“Invocação do Mal 2” em ritmo de trem fantasma

Eis a inevitável continuação do hit de 2013. O intrépido casal de caçadores de assombrações Ed e Lorraine Warren (Patrick Wilson e Vera Farmiga) está de volta, enfrentando forças malignas em defesa da família e dos valores cristãos. E como não se mexe em time que está ganhando, temos James Wan na direção novamente, para um blockbuster instantâneo.

Estamos em 1977, seis anos após os acontecimentos do filme anterior. Desta vez, nosso casal de heróis vai parar na Inglaterra, mais exatamente em Enfield, subúrbio de Londres. Investigar os estranhos acontecimentos na casa de Peggy Hodgson (Frances O’Connor), uma inglesa divorciada e pobre, que mora com os quatro filhos numa casa velha caindo aos pedaços, com um porão eternamente inundado – a ponto de parecer que a residência foi construída em cima do rio Tâmisa.  A residência é assombrada pelo fantasma de um antigo morador. A principal vítima das atividades paranormais da casa é Janet (Madison Wolfe), uma das filhas de Peggy, que parece sofrer de possessão demoníaca. Tudo isso depois de uma providencial brincadeira com o tabuleiro de ouija, é claro.

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Junto com os Warrens há os pesquisadores Maurice Grosse (Simon McBurney), membro da  Society for Psychical Research, e a cética Anita Gregory (Franka Potente, quem se lembra dela dos tempos de Corra, Lola Corra vai tomar um susto).

Entre acusações de fraude da família Hodgson e estranhos acontecimentos – onde Janet mostra que pode, inclusive, se teletransportar pela casa – , Lorraine descobre que o caso tem ligações com visões que ela andava tendo a algum tempo, inclusive de uma freira sinistra. Na verdade o alvo da presença demoníaca é a médium, sra. Warren.

O roteiro escrito a dez mãos, incluindo as de James Wan, toma toneladas de liberdade. O caso, que ficou conhecido como O Caso Einfeld ou O Poltergeist de Enfield, foi o caso mais longo de assombração estudado, e foi de tema de documentários telefilmes e uma minissérie. Os Warren, que na vida real tem lá sua fama de picaretas, “ficaram hospedados por apenas um dia e fabricaram suas próprias evidências paranormais, simplesmente para fazer dinheiro com isso!” segundo Guy Lyon Plaifair, também membro do Society for Psychical Research. O interessante notar é que quem realmente acompanhou o caso de perto, Maurice Grosse, aqui é mostrado como um tolo, um imbecil.

É digno de nota perceber que o filme começa com a atuação do Warren em Amityville, como prólogo – o que, de cara, queima o cartucho do diretor para fazer um filme apenas sobre o caso. Interessante, também, notar que, nessa abertura, durante a sessão espírita, vimos Lorraine caminhar pelos eventos, como se fosse uma experiência extracorpórea. Obviamente que não é, porém lembra bastante outra franquia de James Wan, Sobrenatural (Insidious). Aliás, Invocação do Mal 2, embora siga rigorosamente a mesma fórmula do seu antecessor, está mais para Sobrenatural do que para o primeiro filme. Wan assume de vez  aqui o timming de trem fantasma de parque de diversões, com um ritmo movimentado e sustos a rodo, bem ao agrado do público. E, assim como no primeiro filme, um final em que o casal enfrenta as forças do mal com toda pirotecnia, barulho e estardalhaço que tem direito.

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Em relação a algumas figuras sinistras mostradas aqui, a freira tem algumas aparições sinistras, como aquela em vimos ela no fim de um corredor – no entanto, parafraseando Spielberg se referindo ao peixe mecânico de seu clássico Tubarão (1975): “se ele aparecesse mais de oito segundos em cena, ele deixaria de ser assustador para ser ridículo”. Ou seja, se estende demais a aparição da freira em alguns momentos, onde notamos que, na verdade, ela lembra o cantor Marilyn Manson, o que acaba diluindo o impacto – e os efeitos de CGI ajudam mais nesse quesito. Já a criatura que assombra o garoto Billy Hodgson (Benjamin Haigh), o Crooked Man, que, embora não seja um efeito computadorizado e nem uma animação em stop-motion, mas o ator esquelético Javier Botet (que fazia a Menina Medeiros na série [Rec]), é prejudicado pelo design, parece uma criatura de um filme do Tim Burton perdida ali.

Assim como no primeiro filme, aqui se faz uso da trilha. Ao apresentar para o público a Londres de 1977, temos ao fundo o clássico “London Calling” – bastante óbvio, mas é sempre bom ouvir The Clash. Já na sequência em que os investigadores paranormais deixam a casa, convictos de que tudo é uma farsa, temos a clássica mela-cueca “I Started a Joke” do Bee Gees… Aí fica difícil conter o riso.

E, assim como no primeiro, Wan apresenta a casa da família ao público num travelling. Aliás, é notável o uso com desenvoltura de steadycam, criando movimentos de câmera muito interessantes. E continuando as semelhanças com o filme anterior, temos fotos dos verdadeiros envolvidos nos créditos, embalados pela trilha tétrica de Joseph Bishara, o que garante um clima final arrepiante.

Do elenco, Vera Farmiga está mais melosa, e Patrick Wilson ainda mais canastrão – inclusive numa cena em que imita Elvis, fazendo uma interpretação caricata de “Can’t Help Falling In Love”.

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Invocação do mal 2 tem ritmo, apesar da longa duração de mais de duas horas, sustos e cenas arrepiantes. Agora , por outro lado, tem algumas sequências que abusaram na dose de açúcar, do pieguismo. Óbvio que um filme sobre possessão tenha um discurso cristão, afinal o diabo bíblico faz parte da mitologia cristã; é um convenção do subgênero, tanto quanto a cruz, o alho e a estaca para os filmes de vampiros. Porém, a apologia ao catolicismo e a instituição familiar, com um discurso ainda mais insistente que no primeiro, chega a torrar um pouco a paciência… Embora a cena do quarto cheio de crucifixos que ficam de cabeça para baixo guiado por uma força invisível é tão boa que já nasceu clássica.

Na verdade a primeira metade do primeiro Invocação do Mal é superior ao conjunto dos dois filmes.

Ao contrário do que afirmam muitas almas por aí, Invocação do Mal 2 não é superior  ao primeiro. James Wan acerta, assim como no primeiro filme, em dar aquilo que o público espera de um filme de terror pipoca. Sim, apesar de alguns reveses, é uma obra satisfatória.

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(The Conjuring 2, EUA/2016)

Direção: James Wan

Com: Patrick Wilson, Vera Farmiga, Madison Wolfe, Frances O’Connor, Lauren Esposito, Benjamin Haigh, Patrick McAuley, Simon McBurney, Franka Potente, Javier Botet.

 

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