“High-Rise”, a interessante alegoria anticapitalista de Ben Wheatley

O diretor britânico Ben Wheatley tem em seu currículo o ótimo Kill List (2011), um filme que parte de uma trama policial, mas que, ao longo da narrativa, vai se metamorfoseando em uma história de horror. Há também a boa comédia de humor negro Turistas (Sightseers, 2012). Em contrapartida, o diretor também cometeu A Field in England (2013), uma chatice alegórica que parece não levar o espectador a lugar algum – porém tem seus defensores ferrenhos. O último trabalho de Wheatley é o interessante High-Rise, a ode anticapitalista deste iconoclasta inglês.

Baseado no livro de J. G. Ballard (autor de Crash e Império do sol), lançado originalmente em 1975. High-Rise (arranha-céu, em bom português) tem como protagonista o médico patologista, Dr. Laing (Tom Hiddleston, o eterno vilão Loki de Thor e Os Vingadores), que é o novo morador de um condomínio – na verdade, um arranha-céu de design futurista e arrojado.

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Aos poucos, Laing vai conhecendo seus vizinhos: Charlotte (Siena Miller), que mora no andar acima ao do protagonista – acaba se relacionando com ele-; o documentarista Wilder (Luke Evans); e sua esposa Helen (Elisabeth Moss), grávida de mais um filho de uma prole numerosa. O ‘ápice social’ de Laing, por assim dizer, é quando conhece o engenheiro (Jeremy Irons), o dono e projetor do condomínio, que habita a cobertura o prédio, no 40° andar.

Expostos os personagens excêntricos que habitam o prédio, aos poucos assistimos esse microcosmo social se dissolvendo, principalmente depois do suicídio de um dos moradores. Os condôminos começam a lutar entre si. Essa guerra interna dentro do arranha-céu o reduz a um cenário pós-apocalipse, e as personagens, a principio tão bem colocadas socialmente, se reduzem a comportamentos animalescos.

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Ben Wheatley transforma seus burgueses em bestas-feras, violentos e amorais. A alegoria de um prédio como sinal de status social através de seus andares é uma metáfora muito evidente. O elevador, o mecanismo de movimentação nas escalas sociais, aqui é mostrado de forma curiosa, com seu interior espelhado, fragmentando a imagem de seus usuários criando um efeito de mise en abyme muito curioso.

Apesar de se falar aqui em status e ascensão social, engana-se quem ache que High-Rise é sobre luta de classes, já que todos os moradores do condomínio desfrutam de uma boa condição social – senão não morariam lá, obviamente. O filme é sobre a burguesia e sua insanidade e autodestruição. Por esse prisma, o trabalho de Ben Wheatley se alinha com o do mestre Luis Buñuel, principalmente em filmes como L’Age d’Or, O Anjo Exterminador e O Discreto Charme da Burguesia.

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Ben Wheatley, assim como seus personagens, também se excede um pouco aqui na loucura. Claramente, se deslumbra com as opções dementes que a trama proporciona, e acaba se perdendo em abstrações. Nada que macule muito o filme, pelo contrário: só reforça o tom de insanidade, surrealismo e alegoria da obra.

O elenco está excelente, assim como os aspectos técnicos, fotografia, som, direção de arte.

Embora o filme não especifique a época, o visual do arranha-céu é highteh, porém há varias coisas que aqui remetem aos anos 70, época de lançamento do livro. Seja no visual dos personagens (principalmente Wilder), na falta de computadores, iphones, celulares em cena (embora o supermercado, que fica no 15° andar, tenha seus produtos com códigos de barras), e o mais setentista de tudo: personagens fumando seus cigarros tranquilos para tudo que é lado.

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Adaptar o livro de J. G. Ballard era um sonho antigo do produtor Jeremy Thomas, que chegou a ter os direitos de filmagem ainda nos anos setenta e tinha planos de ter na cadeira de diretor Nicholas Roeg (Inverno de Sangue em Veneza).

Uma curiosidade é a trilha sonora, com uma versão bem particular da banda Portishead para o clássico pop “S.O.S.” do ABBA.

High-Rise é um ótimo filme, embora possa não agradar a todos os gostos. Porém, em tempos caretas e reacionários, uma obra de teor iconoclasta é mais do que bem vinda.

High-Rise-PosterHigh-Rise

(Reino Unido/Bélgica, 2015)

Direção: Ben Wheatley

Com: Tom Hiddleston, Jeremy Irons, Sienna Miller, Luke Evans, Elisabeth Moss.

 

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