“Feios, Sujos e Malvados” um tapa de Ettore Scola

Tem obras que resistem ao teste do tempo, que com o passar dos anos só tendem a crescer e ficarem ainda atuais. Dentro desta categoria se encontra uma obra-prima tão clássica, quanto incomoda, é o filme Feios, Sujos e Malvados (Brutti, Sporchi e Cattivi), lançado em 1976 e dirigido por um dos maiores realizadores da Itália, Ettore Scola (Nós Que Nos Amávamos Tanto O Baile, entre outros).

O filme é uma comédia dramática, ou tragicomédia se preferir, com teor social. Porém, quando se fala em comédia, não pense em risos rasgados, aqui a sátira surte o efeito de contundência, é antes de tudo um filme incisivo e que poderá até chocar pessoas mais sensíveis.

A obra se passa numa favela nos arredores de Roma, lá encontraremos Giacinto Mazzatella (Nino Manfredi, impagável), que mora num casebre com sua mulher, seus dez filhos e demais parentes (sua mãe, netos, noras, genros). É com essa família numerosa exprimida em um recinto pequeno que Scola utiliza para expor as mazela dos ser humano.

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O velho Giacinto tem um dinheiro escondido em casa, resultado de uma indenização que recebeu por um acidente de trabalho, onde um punhado de cal caiu no seu olho esquerdo cegando-o. Como o velho sovina não pensa em repartir o dinheiro com ninguém de seu numeroso clã, ele sofre constantes tentativas de furtos de seus filhos.

A situação piora quando o velho sovina arranja uma amante (Maria Luisa Santella), e não só a leva para casa, para desgosto de sua esposa (Linda Moretti), como começa a esbanjar seu dinheiro com moça. Sua família chega a conclusão de que é preciso matá-lo.

É marcante a cena em que a família tenta matar o patriarca canalha, envenenando o macarrão do mesmo. Curiosidade escatológica: há um erro de continuidade aqui, Giacinto come massa tipo penne, mas quando tenta se salvar do envenenamento, induzindo o vômito, acaba vomitando massa tipo espaguete.

O filme pinta um retrato impiedoso de Giacinto, um ser avarento, imoral e cruel a ponto de dar um tiro de espingarda no próprio filho, por suspeitar que este roubasse seu sagrado dinheiro. Porém, Scola não mostra o resto da família de forma mais lisonjeira, todos prontos para roubar o pai, assediar e violentar a mulher do próximo (tanto faz se essa seja a nova amante do pai ou mesmo sua cunhada). É na família que Scola mostra seu afresco: temos o filho sem perna que passa o dia mendigando, a vó que só assiste televisão, o filho transexual, a filha que é mãe solteira e trabalha de enfermeira, e que sonha com um casamento, entre outros.

A família de Giacinto serve como termômetro da humanidade para o diretor, porém quando o filme mostra situações corriqueiras da favela envolvendo personagens fora do clã, se utiliza o olhar ingênuo da pré-adolescente Maria Libera (Marina Fasoli), esta personagem que pontuam alguns momentos significantes, como quando conversa com sua vizinha que ganha a vida posando para revistas masculinas (interpretada por Clarisse Monaco, que apesar de atuar em apenas três filmes em sua carreira, realmente ganhava a vida posando para revistas pornográficas). A cena final, mostrando a pequena Maria Libera aleijada de sua pureza, é marcante e incomoda.

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Ettore Scola dribla habilmente o mero sensacionalismo, partindo da decisão de não fazer um drama sério, mas uma farsa, e como tal, utiliza do exagero e do grotesco para fazer graça. No entanto, incomoda verificar que o grotesco e o exagerado mostrado aqui, não estão tão distantes assim da nossa tal vida real. E é justamente nessa crueldade toda, que arranha nossas consciências, que esteja a perenidade da obra, ao mesmo tempo em que se aproxima da obra de Buñuel, por exemplo, ao mostrar as mazelas humanas sem piedade.

Brutti, Sporchi e Cattivi (título que brinca com o título original do clássico de Leone, Três Homens em Conflito (Il Buono, il Brutto, il Cattivo)) também nos joga na cara o óbvio: a de que a miséria moral provém da miséria material.  Numa cena vemos a família toda dormindo, com crianças dormindo perto de casais fornicando, todos amontoados como animais. Em outra cena temos a já citada pré-adolescente Maria Libera, que antes de ir trabalhar, e na falta de uma creche na favela, leva as crianças menores todas para um terreno baldio, onde, junto com outras crianças do bairro, são presas à cadeado numa espécie de jaula, por uma cerca alta de arames e lá passam o dia presas na ausência dos adultos.

O roteiro escrito a seis mãos pelo diretor Scola e mais Ruggero Maccari, e Sergio Citti (autor dos diálogos), é excelente. Destaque para a trilha sonora melancólica de Armando Trovajoli. O elenco está admirável e convincente, com óbvio destaque para o grande Nino Manfredi (Nós Que Nos Amávamos Tanto, Em Nome do Papa Rei, entre outros), que faz com que nós sentimos certa simpatia pelo seu Giacinto, por mais cretino que seja o personagem. Como curiosidade, temos no elenco, como um dos filhos do protagonista, Ettore Garofolo, que trabalhou em Mamma Roma de Pier Paolo Pasolini.

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É interessante ver como o cenário miserável da favela é mostrado em planos abertos, com toda sujeira que tem direito; ao fundo temos a Roma “normal”, seja mostrando ao longe uma ponte e uma rodovia, sejam condomínios de classe média, ou até mesmo a Basílica de São Pedro, do vaticano. Tudo tão perto, e ao mesmo tempo tão distante de nossos miseráveis personagens.

Embora se passe em Roma, o cenário poderia ser em qualquer lugar do mundo, poderia bem se passar numa favela da minha cidade ou na sua cidade.  Feios, Sujos e Malvados é uma obra universal e que não te deixará indiferente. É daqueles filmes que provocam risos nervosos de gosto amargo, ao mesmo tempo em que nos leva a pensar. Simplesmente essencial.

Feios-Sujos-e-Malvados-PosterFeios, Sujos e Malvados

(Brutti, Sporchi e Cattivi, Itália, 1976)

Direção: Ettore Scola

Com: Nino Manfredi, Maria Luisa Santella, Francesco Anniballi, Maria Bosco, Giselda Castrini, Marina Fasoli, Ettore Garofolo, Linda Moretti, Clarisse Monaco.

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