso como o vilão Kronsteeen em Moscou Contra 007).

Para tentar escapar do massacre eminente, nossos combalidos soldados só têm uma solução: fugir pelos esgotos da cidade, até alcançar uma área livre da ocupação nazista. Claro que a empreitada resulta em mortes e sofrimento. Embora os alemães não desçam até os esgotos, eles fazem pressão jogando bombas de gás e patrulhando as saídas, fuzilando quem aparecer pela frente. Isto como se não bastasse o próprio esgoto em si, com suas vias labirínticas, fedor e escuridão. Esse clima de trevas, claustrofóbico e insalubre fará com que nossos protagonistas, que encontrarão outros fugitivos desgraçados pelos canais subterrâneos, cheguem as raias da loucura. Uma autêntica descida ao Inferno de Dante, como cita o compositor Michal a certa altura.

Baseado no conto homônimo de Jerzy Stefan Stawinski, ele próprio um combatente da resistência, e que teria usado os esgotos da cidade, que os personagens aqui foram baseados em pessoas reais que ele conheceu durante a Guerra. Enquanto Andrzej Wajda, que também combateu contra os nazistas naquele período (e chegou a ser, mais tarde, senqador na Polônia), mostra aqui, em seu segundo longa, uma direção inspirada. Com um começo quase documental, na medida em que a jornada pelos esgotos avança, o filme vai tomando elementos que nos remetem ao surrealismo e ao expressionismo alemão (destaque para a fotografia de Jerzy Lipman) com cenas dignas do cinema de horror. O clímax do filme fica por conta da cena em que um resistente tenta catar as granadas penduradas em uma obstrução feita pelos nazistas em uma das saídas do esgoto. Outra cena marcante é quando vemos Michal, enlouquecido, caminhando a esmo pelos canais do esgoto tocando uma flauta.

Em sua estréia em Moscou, 1957, Kanal foi recebido com frieza pela crítica polonesa, que esperava um retrato heróico da resistência anti-nazista, e não um quadro pessimista e fatalista. Porém, a consideração ao filme mudou depois da aclamação da obra no Festival de Cannes. Importante salientar que o filme foi lançado quatro anos após a morte de Stalin, e a Polônia, então sobre influência soviética, parece ter dado uma relaxada na censura a Kanal, já que aqui não há nenhuma exaltação a participação soviética no conflito de Varsóvia ou mesmo propaganda comunista, tão comum as produções da Cortina de Ferro da época.  O filme acabou sendo lançado em vários países, inclusive no Brasil, e fez um sucesso estrondoso.

O elenco é maravilhoso, principalmente a estreante Teresa Izewska, que dá a sua personagem uma força incrível, a atriz faria ainda mais nove filmes e morreria prematuramente em 1982, aos 48 anos. Reza a lenda que as filmagens realizadas durante semanas em estúdio com os atores, mergulhados em banheiras cheias de água, tendo que tomar vodca após os takes para evitar o risco de pegar pneumonia.

 

Kanal é o segundo filme da chamada ‘trilogia da guerra’ de Wadja, os outros são Geração, sua estréia em longas, e Cinzas e Diamantes.

Amargo, irônico e impactante. Um grande filme.

Kanal

(Polônia / 1957)

Direção: Andrzej Wajda

Com: Teresa Izewska, Tadeusz Janczar, Wienczyslaw Glinski, Tadeusz Gwiazdowski,Stanislaw Mikulski, Vladek Sheybal, Teresa Berezowska.

 

 

 

 

 

 

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