“Hardcore: Missão Extrema”, a proeza de transformar ação contínua em monotonia

A primeira coisa que passa na cabeça após assistir a Hardcore: Missão Extrema (Hardcore: Henry, EUA/Rússia, 2015) é a pergunta: como ninguém convenceu o diretor Ilya Naishuller de que fazer um filme de ação inteiro em primeira pessoa era uma má idéia? O mais impressionante é descobrir que o filme foi financiado na pós-produção por crowdfunding (termo moderno para a antiga ‘vaquinha’), ou seja, não só não avisaram o vivente da roubada, como foi incentivado! Céus!

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Aqui temos um fiapo de história: o protagonista é um cadáver redivivo como um ciborgue. Ele desperta num laboratório, onde é informado por uma bela cientista (Haley Bennett) que seu nome é Henry, e que ele, em vida, era casado para a própria cientista. Desprovido de memória e de fala, nosso protagonista robótico não tem muito tempo para relaxar, pois o laboratório é invadido pelo exército de Akan (Danila Kozlovsky), vilão com poderes telecinéticos e que lidera uma tropa de soldados.

Henry foge com a esposa do laboratório, que fica na verdade dentro de uma nave – o que fornece tomadas de queda livre. Em meio a correrias, Henry perde a esposa de vista, que ficou nas mãos dos vilões. Em contrapartida, ele é ajudado por um bando de clones, todos chamados genericamente de Jimmy (e todos interpretados por Sharlto Copley), que vão lhe ajudando a enfrentar os vilões pelas ruas de Moscou.

O filme é todo visto pelos olhos de Henry que é interpretado por dez dublês e cinegrafistas diferentes, incluindo o ator Andrei Dementiev e o próprio diretor, Ilya Naishuller – que provavelmente achou que fazer um filme inteiro dessa maneira seria radical e experimental, com ação contínua de tirar o fôlego, quando, na verdade, o resultado é pra lá de cansativo. Se fosse um curta de no máximo 15 minutos, talvez o resultado fosse mais efetivo, o maior problema é que temos de encarar mais de uma hora e meia, o que é dose pra cavalo. Depois de vinte minutos, o espectador já soltou alguns bocejos.

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Quase todo filmado por GoPro hero 3, aquelas câmeras muito usadas por ciclistas e adeptos de esportes radicais; ou seja, quase todo o filme é em imagens de grande angular e olho de peixe.

Ao abusar da câmera em primeira pessoa, o popular POV (Point of View), ou se preferir: câmera subjetiva (alguém ainda usa esse termo?), Hardcore: Henry tenta se apropriar da linguagem de jogos, só que um detalhe que torna a obra falha: no videogame funciona graças a interação do usuário. O filme barra essa interação, e é essa barreira que fada o projeto ao fracasso de ser o grande filme de ação que pretendia ser. É como você ir à casa de um amigo e ficar assistindo ele jogar, sem participar nenhuma vez. Mais monótono, impossível.

Para não dizer que não falou-se das flores, esta não é o primeiro filme em primeira pessoa. O diretor Franck Khalfoun utilizou o recurso no interessante remake de Maniac (2012), o resultado foi eficaz por ter algo que faltou em Hardcore: Henry, contar uma história. 

O filme marca a estréia de Ilya Naishuller em longa metragens. Ele é vocalista da banda de rock russa Biting Elbows, onde dirigia os videoclipes, inclusive fazendo experimentos do POV no clipe de “Bad Motherfucker” em 2013, videoclipe que viralizou na internet na época. Talvez o sucesso do vídeo o tenha animado a fazer o longa, o problema é que o trabalho de 2013 não tinha nem cinco minutos…

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O roteiro do próprio diretor, que depois contou com a ajuda do norte-americano Will Stewart, é problemático. O fiapo de história se perde ao ritmo alucinado e a reviravolta final não convence… Isto sem falar no vilão Akan, que tem inexplicáveis poderes paranormais, e simplesmente não funciona, chegando a irritar.

A ideia de tornar o personagem num androide é interessante pelo fato de assim ele ter maior resistência, fôlego e força que um humano, e partir para a correria incessante. Sendo assim, Henry corre, cai de um avião em queda livre, anda de moto, se pendura em camburões em movimento durante perseguições, cai de pontes, cai de cavalo, etc.. Só faltou uma sequência aquática mesmo.

E verdade seja dita: algumas sequências são realmente boas. Porém, ao enclausurar a narrativa na perspectiva do personagem, muitas cenas de ação se tornam truncadas e confusas.

O filme tem diversas referências cinematográficas, do noir A Dama do Lago e o western Sete Homens e um Destino até o recente Kill List. Ainda há citações a Laranja Mecânica, Matrix, Adrenalina e o universo de Quentin Tarantino; não falta aqui nem a participação do ator Tim Roth. Há uma brincadeira com Hitchcock, quando o cientista, que cria clones para Akan, alega que apenas não consegue dar motivação aos seus humanoides, o que o vilão responde: “A motivação é o seu cheque de pagamento”. Pena que muita gente perde essa piada.

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Embora a trilha sonora seja ótima, com The Stranglers, The Sonics, Queen, The Temptations, entre outros, não é o suficiente para salvar o espectador do tédio.

Hardcore: Henry é uma ideia que tinha tudo para dar errado, e deu. Salvam-se algumas sequências aqui e ali, mas o resultado como um todo é cansativo. Só espero que não tenha muitas continuações e nem que vire uma tendência como os famigerados found footage. Atolou-se na pretensão.

Hardcore-Henry-PosterHardcore: Missão Extrema

(Hardcore: Henry, EUA/Rússia, 2015)

Direção: Ilya Naishuller

Com: Ilya Naishuller, Andrei Dementiev, Sharlto Copley, Haley Bennett, Danila Kozlovsky, Tim Roth.

 

 

 

 

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