“Halloween – A Noite do Terror”, a cartase de horror de John Carpenter

Esqueça as sequências, o remake falhado de Rob Zombie, e sua igualmente fracassada continuação: Vamos tratar do primeiro Halloween – A Noite do Terror, clássico feito com baixo orçamento e muita inspiração por um novato que estava no seu terceiro longa, um tal John Carpenter.

Realizado em 1978, com pouco dinheiro, uma trilha minimalista – composta em poucos dias pelo próprio diretor (provavelmente para economizar na produção, não contratando músicos) – e um roteiro, propositalmente, cheio de lacunas, mas sem perder a pretensão de vista: assustar o espectador. E que intento bem alcançado! Halloween, mesmo quase 40 anos depois, ainda funciona plenamente, grudando a platéia na poltrona, no nível de roer as unhas.

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A trama é conhecida: Na noite de Halloween de 1963, na fictícia cidade de Haddonfield, Illinois, Michael Myers, então uma criança de seis anos, resolve matar a irmã mais velha a facadas. Quinze anos depois, em uma véspera de Halloween, o precoce assassino foge de um hospital psiquiátrico e retorna à sua cidade natal para uma onda de assassinatos.

Dr. Loomis (Donald Pleasence), doutor que cuidava do próprio Myers, ciente da periculosidade do fugitivo, começa uma caçada ao sociopata.

Myers elege como suas vítimas de Halloween a babá Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) e seus amigos.

Praticamente uma homenagem a Psicose, de Hitchcock, Halloween coloca umas referências interessantes: Sam Loomis, o psiquiatra ‘herói’, tem o mesmo nome do personagem interpretado por John Galvin, que fazia o amante de Marion Crane, a mulher morta assassinada no chuveiro no clássico de 1960; Jamie Lee Curtis, em sua estréia no cinema, é filha de Tony Curtis e Janet Leigh, a Marion Crane em pessoa! Além de ótima brincadeira, Carpenter dá aqui uma nova dimensão ao termo meritocracia.

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Além da obra-prima do mestre do suspense, Halloween também faz referências a outros filmes, como Black Christmas, de Blob Clark (ler sobre ele aqui). Os tons pastéis da fotografia, simulando o clima outonal, foi inspirado em Chinatown de Roman Polanski. Sem falar nos filmes de terror italianos, tão cultuados pelo diretor.

Na verdade, o roteiro original se chamaria The Baby Sitter Murders, e se passava ao longo de vários dias. Graças a dureza da produção, foi resolvido condensar ação numa noite só, para economizar locações, vestiários etc (isto levando em conta que as roupas usadas pelos personagens eram dos próprios atores). Foi o produtor Irwin Yablans que sugeriu que a história se passasse num feriado, até chegarem ao consenso de que não havia nenhum filme com o título de Halloween, foi a cereja do bolo.

Vale lembrar que Halloween, junto com os precursores Black Christmas (1974) e Comunnion (1976) foram precursores dos chamados slashers, filmes com serial killers, que usam motivos de datas comemorativas, que seria cristalizado com o sucesso de Sexta-Feira 13 (1980).

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Essa direção de foco, usar a data do Halloween como pano de fundo, animou o diretor John Carpenter, que gastou metade do orçamento da produção investindo em câmeras Panavision. O que temos aqui é puro delírio visual, com travellings, montagem, tudo para criar a tensão necessária. O prólogo, com Myers criança matando sua irmã, sequência toda feita em câmera subjetiva, ou seja, ‘vemos’ a cena pelos olhos da criança assassina, ainda mantém seu impacto, mesmo que obras como Hardcore: Henry (leia sobre ele aqui) tente banalizar o recurso. Outra cena antológica é quando Dr. Loomis e uma enfermeira chegam ao hospital no momento da fuga de Michael Myers, com os pacientes andando a esmo pelas dependências do local, como zumbis, em meio a uma noite chuvosa.

O roteiro lacônico é proposital: não sabemos o motivo porque Michael Myers matou sua irmã, e muito menos porque virou um maníaco homicida. Ou ainda, como um homem internado desde criança num hospício, ao fugir, sai dirigindo um carro que roubou. Na verdade, Myers, aqui, ganha contornos sobrenaturais. Ele simplesmente é o mau absoluto, um ser desprovido de emoções. Esse maniqueísmo, essa planificação simplória, acaba virando mais um trunfo do filme. O assassino ao encarnar a maldade absoluta causa medo no espectador. Eis uma das grandes falhas no remake de Zombie, tentar explicar as motivações do assassino, estragando o encanto.

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A trilha é um dos destaques também. Se em Psicose tínhamos os violinos estridentes, cortesia do compositor Bernard Herrmann, aqui temos um tecladinho martelado insistentemente. O próprio Carpenter compôs a trilha em três ou quatro dias com a ajuda de amigos.

A produção era tão fuleira que não puderam investir em recursos para uma máscara mais elaborada para Michael Myers. Foi comprado então uma máscara do Capitão Kirk, de Star Trek, por menos de dois dólares, pintaram a face de branco e os cabelos de marrom, além de alargarem os olhos. Havia a opção de uma máscara de palhaço, mas a do Capitão Kirk foi a escolhida pela falta de expressão. William Shatner, ou seja, o Capitão Kirk em pessoa, só ficou sabendo que seu rosto serviu de inspiração anos depois, e o ator alegou que ficou honrado.

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O veterano Donald Pleseance está no papel de sua vida, Carpenter, então um iniciante, revelou que de inicio ficou intimidado, depois o ator e o diretor viraram grandes amigos. Curiosamente, para o papel do Dr. Loomis, foram cotados vários atores, entre eles Peter Cushing e Christopher Lee. Ambos recusaram pelo baixo cachê. Mais tarde, Lee afirmaria que ter recusado o papel foi o maior erro de sua vida.

Plagiado até hoje, o hypado Corrente do Mal (leias sobre ele aqui), por exemplo, já na abertura copia uma cena inteira dele. Halloween é um clássico seminal que ainda não perdeu gás. Tão assustador, tenso e imperdível quanto em sua estréia. Uma obra-prima para ser vista no feriado em que se passa.

halloween-posterHalloween – A Noite do Terror

(Halloween, 1978)

Direção: John Carpenter

Com: Donald Pleasence, Jamie Lee Curtis, Tony Moran, Nancy Kyes, P. J. Soles, Charles Ciphers.

 

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